
sábado, janeiro 17, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008

No último dia prometo,
Sem angústias e sem pressas,
Alcançar cada instante,
Proteger-me das feridas,
Do choro arrependido,
Dos suspiros inquietos e intermitentes.
Que tudo seja claridade e lucidez,
As palavras sejam simples mas saciem, sem remédio,
O fluxo e o refluxo das vontades escondidas,
Deixem marcas de fúria e desejo,
Indeléveis ao esvair do tempo,
Inconsequente, incontrolável, irresistível,
Como o mar que se aproxima e inunda todos os medos,
Do cais à minha janela.
Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...
In “Ode Marítima”Álvaro de Campos, in "Poemas"
quinta-feira, novembro 13, 2008

Fugaz, disfarce, espreita,
Áspera, nudez, incendeia,
Impulsivo, estoiro, queima,
Distinta vagueação dilacera,
Irremediável, ideia acontece,
Casual palavra, corrói,
Lúcido gesto, confunde,
Ávido conquistador ama,
Funesto amor cansa,
Sereno, lugar, existe,
Inútil espera, desespera,
Frágil boca, entontece,
Doce mágoa, arranca,
Agreste, voz, desperta.
”Emboscado en mi escritura

…um imutável silêncio
Mil monólogos sem resposta ou
Mostra de vida
…o tempo cativo
Partidas pelo mundo
E certezas conquistadas ao amor
Logo perdidas, descomprometidas
Irreparáveis deslizes de heróis principiantes
…a procura da voz por dentro
Sem verso ou anverso
Entornando poemas e sortilégios
Para lá dos muros da cidade.
“Tua voz no lacerar irreparável da tarde,
Ulisses Duarte, In "Poetaneamente"
*
“Devolveste-me os Cafés
Teresa Rita Lopes, Primeiro Poema do Amor Difícil
*
“Há quem quase tristemente nos deseje boa sorte.Mas a cidade alastra para além destes gestos.
Multiplica-se em rails e deflagrações de rolas.
Crispa-se em vaga-rosa e surda duração.”
quarta-feira, novembro 05, 2008
Cumprir o mundoMudou o sopro do tempo,
Quando lento é o tempo da mudança,
Quando os dias são esquecimento e cansaço,
As dúvidas são do medo e tédio.
Irrompe em chama no coração
A dor que é cumprir o mundo,
A inevitabilidade de amanhã ser mais,
Não ansiar por dias distantes.
E o mar avança pelo céu e pela terra
Cada dia, todos os dias,
Salgado e amargo, revolto,
Seguindo rumos e outras partidas,
Palavras minguantes, de pedra e amor.
E o vento sopra sempre em todas as direcções do tempo.
*
”Mas num dia amargo, num dia distante sentirei a raiva de não estender as mãos de não erguer as asas da renovação.” Pablo Neruda, in “Cadernos de Temuco”Tradução de Albano Martins
*
“Todo o mundo é composto de mudança”
Luís de Camões, in “Poesia Lírica” - “Mudam-se os tempos”
sexta-feira, outubro 17, 2008
segunda-feira, agosto 25, 2008

quinta-feira, agosto 14, 2008

Embarcando
Os dias abandonam-se vagarosos
Espiando as velas perdidas no mar,
Sem nome, nem medos, nem porto,
Embarcando sempre ao longe,
Recusando palavras ou atenções,
Temendo acordar febris e adormecer
Sabendo por quem chamar.
Nada mais se ouve.
Estico os pés sobre a água,
A beira-mar limpando a saliva e a espuma das pedras,
E esqueço-me da certeza do regresso, da sorte
Dos enganos que não revelo serem meus.
terça-feira, agosto 12, 2008

Ébrios,
Sossegamos ao crepúsculo
Emudecidos,
Escrevendo a café e silêncio,
O temor e a surpresa,
A aceitação da eternidade,
Os instantes sem distância,
Depois de nós e de todos e o mar, sem horizonte,
Dormindo sobre as palavras,
Dançando sobre o amor,
Rindo sobre o calor despertado, que irrompe
E se desfaz,
Todos os dias,
Finito, como nós.
“(…)baila, con el corazón apuñalado, cantay ríe porque la herida es danza y sonrisa,(…)”
in La Bailarina Apuñalada de Nazik Almalaika – traduzido por Maria Lucia Prieto.)
(Thira - Santorini - Grécia)
sexta-feira, agosto 08, 2008

