Sábado, Outubro 31, 2009


Etílico

Escuto o álcool correr.

As janelas e a música

Chamam cidade suja, delirante,

Adiam a minha descida à madrugada,

Aos prazeres idílicos e voláteis,

Que, lentamente, mordem as horas,

Que adormecem as dores,

Lapidam a poesia constante das noites intermináveis.

As palavras, os medos os risos e os azares,

Examinam cada rosto apressado que tropeça na calçada,

Interrogando cada pessoa que atravessa o Bairro Alto

Que se repetem a cada trago, a ausência e o esquecimento.

Mais um coração bate,

E outro amor dissolve-se em vários copos,

Evapora-se ébrio

Num perfume etílico, eminente, inesgotável.

Quinta-feira, Março 26, 2009


Todos os poemas de Madrid

Todos os poemas podem ser instantes,
Noites que se desfazem depressa,
Vozes que se pensam perdidas e que se encontram sem saber,
Encontros fugazes, insinuações inconscientes,
Nos outros pólos de atracção e repulsa,
Nos caminhos, nas canções,
Nos olhares que não se cruzam.

A poesia das coisas que se escondem,
Que se inventam,
Que se perdem por querer,
Mergulhando no calor das cidades,
No prazer da descoberta dos recantos do teu corpo,
Nos medos, na inquietude,
Vive profusa, esparsa e fugidia,
Em estado de eterna, entusiasmada, prontidão.


É a impaciência que despeja a tinta em forma de palavras,
É o silêncio que desperta os sonhos e a fuga,
O desterro dos sentimentos indecifráveis ou mais banais,
É a cidade, esta, que trago colada sem conseguir arrancar,
Sem lembrar as perguntas e as respostas,
Na tormenta dos amores guerreiros.

O sol aquece as ruas sem luar, as mãos, os corações enfeitiçados e
Repletos de gente e poemas ao acaso.

Terça-feira, Março 24, 2009


Corpo amargo

O corpo deitado, respira as memórias de ontem
- E as outras, que agora imagino -
Silencioso, seguindo a corrente e os barcos ao fundo, a luz
Que se extingue no tempo escuro,
Esgueirando-se nos sonhos.

A música ofegante da madrugada some-se com as vagas,
Viaja nos sussurros da cumplicidade
Até aos portos escondidos da tua alma,
Envolta em neblina e no amargo do medo.

Estremece-nos a pele e a inquietude do corpo,
Afogados no ruído ofegante,
Ressoando, desaparecendo
Subitamente
Já distante, adormeces.

Interrogo-me, sem que saiba, na verdade, o que devo perguntar-te.



“As mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais - porque o tempo todo talvez esteja onde existimos.”
Al Berto, O Medo

Quinta-feira, Março 12, 2009



Arco das Portas do Mar

A noite finda, exausta e com medo
Acordamos mergulhando no oceano,
Na maré da manhã que nos arrebata da frieza das pedras,
Dos corpos fundidos com o imenso que finda e se inicia
Sempre que agarramos e cruzamos o céu e a almas,
Quando nos fazemos corpos celestes em fogo e cadentes,
Como palha desfazendo-se na chuva,
Inundando tudo o que contemplamos por inteiro, infinitos
A lua, o mar e a espuma que se quebram e soltam na correnteza,
Confidentes dos segredos que se guardam sobre o arco
Nas portas do mundo.


“A porta do mar, na qual penetram as ondas pela maré cheia, e vêm, numa altura de três braças, bater contra a muralha.”
Al-Himyari, Kitab-Rawd Al-Mitar, sobre a Cerca Moura de Lisboa
Traduzido por António Borges

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009


Bairro (alto)


Renovam-se, multiplicam-se, incessantes, irresistíveis,
Os planos para a noite, para arrumar o mundo,
Os loucos e perfeitos movimentos, moribundos,
As artimanhas e conjecturas, sortilégios,
As fugas, amores e beijos roubados, tesão,
As lutas, desejo e inquietude, a devassa, tu,
Os prazeres escondidos, proibidos, adorados em surdina,
As paredes que transpiram,
As companhias, estranhos equívocos, revelações,
Palcos improvisados,
As torrentes de vozes, subindo, morrendo, ressurgindo,
As portas abertas, peitos escancarados, ao alto,
As luzes pardas,
As noites e dias seguidos em rotineiro e excitado sobressalto,

O Bairro,
A cidade que se interrompe, por meros instantes, quando amanhece.
Até já.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009


Cais das mil colunas (infinito)

O silêncio apodrece na areia suja,
Perde-se nos poemas e artifícios do tempo
Ateado nas ondas despedaças no cais,
Feridas nos sublimes avanços das marés.

Singram as palavras no rio,
Aportam os dedos na tua boca,
Os beijos ancorados no cais,
Apontando ao céu
E ao mar adiante, infinito,
Entrando na cidade, vestida de travessias
E luz de fim de dia.

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009


Lisboa para amantes


Ninguém soube dizer-me
Quem foste tu.

Não se podem fingir as partidas,
Esconder feridas com golpes
Ter amigos e amantes e pecados inconfessáveis,
Promessas sobre tudo o mais que não se pode dar,
Esquecer tudo o que se fez e se faz e insiste,
Trilhar os mesmos bairros que descobrimos por nós
Em ruas traçadas a descuido,
Sozinhos, a sós com desejos nocturnos intermitentes
E não perguntar: quem és tu?

A paixão chama-se sangrando no coração,
Gritar verbos que ardem no sofá aberto à rua,
Incessante,
Transbordar as margens, com o rio, as inconstâncias da razão,
Correr o sonho, sôfrego
Nos instantes que nos atordoam.

Fomos docas mansas, portos de abrigo cheios de adeus,
Brilhámos longe,
Acesos pela lua que nos vigiava,
Procurando saber quem queríamos ser, nós.

Somos sombras e beijos ditados pela cidade,
O veludo da nudez,
Das praças vazias amanhecendo com a luz.



“Encheram profunda taça e envolveram-se em fervor. Ficou-lhes na boca — presa ao crescente desejo de mais beberem, de mais conhecerem — o sabor da outra Vida maior, onde os levara o ensejo de ultrapassarem a carne. (…)”António Salvado, in "Difícil Passagem"

Sábado, Janeiro 17, 2009


Na 3.ª Edição da Revista Volte-Face, fotografia, design, intervenções e poesia.
Textos de Daniel Costa-Lourenço e Pedro Peralta

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008


O dia seguinte

No último dia prometo,
Sem angústias e sem pressas,
Alcançar cada instante,
Proteger-me das feridas,
Do choro arrependido,
Dos suspiros inquietos e intermitentes.

Que tudo seja claridade e lucidez,
As palavras sejam simples mas saciem, sem remédio,
O fluxo e o refluxo das vontades escondidas,
Deixem marcas de fúria e desejo,
Indeléveis ao esvair do tempo,
Inconsequente, incontrolável, irresistível,
Como o mar que se aproxima e inunda todos os medos,
Do cais à minha janela.


Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...

In “Ode Marítima”Álvaro de Campos, in "Poemas"

Quinta-feira, Novembro 13, 2008


Conversa (improvável)


Fugaz, disfarce, espreita,
Áspera, nudez, incendeia,
Impulsivo, estoiro, queima,
Distinta vagueação dilacera,
Irremediável, ideia acontece,
Casual palavra, corrói,
Lúcido gesto, confunde,
Ávido conquistador ama,
Funesto amor cansa,
Sereno, lugar, existe,
Inútil espera, desespera,
Frágil boca, entontece,
Doce mágoa, arranca,
Agreste, voz, desperta.