As sombras da felicidade escorrem apressadas
Nas esquinas brancas, escondidas, adivinhando,
Despertadas pelas cigarras em sentinela,
Assobiando ao calor,
Ao mundo, levantado na ponta dos pés
Perto da porta, do mar,
Ao lado da janela
Onde o sol chega até metade a esta hora,
E as horas da tarde são para sempre…
quinta-feira, julho 17, 2008

O céu suspende-se
Nas constelações de palavras que crescem, voam
Nas velas, nas redes, nos sons da respiração silenciosa,
Sustendo-se numa garrafa deitada no mar.
Inesperados caminhos, estes,
Perfumes ocultos na luz imprecisa, inesperada, sublime do Egeu
Onde tudo é um princípio ardente,
Uma história sem regresso,
Uma lua rara e um amor inteiro.
Tudo se precipita no abismo,
Com ardor, crepitando nos instantes do meio-dia,
Esperando a reconciliação da noite,
Do anúncio da sombra espessa e abundante,
Do universo encontrando o seu lugar.
sábado, julho 12, 2008
MediterrâneoAqui sou eu,
Gigante,
O mundo, que descansa,
Braços descoberto sobre a mesa,
Até mim, entre nós, as palavras,
A verdade, navegando, o vinho.
Somos tempo e luz que não se encontra nem se apaga,
Que nasce e mergulha no horizonte,
Sem cessar,
Como tu e eu...
Oia (Santorini - Grécia)
O Mediterrâneo ao longe escurece
Mas
Eu
Sou o único azul.
O passado do Mediterrâneo é antigo, distante,
Mas
Eu
Sou o dono das estrelas.
O Mediterrâneo não pode criar-te novamente
Mas
Eu
Posso te amar mais uma vez.
Fazıl Hüsnü Dağlarca
In Poemas do Mediterrâneo
terça-feira, junho 24, 2008

É no silêncio mais quente deste poema,
Que ainda não se vislumbra a inquietude latente da aproximação,
A vibração incandescencente do aviso tombado na porta,
Na escada, no quarto, na cama, na boca,
Prostrado,
Sem brandura, com estranha intimidade,
Desfazendo-se em tremor,
Explodindo, ressoando,
Do interior, peito rasgado,
Explodindo, sem apelo, nem agravo
Na vibração de uma nota suave.
A forma como se expandem antes e depois de nos devorarmos
Assim como fogos que se extinguem e renascem
Atravessando o calor da noite
E todas as moradas dos acasos felizes
Que implodem quando menos se espera
E quando mais nos queremos.
quinta-feira, maio 22, 2008

Suspiro…
quinta-feira, maio 15, 2008

As razões suficientes do fingimento
Lambem-se sobre as folhas, as palavras iradas
Nos momentos em que perco a vergonha dos teus olhos,
No fumo da descoberta dos risos perdidos da porta laranja,
O Bairro na hora que peca e anoitece
Uma vez mais e se desfaz,
Ilusão,
No meu medo imortal de outro calor
Que não este,
O teu, diminuindo, fugaz.
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago in “intimidade”
segunda-feira, abril 28, 2008
terça-feira, abril 08, 2008

Mesmo que esperasse a imensa travessia das duas pontes sobre o mar,
Todos os diabos seriam lapsos imperceptíveis e fugazes,
Curtas chamadas irresistíveis, indulgentes.
Seria só chuva, desabotoa, ruído baço que desbota.
É curta a distância entre a vontade e a razão.
“Ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa.
Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim”
De José Lobo Antunes
In “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”
sexta-feira, abril 04, 2008

Abril aquece antes de tempo,
O telefone interrompe o meu cigarro na janela,
Falas que passavas por acaso,
Hesito entre a cama, uma cerveja no Bairro e os prazeres do corpo.
Vem.
Óculo indiscreto treme,
Oiço a porta, dois andares abaixo,
A porta entreaberta força o beijo, a língua,
A mão entre a tua roupa e o teu corpo,
O teu peito, as tuas nádegas, a língua outra vez,
A voz que nada diz e tudo quer,
E tudo faz, descreve clichés, diverte,
Sabe bem, ir ao acaso, com as mãos e as palavras.
quinta-feira, março 13, 2008
Madrid (palabras sencillas)El amanecer llegó temprano
(Me envenenó con el miedo de la tormenta)
Y se olvidó de quién soy,
De las cosas que deseo con ganas y dolor.
(Mientras la noche no empieza y no termina)
Como cautivo y loco,
Sigo el sonido de las calles
Hasta llegar a ti,
Hasta llenarme de ti.
Me dejé al sueño, al pressentir el olor del verano.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Nomes à solta,
No confronto das vagas
Esbracejando,
Corações pesados
Lançados no mar,
Embarcados nos enganos,
Num sublime pranto,
Como ferro esfriando, esmorece
Quebra de dor.
Não tarda que acabe
Este queixume moribundo,
Gritos esmagados
Que já só Deus pode atender,
Como frágil caravela condenada, ardendo,
Afundando na rebentação.
O céu reclama
Por nunca termos sido mais do que a exacta poesia
Da névoa tomando o cais,
Da chuva beijando as brasas que se afogam diante nós.
“(…)A chuva no chão revela
In “Laços” de Tiago Bettencourt
sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Não encontro no sossego da noite em diante
Na vertigem da escrita
O sentido oculto do meu nome,
Nem a saída nem o começo
Do labirinto desenhando na condensação da janela.
Dormes,
Corpo devassado sem cicatrizes
Sem identidade,
Diluído numa metáfora desinspirada
Imediatamente esquecida,
Latejando ensurdecedoramente.
Os outros, os nomes esquecidos
Da minha insónia,
São nómadas vagueando por esta casa,
Cúmplices das folhas brancas que se soltam
E se tingem de palavras arrancadas no meu peito.
quinta-feira, janeiro 31, 2008

Sigo o rasto rasurado dos sonhos,
Sem estrelas nem mapa,
Cruzando abismos de olhos fechados,
Embalado na respiração ordeira e transeunte
Dos mais simples intentos que invento e
Que desmembro à nascença.
É inaudível, transparente, fétida e dolorosa
A geografia rasgada da cidade,
Monstro sub-reptício devorando-se em sofreguidão,
Que fende, cede, abre, pulsa, rasga,
Corrói o horizonte fissurado
Pela luz difusa deste negro prado cintilante.
O nome da viagem é o caminho para a morada esquecida.
(…)este negro prado de cimento cintilante
de ramos e segredos oníricos
de silêncios dissonantes
de caos harmoniosos (…)”
in “Nave Mãe” de Pedro Peralta

Por entre as grades e a neblina
Prendem-se as luzes ferrugentas do porto,
Acalma-se a vastidão dos gritos metálicos,
Numa longa descida às horas mortas da madrugada.
Passos nascem e morrem nas ruas largas dos aterros ribeirinhos,
Perdidos,
Afogados em chuva lacrimosa
Nas paixões que arrefecem,
Abandonas à ferrugem dos quartos vazios e
Estuque esboroado,
Despontando das fachadas tristes,
Precipitando-se das sacadas podres que assomam nas colinas.
Em todas as janelas, o horizonte é fundo e triste.
Entrego-me.
“Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer (…)”
In “O Sentimento de um Ocidental” de Cesário Verde
quinta-feira, janeiro 24, 2008

Às doze passa o comboio e o barco
Dos cinco minutos depois, avisa a cidade, agora
Que se afasta da marginal, aos quinze minutos de cada hora,
A que demoro, todos os dias,
Para as avenidas altas, às treze,
Onde espero mais vinte, eternidades, por ti,
E gasto mais dez, cigarros, implacáveis
Com os meus trinta e um anos de vida,
Perfeitamente realizados
A cada uma das incontáveis ocasiões que te toco,
Amaldiçoados dedos, cinco, os meus e
As vezes ao dia que digo que vou fugir, outra mentira,
E voltar aos teus braços, quatro,
Envolvidos todas as manhãs, mil
Histórias contadas a cada sonho e noite que perco da conta, sempre,
Quando sabemos que isto não vai mudar,
Sempre que nos lembrarmos de nos questionar,
Se somos dois ou um.
Conta-me, quanto falta para não faltar mais nada,
Para sermos deuses e enquanto quisermos,
Para termos a eternidade até que caíamos mortos,
Como heróis,
Repletos de tédio ou de excesso de nós.
sábado, janeiro 12, 2008