”Emboscado en mi escritura
cantas em mi poema.R
ehén de tu dulce voz
petrificada en mi memoria.
Pájaro asido a tu fuga.
Aire tatuado por un ausente.
Reloj que late conmigo
para que nunca despierte.”
”Tu Voz” de Alejandra Pizarnik In
"La extracción de la piedrade la locura. Otros poemas.".

Devolveste-me

…um imutável silêncio
Mil monólogos sem resposta ou
Mostra de vida
…o tempo cativo
Partidas pelo mundo
E certezas conquistadas ao amor
Logo perdidas, descomprometidas
Irreparáveis deslizes de heróis principiantes
…a procura da voz por dentro
Sem verso ou anverso
Entornando poemas e sortilégios
Para lá dos muros da cidade.




“Tua voz no lacerar irreparável da tarde,
é como um gesto que arde
no fogo lento do canto...”
Ulisses Duarte, In "Poetaneamente"
*

“Devolveste-me os Cafés
cheios de gente que afinalexiste
Devolveste-me o tampo liso das mesas
sua lúcida certezade estar só”
Teresa Rita Lopes, Primeiro Poema do Amor Difícil
In"Os dedos os dias as palavras".

*

“Há quem quase tristemente nos deseje boa sorte.Mas a cidade alastra para além destes gestos.
Multiplica-se em rails e deflagrações de rolas.
Crispa-se em vaga-rosa e surda duração.”
Mário Cláudio In "Terra Sigilata".

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Cumprir o mundo

Mudou o sopro do tempo,
Quando lento é o tempo da mudança,
Quando os dias são esquecimento e cansaço,
As dúvidas são do medo e tédio.

Irrompe em chama no coração
A dor que é cumprir o mundo,
A inevitabilidade de amanhã ser mais,
Não ansiar por dias distantes.

E o mar avança pelo céu e pela terra
Cada dia, todos os dias,
Salgado e amargo, revolto,
Seguindo rumos e outras partidas,
Palavras minguantes, de pedra e amor.

E o vento sopra sempre em todas as direcções do tempo.

*


”Mas num dia amargo, num dia distante sentirei a raiva de não estender as mãos de não erguer as asas da renovação.” Pablo Neruda, in “Cadernos de Temuco”Tradução de Albano Martins


*
“Todo o mundo é composto de mudança”
Luís de Camões, in “Poesia Lírica” - “Mudam-se os tempos”


Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Escondido (no tempo)

Esconde-se na tua pele
A noite eterna,
O medo frio de não chegar,
De não me lembrar a que sabem os dias a meio do mês
E as horas fora d’horas,
Os prazeres sofridos da culpa e da ambição
Como foragidos
Mergulhando, impossíveis, conscientes,
Definhando,
Sem terra nem chão, nem coração.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008


Paredes

À volta são só paredes,
Olhos sem cor,
Perdidos na manhã que se desmorona
Em pesado silêncio,
Consumindo-se,
Por cada ruído de outro mundo,
Num indelével crepitar da despedida,
Em encontros casuais com o abismo do esquecimento,
Esperando em cada sombra
O espanto mudo e imperturbável das palavras
Escapando-se das janelas escancaradas sobre a cidade.


imagem: semanário "sol" 25/8/2008
incêndio do Chiado - 25/8/1988

Quinta-feira, Agosto 14, 2008



Embarcando

Os dias abandonam-se vagarosos
Espiando as velas perdidas no mar,
Sem nome, nem medos, nem porto,
Embarcando sempre ao longe,
Recusando palavras ou atenções,
Temendo acordar febris e adormecer
Sabendo por quem chamar.

Nada mais se ouve.

Estico os pés sobre a água,
A beira-mar limpando a saliva e a espuma das pedras,
E esqueço-me da certeza do regresso, da sorte
Dos enganos que não revelo serem meus.
(Therasia - Grécia)

Terça-feira, Agosto 12, 2008


Crepúsculo

Ébrios,
Sossegamos ao crepúsculo
Emudecidos,
Escrevendo a café e silêncio,
O temor e a surpresa,
A aceitação da eternidade,
Os instantes sem distância,
Depois de nós e de todos e o mar, sem horizonte,
Dormindo sobre as palavras,
Dançando sobre o amor,
Rindo sobre o calor despertado, que irrompe
E se desfaz,
Todos os dias,
Finito, como nós.


“(…)baila, con el corazón apuñalado, cantay ríe porque la herida es danza y sonrisa,(…)”
in La Bailarina Apuñalada de Nazik Almalaika
– traduzido por Maria Lucia Prieto.)

(Thira - Santorini - Grécia)



Sexta-feira, Agosto 08, 2008


Perto do mar


As sombras da felicidade escorrem apressadas
Nas esquinas brancas, escondidas, adivinhando,
Despertadas pelas cigarras em sentinela,
Assobiando ao calor,
Ao mundo, levantado na ponta dos pés
Perto da porta, do mar,
Ao lado da janela
Onde o sol chega até metade a esta hora,
E as horas da tarde são para sempre…
Thira (Santorini - Grécia)

Quinta-feira, Julho 17, 2008


Palavras inteiras

O céu suspende-se
Nas constelações de palavras que crescem, voam
Nas velas, nas redes, nos sons da respiração silenciosa,
Sustendo-se numa garrafa deitada no mar.

Inesperados caminhos, estes,
Perfumes ocultos na luz imprecisa, inesperada, sublime do Egeu
Onde tudo é um princípio ardente,
Uma história sem regresso,
Uma lua rara e um amor inteiro.

Tudo se precipita no abismo,
Com ardor, crepitando nos instantes do meio-dia,
Esperando a reconciliação da noite,
Do anúncio da sombra espessa e abundante,
Do universo encontrando o seu lugar.



Imerovigli (Santorini - Grécia)

Sábado, Julho 12, 2008

Mediterrâneo

Aqui sou eu,
Gigante,
O mundo, que descansa,
Braços descoberto sobre a mesa,
Até mim, entre nós, as palavras,
A verdade, navegando, o vinho.
Somos tempo e luz que não se encontra nem se apaga,
Que nasce e mergulha no horizonte,
Sem cessar,
Como tu e eu...

Oia (Santorini - Grécia)

O Mediterrâneo ao longe escurece
Mas
Eu
Sou o único azul.
O passado do Mediterrâneo é antigo, distante,
Mas
Eu
Sou o dono das estrelas.
O Mediterrâneo não pode criar-te novamente
Mas
Eu
Posso te amar mais uma vez.

Fazıl Hüsnü Dağlarca
In Poemas do Mediterrâneo

Terça-feira, Junho 24, 2008




Peito rasgado

É no silêncio mais quente deste poema,
Que ainda não se vislumbra a inquietude latente da aproximação,
A vibração incandescencente do aviso tombado na porta,
Na escada, no quarto, na cama, na boca,
Prostrado,
Sem brandura, com estranha intimidade,
Desfazendo-se em tremor,
Explodindo, ressoando,
Do interior, peito rasgado,
Explodindo, sem apelo, nem agravo
Na vibração de uma nota suave.