És,
Caprichoso gozo atormentado,
Prazer obsceno encoberto,
Palavra que não existe,
Segredo cansado, decifrado,
Inferno,
Sangue ardendo profundamente,
Eco do riso que arranha o relento,
No paraíso,
Veneno de bem-querer,
Sombra que esconde, finge, vicia,
Crua verdade, maldade fugidia
Que tropeça,
Em mim.
sexta-feira, janeiro 11, 2008

Vens de feição, tempestade solta,
Amor cavado e de ondas altas
De correntes escuras fustigando os antípodas,
Afogando de desejo, pressa, medo e engano,
Perdida, perdendo, afundando-me, em mar sem sentido.
Não vás sem que eu saiba porque vens,
Perde-te, acha-me nas dúvidas revoltas,
Nas notas libertas de um obscuro fado,
Na chuva que não pára
E te obriga a ficar,
A olhar para dentro do que deito para fora,
Decifrando verbos claros e adjectivos proibidos.
As sombras que assomam na rua
Abrem-me o coração a cinzel,
Destemidas, sem medos, com força e inspiração,
Tágides caladas, em voz funda e firme,
Indicando-me as amarras trocadas
Nas nossas duas margens.
Sopras-me o mundo que se perde no embaraço,
Deitas-me fora, choras
Renegas as escolhas sonolentas dos tempos, do passado,
Sou eu, barco perdido, destemido Argonauta
Que não descansa.
Tu, Adamastor ferido,
Arriscando matar de tanto amar.
sábado, janeiro 05, 2008

Uma voz esplêndida viajando,
Uma orquídea selvagem
De modos extravagantes,
Vagueando nos ouvidos do mundo,
Brotando de uma nua e virtuosa cidade
De ruas e musica cheias de tempo e pressa,
De calma e de dias a menos para outros dias,
Subindo e descendo nos elevadores rabugentos
Mas de cheios corações rendilhados,
De braços abertos respirando
Os risos nocturnos,
Olhando a encosta que se estende incólume e teimosa
Como a felicidade agora decifrada
Perante nós,
Confessores clandestinos sorrindo,
Saboreando os segredos que se revelam em surdina.
terça-feira, dezembro 18, 2007
segunda-feira, dezembro 17, 2007
quinta-feira, novembro 15, 2007

Desconsolo
Talvez nunca mais
O teu olhar fugitivo perderá passos no meu alcance,
Deixará destroços no meu porto
Onde nada existia e tudo acontecia,
Na sombra mascarada dos desejos ocultos,
Mergulhados nos baixios que ninguém conhece.
Talvez, outra vez,
Nos diluamos no desconsolo e na solidão
Como margens abandonadas sem brilho
Esperando consolo e absolvição.

O canto do muezim
No mais puro encantamento,
Nem o silêncio quebra o despertar do horizonte
Ressoando nos pensamentos adormecidos
Dos mundos que se abrem todos os dias
E se fecham, incógnitos,
Indiferentes e insuspeitos ao dançar das sombras.
É da paz, a virtude de se poder amar as coisas divinas,
E do crepúsculo, o renascer do impulso de mais querer,
Sentir as palavras suspiradas pelo acordar da cidade,
Quase imperceptíveis, quase irremediavelmente distantes.
Só os pássaros ousam rasgar os restos da madrugada,
Como se nada fosse senão o mais belo dia que se respirou,
Mesmo que de olhos e alma descansando,
Escondidos de si e da sinuosa tarefa de inventar palavras e línguas,
Que se justifiquem descrevendo o agora.
E por outra vez,
Antes do irromper do rumor das ruas,
Ouve-se no mais simples vocalizo,
O calmo renascer da consciência do mundo.
terça-feira, outubro 23, 2007

Disseste que não anoitecia sem nós
Disseste enquanto não te ouvia,
Perdido nas coisas que pressentia e esquecia,
Seguindo o rumo das folhas empurradas pelo vento,
Caindo da secretária, procurando caminhos pela casa.
A janela aberta dizia que o dia fugia, mas tu não,
A cidade só adormecia depois,
Depois de nós
Lançarmos suspiros por três meios e meio de pé direito até lá fora,
Soltando-se de um abraço que anoitece e dilui-se
Nas luzes que tremem sobre a água.
quinta-feira, setembro 20, 2007

Fina corda
Flutua no arrepio da porta entreaberta,
Um grito rouco e velado
Que se cala para não se ouvir,
Sustido nas bocas límpidas
Que se tocam devagar e com firmeza,
Dedilhando uma fina corda
Ténue, invisível, insinuante.
São pássaros da solidão,
Fumando deitados,
Com memórias dispersas afundando-se
Com os pés descalços sobre pele macia,
Alongando um fim de tarde pontuado por ciprestes.
quarta-feira, setembro 12, 2007

O espanto da cidade desfaz-se,
Lá no alto,
Num imenso e leviano desperdiçar
da luz da tarde.
Nós, rindo
Do coração batendo, a cada passo
Do corpo tomado pelo perfume
Ávido do poente, imperceptível,
Quebrando como ondas na muralha,
Em silêncio, exaltante,
Gemendo baixinho,
Escondido do vento,
Adormecendo longe do mundo.
Tal como eu sabia,
A última árvore rendeu-se ontem,
Desfeita em ínfimos pedaços,
Vozes desaparecendo num enorme marulhar pela cidade fora,
Saltando e dançando ao acaso, sobre o asfalto,
Sobre o ombro, o pressentimento.
Tal como disseste,
Procurei, em vão, sombras naquela avenida,
Na nudez do passeio vazio e sujo,
Interminável, definhando ao sol,
Os olhos cedendo a um ardor afinal sombrio,
Entre pó e vozes apressadas,
E o chão árido escondendo o trânsito submerso no túnel.
A cidade condena,
Talvez sem suspeita,
Quando nos desperta e nos queima.
“Mal de te amar neste lugar de imperfeição
in “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”
de Sophia de Melo Breyner
quinta-feira, setembro 06, 2007

Sem perder de vista o mar,
Outra noite desmedida
Cresceu com ímpeto da tempestade,
Indiferente ao cansaço,
Ao cheiro dos versos escritos a álcool.
Passeavam vagarosamente pelas ruas, cansados,
Indiferentes ao negrume das árvores velhas,
Os pés alisando o asfalto em tumulto, arrefecido,
Tremendo, os corpos com falta de outros corpos,
Sem sítio perto ou distante,
Sem tempo e com pressa de adormecer.
Outra noite e a cidade crescia para longe.
“(…) ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
"To Helena", Nau dos Corvos, Transporte no Tempo,
quarta-feira, setembro 05, 2007

Estrada (à procura do fim)
O Outono nos teus lábios esmorece,
Deixa um rasto de cada momento
Em todas as estradas que prometemos abandonar,
Fugidos da luz enegrecida do fim.
Encontrámo-nos neste lugar ínfimo,
Morrendo no mesmo instante
Profundo,
Em furtiva descida à escuridão dos medos,
Quando os olhos se fecham,
Sabendo que por pouco tempo.
Caímos entristecidos.
“(…) a tua morte tem avançado para dentro de mim como uma doença a querer progredir.(…)“
Lá fora é outra cidade,
Indiferente, triste,
Deixando-se observar,
Gasta, a medo amanhecendo,
Afundando-se sem brilho na água escura do cais,
Esquecendo o compasso das marés partidas
Que só a minha janela fechada deixa ver.
Lá fora
É uma e outra vontade que desiste,
Como eu,
Principiando a desaparecer,
Adormecendo, vagueando
Como um nómada,
Na minha casa,
Sem destino e sem caminho,
Perdido.
“(…)eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis(…)”
Al Berto in “Roulottes da noite de Lisboa”
terça-feira, setembro 04, 2007
quinta-feira, agosto 23, 2007

Refúgio
Vive em ti outro ano mais quente que antes
Refúgio infinito do sul interminável
O encanto de sonhar para diante
A rendição ansiosa ao perfume que nos liga e nos quebra.
Permanece em ti o esconderijo
Do vento que há muito não desfralda bandeiras
Da folhagem solta no descanso
Do bramido das vozes que povoam o horizonte,
Rugindo intemporais.
Procuro em ti
A serena frescura das manhãs marítimas
Os sombrios recantos dos poemas sem sono
Onde não se dorme sem sonhar.
A terra e o céu calam-se e riem em ti.
In “O jardim e a noite”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”
terça-feira, agosto 21, 2007