A forma como se expandem antes e depois de nos devorarmos
Assim como fogos que se extinguem e renascem
Atravessando o calor da noite
E todas as moradas dos acasos felizes
Que implodem quando menos se espera
E quando mais nos queremos.

Quinta-feira, Maio 22, 2008




Águas paradas

Suspiro…
Por vezes penso, demasiadas vezes,
Será esta a minha ardência, o meu compasso,
O lugar, das minhas outras palavras, as próximas,
As que não falam mas batem inquietas, tocam, afagam?
Será este o idioma dos meus pensamentos, aqueles, os indecifráveis
Que segredam a verdade inesperada da angústia,
Dos desejos soletrados só para mim?
São apenas todos medos,
São águas mortas onde não chove,
São mordaças de silêncio.

Quinta-feira, Maio 15, 2008


Outro calor

As razões suficientes do fingimento
Lambem-se sobre as folhas, as palavras iradas
Nos momentos em que perco a vergonha dos teus olhos,
No fumo da descoberta dos risos perdidos da porta laranja,
O Bairro na hora que peca e anoitece
Uma vez mais e se desfaz,
Ilusão,
No meu medo imortal de outro calor
Que não este,
O teu, diminuindo, fugaz.

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago in “intimidade”

Segunda-feira, Abril 28, 2008


O escuro imenso

O mundo ameaçava derrubar o medo sobre água
Prolongar o escuro vazio sobre o mar.
E as pontes uniam-se ainda demasiado longe,
Abraçando as luzes solitárias e trémulas de um corpo vigilante ao acaso.

Era Abril descendo a Graça ao mar da palha,
Num venerando silêncio.

Terça-feira, Abril 08, 2008


Curta

Mesmo que esperasse a imensa travessia das duas pontes sobre o mar,
Todos os diabos seriam lapsos imperceptíveis e fugazes,
Curtas chamadas irresistíveis, indulgentes.
Seria só chuva, desabotoa, ruído baço que desbota.



É curta a distância entre a vontade e a razão.




“Ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa.
Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim”
De José Lobo Antunes
In “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”

Sexta-feira, Abril 04, 2008


Quase dormia

Abril aquece antes de tempo,
O telefone interrompe o meu cigarro na janela,
Falas que passavas por acaso,
Hesito entre a cama, uma cerveja no Bairro e os prazeres do corpo.

Vem.

Óculo indiscreto treme,
Oiço a porta, dois andares abaixo,
A porta entreaberta força o beijo, a língua,
A mão entre a tua roupa e o teu corpo,
O teu peito, as tuas nádegas, a língua outra vez,
A voz que nada diz e tudo quer,
E tudo faz, descreve clichés, diverte,
Transpira.

Sabe bem, ir ao acaso, com as mãos e as palavras.

Sábado, Março 22, 2008




01:24



Álcool derramado a três vozes sobre a mesa,
Olhos, desejo, sentido, mãos sobre o sexo
Dos anjos, lutando por um quinto do inferno,
E nada restando do céu prometido
Em cada respirar sôfrego,
Ansiado a todas as últimas noites.

Trágica, a poesia da decadência.

Quinta-feira, Março 13, 2008

Madrid (palabras sencillas)

Debajo del cielo de Madrid,
El amanecer llegó temprano
(Me envenenó con el miedo de la tormenta)
Y se olvidó de quién soy,
De las cosas que deseo con ganas y dolor.
(Mientras la noche no empieza y no termina)
Como cautivo y loco,
Sigo el sonido de las calles
Hasta llegar a ti,
Hasta llenarme de ti.

Me dejé al sueño, al pressentir el olor del verano.

Quarta-feira, Março 05, 2008




Pero después


Pero después, hay horas perfumadas, irresistíbles,
Plazas que se elevan, que flotam, que vuelan
Para mundos donde no se despierta para los miedos,
Sin palabras, inútiles para todos los efectos,
Solamente luz, colores que asombran, que todo muestran,
Que me cogen en dulce prisión
Siempre que pienso que no puedo amar aqui.


Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008



Lisboa (longe)

É triste a poesia dos horizontes que definham,
Do céu e das ruas que se perdem no caminho,
Das casas e dos telhados esventrados, sem coração,
Das almas enredadas na cidade escura que se dilui e se estende
Para longe.

Há dias assim,
Em que se acorda em outro lugar,
Luminoso.

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008


Sublime pranto

Nomes à solta,
No confronto das vagas
Esbracejando,
Corações pesados
Lançados no mar,
Embarcados nos enganos,
Num sublime pranto,
Como ferro esfriando, esmorece
Quebra de dor.

Não tarda que acabe
Este queixume moribundo,
Gritos esmagados
Que já só Deus pode atender,
Como frágil caravela condenada, ardendo,
Afundando na rebentação.

O céu reclama
Por nunca termos sido mais do que a exacta poesia
Da névoa tomando o cais,
Da chuva beijando as brasas que se afogam diante nós.



“(…)A chuva no chão revela
Os olhos por trás
Há que levar o restolho
Do que o tempo queimou(…)”
In “Laços” de Tiago Bettencourt

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008


Anónimo

A voz tem a máscara das horas
Anónimas,
A fala é feita de sílabas cúmplices,
O vício da mentira é um presságio de sedução
De paixão sagrada,
O lume do corpo é incerto e tormentoso
Murmurando ao coração em frágil vigília,
Atento à passagem dos astros e das aves,
Na vertigem do fogo e da cinza.



Outros nomes esquecidos

Não encontro no sossego da noite em diante
Na vertigem da escrita
O sentido oculto do meu nome,
Nem a saída nem o começo
Do labirinto desenhando na condensação da janela.

Dormes,
Corpo devassado sem cicatrizes
Sem identidade,
Diluído numa metáfora desinspirada
Imediatamente esquecida,
Latejando ensurdecedoramente.

Os outros, os nomes esquecidos
Da minha insónia,
São nómadas vagueando por esta casa,
Cúmplices das folhas brancas que se soltam
E se tingem de palavras arrancadas no meu peito.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008


Negro prado cintilante


Sigo o rasto rasurado dos sonhos,
Sem estrelas nem mapa,
Cruzando abismos de olhos fechados,
Embalado na respiração ordeira e transeunte
Dos mais simples intentos que invento e
Que desmembro à nascença.

É inaudível, transparente, fétida e dolorosa
A geografia rasgada da cidade,
Monstro sub-reptício devorando-se em sofreguidão,
Que fende, cede, abre, pulsa, rasga,
Corrói o horizonte fissurado
Pela luz difusa deste negro prado cintilante.

O nome da viagem é o caminho para a morada esquecida.



(…)este negro prado de cimento cintilante
de ramos e segredos oníricos
de silêncios dissonantes
de caos harmoniosos (…)”
in “Nave Mãe” de Pedro Peralta





Ferrugem

Por entre as grades e a neblina
Prendem-se as luzes ferrugentas do porto,
Acalma-se a vastidão dos gritos metálicos,
Numa longa descida às horas mortas da madrugada.

Passos nascem e morrem nas ruas largas dos aterros ribeirinhos,
Perdidos,
Afogados em chuva lacrimosa
Nas paixões que arrefecem,
Abandonas à ferrugem dos quartos vazios e
Estuque esboroado,
Despontando das fachadas tristes,
Precipitando-se das sacadas podres que assomam nas colinas.

Em todas as janelas, o horizonte é fundo e triste.
Entrego-me.








“Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer (…)”
In “O Sentimento de um Ocidental” de Cesário Verde

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008


Conta (me)

Às doze passa o comboio e o barco
Dos cinco minutos depois, avisa a cidade, agora
Que se afasta da marginal, aos quinze minutos de cada hora,
A que demoro, todos os dias,
Para as avenidas altas, às treze,
Onde espero mais vinte, eternidades, por ti,
E gasto mais dez, cigarros, implacáveis
Com os meus trinta e um anos de vida,
Perfeitamente realizados
A cada uma das incontáveis ocasiões que te toco,
Amaldiçoados dedos, cinco, os meus e
As vezes ao dia que digo que vou fugir, outra mentira,
E voltar aos teus braços, quatro,
Envolvidos todas as manhãs, mil
Histórias contadas a cada sonho e noite que perco da conta, sempre,
Quando sabemos que isto não vai mudar,
Sempre que nos lembrarmos de nos questionar,
Se somos dois ou um.

Conta-me, quanto falta para não faltar mais nada,
Para sermos deuses e enquanto quisermos,
Para termos a eternidade até que caíamos mortos,
Como heróis,
Repletos de tédio ou de excesso de nós.

Sábado, Janeiro 12, 2008


Gozo caprichoso

És,
Caprichoso gozo atormentado,
Prazer obsceno encoberto,
Palavra que não existe,
Segredo cansado, decifrado,
Inferno,
Sangue ardendo profundamente,
Eco do riso que arranha o relento,
No paraíso,
Veneno de bem-querer,
Sombra que esconde, finge, vicia,
Crua verdade, maldade fugidia
Que tropeça,
Em mim.

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008


Argonauta

Vens de feição, tempestade solta,
Amor cavado e de ondas altas
De correntes escuras fustigando os antípodas,
Afogando de desejo, pressa, medo e engano,
Perdida, perdendo, afundando-me, em mar sem sentido.

Não vás sem que eu saiba porque vens,
Perde-te, acha-me nas dúvidas revoltas,
Nas notas libertas de um obscuro fado,
Na chuva que não pára
E te obriga a ficar,
A olhar para dentro do que deito para fora,
Decifrando verbos claros e adjectivos proibidos.

As sombras que assomam na rua
Abrem-me o coração a cinzel,
Destemidas, sem medos, com força e inspiração,
Tágides caladas, em voz funda e firme,
Indicando-me as amarras trocadas
Nas nossas duas margens.

Sopras-me o mundo que se perde no embaraço,
Deitas-me fora, choras
Renegas as escolhas sonolentas dos tempos, do passado,
Sou eu, barco perdido, destemido Argonauta
Que não descansa.
Tu, Adamastor ferido,
Arriscando matar de tanto amar.

Sábado, Janeiro 05, 2008


Segredo

Uma voz esplêndida viajando,
Uma orquídea selvagem
De modos extravagantes,
Vagueando nos ouvidos do mundo,
Brotando de uma nua e virtuosa cidade
De ruas e musica cheias de tempo e pressa,
De calma e de dias a menos para outros dias,
Subindo e descendo nos elevadores rabugentos
Mas de cheios corações rendilhados,
De braços abertos respirando
Os risos nocturnos,
Olhando a encosta que se estende incólume e teimosa
Como a felicidade agora decifrada
Perante nós,
Confessores clandestinos sorrindo,
Saboreando os segredos que se revelam em surdina.

Terça-feira, Dezembro 18, 2007


Carrasco (prece)

Não consintas que eu seja
Carrasco que te sangra,
Que te minta para te ganhar e perder,
Que te aplauda ,
Que te aprecie no agora e no depois,
Que te lembre a ilusão e a glória,
A verdade,
Que te rogue preces, pregões, pragas e insensatez.


Faz-me sentir que a força é fraca e beijo conforta.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007


Estrelas (sem rasto)

Assombradas por mais um dia,
Cruzando dias de confissões incompletas
Desfalecem estrelas incautas nas altas fragas escarpadas da cidade
Perdidas do céu profundo da noite que se acomoda,
Sós, sem rasto.

Quinta-feira, Novembro 15, 2007


Desconsolo

Talvez nunca mais

O teu olhar fugitivo perderá passos no meu alcance,

Deixará destroços no meu porto

Onde nada existia e tudo acontecia,

Na sombra mascarada dos desejos ocultos,

Mergulhados nos baixios que ninguém conhece.


Talvez, outra vez,

Nos diluamos no desconsolo e na solidão

Como margens abandonadas sem brilho

Esperando consolo e absolvição.


O canto do muezim

No mais puro encantamento,

Nem o silêncio quebra o despertar do horizonte

Ressoando nos pensamentos adormecidos

Dos mundos que se abrem todos os dias

E se fecham, incógnitos,

Indiferentes e insuspeitos ao dançar das sombras.

É da paz, a virtude de se poder amar as coisas divinas,

E do crepúsculo, o renascer do impulso de mais querer,

Sentir as palavras suspiradas pelo acordar da cidade,

Quase imperceptíveis, quase irremediavelmente distantes.

Só os pássaros ousam rasgar os restos da madrugada,

Como se nada fosse senão o mais belo dia que se respirou,

Mesmo que de olhos e alma descansando,

Escondidos de si e da sinuosa tarefa de inventar palavras e línguas,

Que se justifiquem descrevendo o agora.

E por outra vez,

Antes do irromper do rumor das ruas,

Ouve-se no mais simples vocalizo,

O calmo renascer da consciência do mundo.

Terça-feira, Outubro 23, 2007


Disseste que não anoitecia sem nós

Disseste enquanto não te ouvia,
Perdido nas coisas que pressentia e esquecia,
Seguindo o rumo das folhas empurradas pelo vento,
Caindo da secretária, procurando caminhos pela casa.
A janela aberta dizia que o dia fugia, mas tu não,
A cidade só adormecia depois,
Depois de nós
Lançarmos suspiros por três meios e meio de pé direito até lá fora,
Soltando-se de um abraço que anoitece e dilui-se
Nas luzes que tremem sobre a água.

Quinta-feira, Setembro 20, 2007


Fina corda

Flutua no arrepio da porta entreaberta,
Um grito rouco e velado
Que se cala para não se ouvir,
Sustido nas bocas límpidas
Que se tocam devagar e com firmeza,
Dedilhando uma fina corda
Ténue, invisível, insinuante.

São pássaros da solidão,
Fumando deitados,
Com memórias dispersas afundando-se
Com os pés descalços sobre pele macia,
Alongando um fim de tarde pontuado por ciprestes.

Quarta-feira, Setembro 12, 2007


Corpos ávidos

O espanto da cidade desfaz-se,
Lá no alto,
Num imenso e leviano desperdiçar
da luz da tarde.

Nós, rindo
Do coração batendo, a cada passo
Do corpo tomado pelo perfume
Ávido do poente, imperceptível,
Quebrando como ondas na muralha,
Em silêncio, exaltante,
Gemendo baixinho,
Escondido do vento,
Adormecendo longe do mundo.


Punição

Tal como eu sabia,
A última árvore rendeu-se ontem,
Desfeita em ínfimos pedaços,
Vozes desaparecendo num enorme marulhar pela cidade fora,
Saltando e dançando ao acaso, sobre o asfalto,
Sobre o ombro, o pressentimento.