Escondes-te de forma a que te veja,
Na camuflagem das flores nocturnas,
Com as cambiantes da luz reflectindo no lado esquerdo da parede,
Assomando à janela, com o ruído das estrelas
E dos amantes perdendo-se,
Sem olhar ao tempo que pára e acaba naqueles momentos.
Continuo acordado,
Alheio à tua interferência na cadência do universo,
Reacendendo feridas,
Indiferente aos rasgos na pele às entranhas,
Que se abrem em ferro quente,
O sangue em fios, enforcando-me,
A asfixia, o prazer de poder acabar agora mesmo,
Contigo.
Ainda te procuro no sono que volta e desaparece.
Naufragando no mundo que nos pertence e nos atormenta,
Perdido, seguindo o último cigarro que se apaga,
Testemunhando o fim dos medos,
Das imagens que devoro e apago,
Na dormência que chamo para me anestesiar.
Talvez sejas tu,
O desejo que procuro na escuridão intacta do quarto.
“Quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos...”
In “A Morte de Rimbaud” de Al Berto.
sábado, agosto 18, 2007

Disseste em belo português,
Curto e simples,
Palavras de carne e osso,
Tacteando até encontrar um olhar.
Viajámos para trás,
Resolvemos os mistérios
Das formas fílmicas do adeus,
Entorpecidas, arrebatadas
Presas à liberdade da imaginação.
Rompe-se uma fina camada de cal,
Inocente,
O tumulto do medo ao querer
Um pouco de ti em tudo o mais.
Disseste, nada mais do que isso.
terça-feira, julho 31, 2007
Todas as dúvidas acordam pontuais,
Às meias horas nocturnas,
Deslizando em gotas perfeitas de suor,
Decorando a ponta dos dedos,
Ao som da música incessante dos sonhos.
Ainda não me rendi,
Não parei de lutar, nem de falar
De punhos cerrados e sorriso aberto,
Decifrando olhos semi cerrados,
Corações disfarçados de gente.
Mais um movimento certeiro
E mais um fio de sangue,
Traçando na cara as linhas das minhas certezas,
Marcando os passos incertos dos meus ideais,
Moldando a feições das palavras.
Ainda assim, não me rendi.
segunda-feira, julho 30, 2007
O dia mais quente do ano
Começava em sufocos de calendário
Há mais luas do que aquelas que nós víamos
Á medida que o amor arrefecia
Enquanto a amizade se pintava de matizes desconhecidas.
Naquele dia,
A esplanada estava vazia
E o passeio escaldava-nos as pernas,
Espreitando a sombra das escadas,
Descobertas,
Em preto mediterrânico e gelado de morango
Cruzadas a 45 graus,
Aquecendo os risos impacientes.
A brisa perdera-se nas esquinas da calçada,
E não eram ainda nem onze horas,
Nem tempo de fugirmos ao estio,
Apenas aos braços um do outro,
Reanimando o que nós insiste em não morrer.
Dizia-se ser o dia mais quente do ano,
Mas naquele mármore fresco do pátio,
sexta-feira, julho 20, 2007
O mundo trespassado pelo tempo,
O ódio e o amor flutuando no movimento dos passos,
Dizendo, devagar, o que acontece muito depressa,
Nos ínfimos segundos de atenção
Esquecidos,
Seguindo o norte,
Procurando os cantos à esfera das palavras,
Misturadas na terra que se levanta
E se inunda na falta de chuva e cor,
Esperando o castigo de nada se esperar,
De tudo acontecer.
“(...)Ninguém disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de nós a puxar-nos para o nosso interior mais negro(...)”
In “Cemitério de Pianos” de José Luis Peixoto.
segunda-feira, julho 16, 2007
No clamor da noite, cresce
Adiada, sumida, perdida
Pela transparência das luzes ténues
Tremendo até à infíma dispersão
Como astros viajantes
Crisálidas suspirando entre metamorfoses
Descobrindo a espessura das cores e dos sonhos
Percorrendo pomares de perfume tropical
Num caminhar de bossa nova.
Agosto é já amanhã,
Na marginal.
sexta-feira, julho 13, 2007

A travessia perde-se nas correntes e vagas,
Nos equívocos dos ventos e sopros em sal marinho
Cruzam-se os nós, os laços,
Os beijos firmemente seguros
Desprendidos, soltos, submersos
Voando sobre o imenso azul,
Precipitando-se nas profudenzas das palavras,
Purificando imperfeições,
Escrevendo o futuro nas auroras que despontam,
Que derramam a luz sobre a pele,
Emudecem o mundo...