Tal como disseste,
Procurei, em vão, sombras naquela avenida,
Na nudez do passeio vazio e sujo,
Interminável, definhando ao sol,
Os olhos cedendo a um ardor afinal sombrio,
Entre pó e vozes apressadas,
E o chão árido escondendo o trânsito submerso no túnel.

A cidade condena,
Talvez sem suspeita,
Quando nos desperta e nos queima.





“Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa”
in “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”
de Sophia de Melo Breyner

Quinta-feira, Setembro 06, 2007


Noite desmedida

Sem perder de vista o mar,
Outra noite desmedida
Cresceu com ímpeto da tempestade,
Indiferente ao cansaço,
Ao cheiro dos versos escritos a álcool.

Passeavam vagarosamente pelas ruas, cansados,
Indiferentes ao negrume das árvores velhas,
Os pés alisando o asfalto em tumulto, arrefecido,
Tremendo, os corpos com falta de outros corpos,
Sem sítio perto ou distante,
Sem tempo e com pressa de adormecer.

Outra noite e a cidade crescia para longe.



“(…) ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente (…)”
"To Helena", Nau dos Corvos, Transporte no Tempo,
in Obra Poética vol2
de Ruy Belo

Quarta-feira, Setembro 05, 2007



Estrada (à procura do fim)

O Outono nos teus lábios esmorece,
Deixa um rasto de cada momento
Em todas as estradas que prometemos abandonar,
Fugidos da luz enegrecida do fim.

Encontrámo-nos neste lugar ínfimo,
Morrendo no mesmo instante
Profundo,
Em furtiva descida à escuridão dos medos,
Quando os olhos se fecham,
Sabendo que por pouco tempo.

Caímos entristecidos.


“(…) a tua morte tem avançado para dentro de mim como uma doença a querer progredir.(…)“
José Luís Peixoto in Nenhum Olhar.

Náufrago

Lá fora é outra cidade,
Indiferente, triste,
Deixando-se observar,
Gasta, a medo amanhecendo,
Afundando-se sem brilho na água escura do cais,
Esquecendo o compasso das marés partidas
Que só a minha janela fechada deixa ver.

Lá fora
É uma e outra vontade que desiste,
Como eu,
Principiando a desaparecer,
Adormecendo, vagueando
Como um nómada,
Na minha casa,
Sem destino e sem caminho,
Perdido.


“(…)eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis(…)”
Al Berto in “Roulottes da noite de Lisboa”

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Torrente

A multidão desagua em todas as esquinas,
Devora o silêncio com sofreguidão,
Com ímpeto esmagador
De tempestade impiedosa,
Afasta-me da superfície
Uma e outra vez,
Sem surpresas ou descuidos,
Afinal.

A torrente passa longe,
Mas ouve-se aqui.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007


Refúgio

Vive em ti outro ano mais quente que antes
Refúgio infinito do sul interminável
O encanto de sonhar para diante
A rendição ansiosa ao perfume que nos liga e nos quebra.

Permanece em ti o esconderijo
Do vento que há muito não desfralda bandeiras
Da folhagem solta no descanso
Do bramido das vozes que povoam o horizonte,
Rugindo intemporais.

Procuro em ti
A serena frescura das manhãs marítimas
Os sombrios recantos dos poemas sem sono
Onde não se dorme sem sonhar.

A terra e o céu calam-se e riem em ti.
Vejer de La Frontera - Espanha

“(...)Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua (...).
In “O jardim e a noite”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”

Terça-feira, Agosto 21, 2007


Escuridão do quarto

Escondes-te de forma a que te veja,
Na camuflagem das flores nocturnas,
Com as cambiantes da luz reflectindo no lado esquerdo da parede,
Assomando à janela, com o ruído das estrelas
E dos amantes perdendo-se,
Sem olhar ao tempo que pára e acaba naqueles momentos.

Continuo acordado,
Alheio à tua interferência na cadência do universo,
Reacendendo feridas,
Indiferente aos rasgos na pele às entranhas,
Que se abrem em ferro quente,
O sangue em fios, enforcando-me,
A asfixia, o prazer de poder acabar agora mesmo,
Contigo.

Ainda te procuro no sono que volta e desaparece.
Naufragando no mundo que nos pertence e nos atormenta,
Perdido, seguindo o último cigarro que se apaga,
Testemunhando o fim dos medos,
Das imagens que devoro e apago,
Na dormência que chamo para me anestesiar.

Talvez sejas tu,
O desejo que procuro na escuridão intacta do quarto.


“Quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos...”
In “A Morte de Rimbaud” de Al Berto.

Sábado, Agosto 18, 2007


Disseste em belo português


Disseste em belo português,
Curto e simples,
Palavras de carne e osso,
Tacteando até encontrar um olhar.

Viajámos para trás,
Resolvemos os mistérios
Das formas fílmicas do adeus,
Entorpecidas, arrebatadas
Presas à liberdade da imaginação.

Rompe-se uma fina camada de cal,
Inocente,
O tumulto do medo ao querer
Um pouco de ti em tudo o mais.

Disseste, nada mais do que isso.

Terça-feira, Julho 31, 2007


Ainda não me rendi

Todas as dúvidas acordam pontuais,
Às meias horas nocturnas,
Deslizando em gotas perfeitas de suor,
Decorando a ponta dos dedos,
Ao som da música incessante dos sonhos.

Ainda não me rendi,
Não parei de lutar, nem de falar
De punhos cerrados e sorriso aberto,
Decifrando olhos semi cerrados,
Corações disfarçados de gente.

Mais um movimento certeiro
E mais um fio de sangue,
Traçando na cara as linhas das minhas certezas,
Marcando os passos incertos dos meus ideais,
Moldando a feições das palavras.

Ainda assim, não me rendi.

Segunda-feira, Julho 30, 2007


O dia mais quente do ano

O dia mais quente do ano
Começava em sufocos de calendário
Há mais luas do que aquelas que nós víamos
Á medida que o amor arrefecia
Enquanto a amizade se pintava de matizes desconhecidas.

Naquele dia,
A esplanada estava vazia
E o passeio escaldava-nos as pernas,
Espreitando a sombra das escadas,
Descobertas,
Em preto mediterrânico e gelado de morango
Cruzadas a 45 graus,
Aquecendo os risos impacientes.

A brisa perdera-se nas esquinas da calçada,
E não eram ainda nem onze horas,
Nem tempo de fugirmos ao estio,
Apenas aos braços um do outro,
Reanimando o que nós insiste em não morrer.

Dizia-se ser o dia mais quente do ano,
Mas naquele mármore fresco do pátio,
Borbulhava o sangue e os lábios.
Atenas - Grécia

Sexta-feira, Julho 20, 2007


Castigo

O mundo trespassado pelo tempo,
O ódio e o amor flutuando no movimento dos passos,
Dizendo, devagar, o que acontece muito depressa,
Nos ínfimos segundos de atenção
Esquecidos,
Seguindo o norte,
Procurando os cantos à esfera das palavras,
Misturadas na terra que se levanta
E se inunda na falta de chuva e cor,
Esperando o castigo de nada se esperar,
De tudo acontecer.




“(...)Ninguém disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de nós a puxar-nos para o nosso interior mais negro(...)”
In “Cemitério de Pianos” de José Luis Peixoto.

Segunda-feira, Julho 16, 2007


Uns segundos na marginal


A longínqua lucidez das sombras
No clamor da noite, cresce
Adiada, sumida, perdida
Pela transparência das luzes ténues
Tremendo até à infíma dispersão
Como astros viajantes
Crisálidas suspirando entre metamorfoses
Descobrindo a espessura das cores e dos sonhos
Percorrendo pomares de perfume tropical
Num caminhar de bossa nova.

Agosto é já amanhã,
Na marginal.

Sexta-feira, Julho 13, 2007


Travessia

A travessia perde-se nas correntes e vagas,
Nos equívocos dos ventos e sopros em sal marinho
Cruzam-se os nós, os laços,
Os beijos firmemente seguros
Desprendidos, soltos, submersos
Voando sobre o imenso azul,
Precipitando-se nas profudenzas das palavras,
Purificando imperfeições,
Escrevendo o futuro nas auroras que despontam,
Que derramam a luz sobre a pele,
Emudecem o mundo...

Quinta-feira, Julho 05, 2007


Tudo se torna mais claro

Cai enfim,
Tudo o que disseste, balouçando sobre o vazio
Corda esgaçada, silenciosamente parte
Nos instantes velozes
Em que uma boca fugitiva
Fere, engana, desmascara,
Olhos feridos, abertos
Volteando, em euforia,
A verdade afogando-se em álcool
Perfidamente ministrado
Na ausência e no engano.

Tudo se torna mais claro
Quando nada é desmedido,
Quando a bruma e as trevas
Brilham mais que todas as manhãs.
Amsterdão - Holanda



Nem ópio nem morfina.
O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante...
Manhã tão forte que me anoiteceu.
Mário de Sá-Carneiro in “Alcool”

Terça-feira, Julho 03, 2007


Náuseas


Na subtil poeira de outros enganos
Vejo-me nos destroços deixados
Dos bandos de quimeras perdidas ao longe.

Dou-me no horizonte que arde,
Escavadas as cinzas e o desencanto,
Resvalamos nos precipícios iluminados
Em ânsias ancoradas em ruínas e vertigens.


Amantes inconscientes
E distantes,
Como dois desconhecidos.

Sábado, Junho 23, 2007



profundo
na calma brisa
a palavra que guia
segue no silêncio do coração
aparece imaginada
cresce aventurada
é o profundo azul
o fundo do sonho
o mundo que se forma nas palavras
na voz do chamamento
sonoro silêncio
do amor profundo
*
Marraquexe - Marrocos
Nota 1:
Le Messager d'Allah a dit : " Lorsque vous entendez l'Appel du Muezzin, dites à sa suite comme il dit " [ Hadith authentique ]
in

Recomendo esta página para quem sentir e ouvir parte do que é alma do sul: o chamamento dos muezzins, à oração, no alto das mesquitas, no mundo árabe.


*


Nota 2:
Olha a estrela de Alba
Chama da manhã
Ó manhã, o teu abraço
Oxalá
Me não apague
A paixão da minha alma
Ó paixão
Nem a manhã
Apaga a luz que tem a chama do teu belo olhar
Já é hora da chamada
Alto cantei.

Pregão, de Francisco Ribeiro
In Espírito da Paz (Madredeus)


A edição do mês de Junho de 2007 da CAIS debruça-se sobre o estado da poesia em Portugal e reflecte sobre os desafios deste género literário num novo século.

Sob o lema "Poesia - filha de um Deus menor" são entrevistados Gonçalo M. Tavares e Daniel Costa-Lourenço, sendo apresentados poemas dos entrevistados e de Fernando Pinto do Amaral.

A não perder.

http://www.cais.pt/

Terça-feira, Junho 12, 2007


Poeta ínfimo

A memória queima-se e renasce
Em vagarosas linhas tímidas,
Escapando nos fugidios alicerces do momento,
Escondidas em frases ínfimas insuspeitas,
Estremecendo,
Abrindo as cicatrizes contorcidas no chão...

E a cabeça que se encosta a medo,
Ferida de prazer e insónia,
Amarga,

Desvanece o tempo, finge sobreviver
Aos suspiros e à mágoa de outra noite em branco,
Debruçada em risos polidos,
Sem réstia de pensamento.


“(...)e no terror da insónia,

onde o obsessivo corpo substituiu a suave cocaína (...)”

Al berto in “A noite progride puxada à sirga”: Três poemas esquecidos”

Sábado, Junho 09, 2007


Eu

Não tenhas medo,
Podes voltar
Num mar eterno para chegar a qualquer lado,
Estou só e oiço-me
De coração aberto,
Que só guardo em mim
O que de mim desconheço,
Nem sempre em cantos escondidos,
E o mundo termina mesmo no vazio.


Sou eu em liberdade
Pouca coisa evidente,
Aceita-se sem depois,
Querer tem a marca do silêncio,
E a dois ou a todos,
Somos o que o outro é,
Sem mais nada de complicado.

Não tenhas medo,
Olha-me como eu me vejo,
Como nós somos em liberdade.

Quinta-feira, Maio 31, 2007


Ás vezes

Espero que o azul cubra de fogos o céu,
Em outro dia de ninguém,
De anunciada redenção,
A ti.

Navegam os desejos que espalho na superfície,
Ás vezes subindo contra a corrente,
Ás vezes o mar nascendo no horizonte.

São minhas as palavras que anunciam o Verão,
Quando me lembro
Quantas vezes desci todas as colinas
Ensopadas em febre e água.

É somente a euforia,
O medo de gritar sem ouvir
Os pálidos toques em pele.

Ás vezes amo-te,
Ás vezes tudo se cala.

Terça-feira, Maio 29, 2007


Tempo adiado

Os salpicos no terraço confundem outra manhã insuspeita
Que o tempo não é este,
E faz tempo que não adormeço lá fora,
No cálido embalo do burburinho das multidões errantes,
Lá em baixo, nas reuniões secretas das copas das árvores,
Somente estudando o desenrolar do tempo,
Apoiados nas pernas cruzadas sobre o fresco da calçada.

A cadeira permanece recolhida
Sobre o jornal de há tempos, ensopando,
Diliuindo tinta e memórias de outros dias.

Sobra-me tempo para seguir o caminho das gotas,
As luzes seguindo ordenadas, piscando na ponte,
Para outra vez olhar a esplanada triste, na praça vazia.

É o tempo adiado, o verão que tarda,
A porta que demoro abrir, sem pressas
No silêncio cheio de palavras indecifráveis,
Adivinhando a insconstância do tempo que foge.

Terça-feira, Maio 22, 2007


Primavera


A limpidez do dia passava
Medida no tempo das coisas,
Das pessoas misturadas
Nas cores frias dos telhados,
Confudidas nos desenhos das sombras.

Não conheço ninguém nesta luz tão húmida,
Na música que flutua entre as torres,
Entre cada esquina que hiberna mais um ano.

Penso no que farei amanhã,
Fugir nas furiosas paixões das avenidas largas,
Dos mundos que se repetem em cada pessoa,
Guardadas em todas as grades que rodeiam os jardins.

Cheira a verde, a água e a árvores tombadas
A primavera no Norte.

Quinta-feira, Maio 10, 2007


Parece infinito

Parecem infinitos,
Os passos que se apagam na areia fina de Jürmala,
Misturando-se no vento de Maio,
No uivo dos pinheiros vigilantes.

Parece profundo,
O azul dos bancos pontuando a praia,
A espuma revolta perdida no mar frio e escuro,
A brisa forte embalando os pássaros.

Na madeira gasta das paredes,
Parece simples
Escrever um dia perfeito.

(Jürmala - Letónia)

Sábado, Maio 05, 2007


Riga

Agitadas pelo vento gelado do Báltico,
As águas correm escuras
Nas margens desertas de domingo.
As cúpulas desafiam a planura das nuvens,
Assinalam os desencontros da cidade adormecida.
Rimos e fugimos das esquinas geladas de Riga,
Sem adivinhar qualquer Primavera próxima.
Amigos rindo num café
Inventam os caminhos do mar próximo,
Sem pressa de voltar.
(Riga - Letónia)

Segunda-feira, Abril 23, 2007









Subitamente, no verão, apenas um zumbido. E o mel nos teus lábios.




sem título




No dia Mundial do Livro, associo-me à iniciativa do DN, contando uma história em apenas 10 palavras.










Sexta-feira, Abril 20, 2007


Resina


As velas soltam palavras em combustão,
Fricção de pés brancos no lençol mordido,
Lambendo, gotas de tédio e paixão,
O Outono, adornando e caindo nas mãos,
Os ramos dobrados, em choro, quebrando,
Resina, sumindo de seguida, seguindo
Os pássaros migrando, diluído nos enganos,
O rio e o mar, mistura fina,
Interminável templo de sal raro,
A chuva no horizonte, lama, terra,
Subindo no vento, a poeira,
Pousando no silêncio manso, dos soluços escondidos,
Prisioneiros,
Os zumbidos, borboletas,
Dois gritos, o deleite,
A resina nas curvas da boca.
*
"(...)Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado."
Vinicius de Moraes in Insensatez

Quinta-feira, Abril 05, 2007


O som da beleza

A que soam os acenos e nevoeiro,
A cidade, o risos da multidão,
Os pensamentos sós, os segredos,
Os prazeres proibidos na escuridão,
A tristeza, a voz inesperada
Dos desencontros.

A que soa o ouro,
Caindo sobre a pele,
A face preciosa do mundo,
O canto da memória, o coração,
A areia, o sal,
A que soam a línguas e as lágrimas,
Os fantasmas e o deslumbramento.
A que soam os ventos lusos
Ouvir falar de amor...?
Budapeste - Hungria

"O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.
Mário de Sá-Carneiro in "Amor"

Terça-feira, Abril 03, 2007


Beijos no cimento


São traçados a tédio, sincopados,
Os encontros e as ilusões,
Pequenos mundos devorados a cinzento
Que as breves horas apressadas nos deixam.

De ip’s e ic’s forma-se a anatomia do que já fizémos,
Os itinerários que se complementam, as certezas do fim
Afundam-se no cimêncio dos beijos,
A um ritmo pendular,
Frios e mudos,
Roubados às canções pálidas que ofereci,
Perdidas,
Nas peregrinações encenadas de todos os dias.

Tudo é um grande momento único,
Na contigência geométrica da calma suburbana,
No sono profundo dos arredores,
Entorpecendo lábios que se tocam
Escondidos.


cimêncio, s.m. (do lat. coementu por aglutinação com do lat. silentiu). Estado calcário de pessoa ou cidade que revela uma calma fortísssima. Mistura de cal, segredo e mistério, impenetrável ao tempo. União íntima; pausa fundamental. Suspensão de base ou fundamento. Sono profundo dos arredores. Construção imaginária; matéria-prima do espírito.
luís gouveia monteiro
após Diogo Lopes e Nuno Cera in"Cimêncio" (Ed. Fenda, Lisboa)

Quarta-feira, Março 28, 2007


O céu, afinal



Alcançarei o céu, ainda,

No voo silencioso do vento,

Que vagamente flutua

Entre o poente e o levante

Num beijo fundo e intenso.

O céu, afinal

Permanece incólume,

Indiferente aos tombos dos fugitivos,

Marinheiros solitários

Amantes das mil certezas,

Procurando cair noutros braços.





Ne cherche pas les limites de la mer.

Tu les détiens.

Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée.

René Char in “Poèmes des Deux Années”

Quarta-feira, Março 21, 2007







Sul






Sacode-se a terra no mar
Na fina poeira do nosso encantamento
Um súbito sopro cardeal
Entre a mansidão da cor inflamada.

É quente, a noite,
Enche-se a Lua nas sombras,
Mergulhado o sono
Em prantos dispersos de cigarras.






(...)imagina-nos
na aragem cuja face se distende
ao sol que lentamente se afunda.(...)

Ibn Sara in “o meu coração é árabe” de Adalberto Alves


(Marraquexe - Marrocos)


A cinza perdeu-se (voo sem ruído)


Cai-me a boca sobre o peito dorido,
A saliva apaga o ardor,
São de cinza os receios que se perdem sobre o mar.
Na vigia das árvores despidas da colina,
Adormecidas,
Sacudindo folhas e coração,
O sabor escancarado da cidade tomada sem luta,
Perpetua-se em delicado voo sem ruído,
Sem marca,
Com a impressão da musica que se perde nos gestos vagos,
Cruzando o mar da Palha.




“(...)vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas.


Carlos Nogueira Fino in “mesmo que o silêncio...”

Terça-feira, Março 20, 2007


Podia saber mais de tudo


Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.
Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a lágrimas como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.

É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, sangrar,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.



“Que importa o gesto não ser bem

o gesto grácil que terias?

Importa amar, sem ver a quem...

Ser mau ou bom, conforme os dias. (...)”

David Mourão-Ferreira in “Canção Amarga”

Quinta-feira, Março 15, 2007


Prazer


Palavra insensata
Que não se acha nunca,
Divide-se por nada e por mais se perde,
Lânguida promessa que esmorece,
Rio que seca e cresce imparável
Como se de meu sangue se tratasse.
Palavra falada que entontece
Cuspida como merece,
Insinua-se nos sulcos da língua,
Escondida na curvas da saliva,
Noutro corpo que é meu,
Recente, ausente, futuro.
Palavra indingente, silenciosa,
Caminha nas linhas de branca depravação,
Sem inspiração, arde
No sonho breve e mudo de só querer
Alguma coisa,
Apenas experimentar o meu prazer.

Quarta-feira, Março 14, 2007


Breve

Ouvir-te já, de olhos fechados num luto de poucos dias,
Lembrar-te da ânsia do horizonte que não chega nem se alcança,
Tocar-te devagar, na sombra da chuva miudinha que agora cai,
Seguir-te, quando a pressa de chegar já é vontade de ficar,
Descer-te à brevidade dos desejos incertos,
Gritar-te em desvario, queimando a garganta calada de promessas,
Estranho-te agora, perante o medo lascivo de querer mais,
Matar-te afinal, no tempo que foge e acorda em alucinação.

Terça-feira, Março 13, 2007


O que escreveste afinal?

Tu consegues, digo-te,
Escalar o céu,
Divagar nas profundezas do tédio, incólume,
Fintar a curva esguia dos vagos sons diluídos na sombra dos teus medos,
Baloiçar diante do abismo, hábito doentio,
Suspirar de fastio perante os sustos dos incautos.

Repara, dizes-me,
As manhãs desaparecem nas noites anteriores,
Os sentidos sangram e cegam,
E mesmo com volteios nas palavras que inventas,
Escudas-te opulência da decadência,
No luxo desmedido de não te preocupares.

Desejos errados, olha bem,
Corpos arfam em angústia,
Padecendo de nada sofrer,
Quanto a coisas que nunca fizeram,
Mas insistem,

A terra segue girando,
Nao faz mal, dizes,
A mim faz-me, digo eu,
Porque ninguém se lembra de nos ver passar, nunca,
Nem agora.

Fundimo-nos afinal, com outra manhã que matámos.
O que escrevemos afinal?
Na tua colina



Entrega-me a minha metade do teu nome escrito na cidade,
O corpo dividido em muitas margens,
Impossíveis de alcançar,
Irremediavelmente perdidas na dança eterna das ondas,
No perfume suave do poente,
Acendendo o burburinho da noite.


Demora-se quem passa nesta colina,
Enebria o odor as corpos escondidos
A túmulos e promessas de lábios gelados,
Dormindo sobre o mármore que esfria por baixo,
Na sombra do fim do dia,
No mundo sem vida que nada aquece
Em promessas de nada dizer.

Agitam-se as vozes subindo a encosta,
Tropeçando nos acasos,
Nos rios que alastram com a chuva
Como o negro da paixão
Como o vinho que já não enche nem preenche e se entorna,
Dolorosamente embriagando,
Esquecendo-me de procurar alguém
Entre aqueles que passam por aqui,
Esperando que me devolvam o meu lugar na cidade.

Entretanto, sem remédio, perco-me.

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007


Espaços interditos (renego-me)


Há espaços interditos
Onde o deslumbre penetra como gume aguçado,
Nos feitiços desse ínfimo universo,
Sedento de fantasias mudas e perversas,
De medo irresístivel, de querer ainda mais.

É o vinho que embala a cintura,
Um travo rouco a poesia brava
Desenterra a raiz escondida do desejo,
Mostrando-se na última claridade do passado,
Desmascarando certezas.


És batalha vencida,
Ardendo devagar com os estandartes,
Entregando-me prisioneiro,
Saqueando-me o sentido deixado pelo tempo perdido,
Uivando sobre a nudez de corpos amargos.

Renego-me, enveneno-me,
Por tudo o que penso e não quero,
E o que quero sem pensar, em furiosa demência
Transpirando em contenção,
Fugindo dos pesadelos de noites repetidas,
De sexos furiosos ao desbarato.

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007




Lua que enche o rio


Nas insondáveis partidas da solidão
Os reclusos desejos
Escorrendo nas mãos da chuva fria,
São meus.


Arrastam-se as memórias de cada rua,
Feridas descobertas por outra fuga,
Escondidas nos sítios perfeitos
Para morrer outra vez,
Para despir os rostos que não se vergam,
Para penetrar os corpos que se abandonam.
Ignoro se mudei,
Se calei os que ontem foram outros,
Os que ficaram para trás
Perdidos, sem passos no chão
Que se despeçam e se esqueçam
Da Primavera.

Outro prisioneiro arde na lua que enche o rio,
Perdem-se os monstros nas vagas de Janeiro,
Inundam a cidade de solidão,
Afoga-se uma tristeza tão simples numa dormência vagabunda.



Estranhas revisitações

São equívocos eróticos, dizem-me...
Não precisamos de tanto amor,
Tanto amor, sempre igual
Sem espaço, muito tempo,
Entre os neons e o cimento
Suspensos do mundo, moribundos,
Como anjos perdendo a inocência,
Em infinita elegância
Sempre do lado do mar,
Em enganos,
Partindo em busca de peixes voadores
Mesmo, viajando para o interior da terra


São fluídas melodias
As que desenhas nos mínimos movimentos,
Em palavras puras, que se querem.


Não preciso de ti,


Só de alguém como tu.

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Promontório (abismo)


Dei dois mares num suspiro

Fugindo o tempo num abraço

Aquecendo o corpo noutro beijo,

Afastado o silêncio nos ruídos

De portas e vozes abertas

Á respiração dos nomes das coisas,

Ressoando, quebrando a vastidão das almas desconhecidas,

Em ímpetos de paixão ofegante.


Dei o mar às palavras que me afogam

Vagas,

Tesouros naufragados, inacessíveis como os medos,

Esclipes no breu da cegueira,

Água lisa infinita da inspiração,

Mergulhada nas estrelas.


Abre-se o abismo no promontório despido

Pelo vento e fúria clamorosa do que já não se ouve,

O que se perde em cada momento de primavera,

Em cada dia maior de verão.

Juntam-se os mares da terra em outras vozes,

Deslizam os barcos no sossego límpido do estreito.


Respiro, enfim, livre.


Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007


Farto

Nada tem tido o mesmo sabor
Tudo o que acontece com nada se parece
E tuas palavras, são as minhas de enfado,
E outros desígnios, os outros que falam,
Tudo e nada se ouve, esqueço.

Não sou o que era, nem o que queres, o outros esperam,
Não me dizem,
Não digo nem respeito, admito,
Perdi-me, procurei na multidão que se limita a estar,
Sem interesse, sem interesses,
Rotineira vontade de não mudar,
Falsa e estúpida vontade de muita pouca coisa ser,
Não ser eu, em mim ser mais, mudar.

Se mais qualquer coisa terei, a dar, a mostrar,
Fugiu contigo, com todos, contido,
Os que amo e odeio, sempre, às vezes, poucas,
Desencanto, voltando, surgindo,
Fogo fátuo perdendo-se outra vez,
E outra folha que não se escreve.

Perde-se tempo farto num segundo.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007


Sem resguardo

Nem tudo demora como este Janeiro
E na chuva tudo dura eternamente
Sem um resguardo para a falta que sinto.

Neva um ano depois,
E os olhos fecham-se,
Indiferentes aos vultos sobre o asfalto
E folhas rasgadas, molhadas,
As frases abandonadas,
Sem o conforto da minha cabeceira,
Em sossego,
Saborando o pó do tempo.

As memórias secretas dos beijos,
Desamparadas, empalidecem,
Desvanecem-se nas horas cinzentas,
Nos fantasmas que ainda me acompanham.

Já não me confesso, nem oiço, nem falo,
E as raízes já se aventuram em qualquer rua,
Em qualquer estação,
Como anjo caído, pecador.

E tudo demora, e a rua esfria,
Cala-se, sem passos que se oiçam na escada,
Esvaindo-se a vontade, nua,
De voltar.

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007


Mesmo que de novo acordes


Oiço um toque que escorre, desejo,
Uma boca que socorre a vontade,
Tirando do escuro o quente silêncio em que se adivinha,
Uma sede premente, pulsando, nos movimentos que tomam forma,
No sobressalto de gemidos em fuga, furtivos,
Sem acordes, mesmo que de novo acordes, durmas,
Desarmada, a luz irrompendo em estilhaços, sumindo-se,
Nos repentinos movimentos que nos tomam,
Pulsando, encadeados, instintivos.

Oiço batidas, bate o coração do mundo em feroz inocência,
Nós em sobressalto, ouvimo-nos brilhar,
Esperando tréguas de olhares inadiáveis, inevitáveis,
Tombando, rendemo-nos ao que nos prende
E nos solta, em fúria.

Não precisas acordar, oiço o que não dizes.

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007


Queimei o dia de ontem

Queimei o dia de ontem
Porque tudo se passa com atraso
E apenas guardo o que já nao há,
Nos sítios que perdi,
Tantos passos atrás.

Lancei fogo às tuas notas,
Riscos e livros rasgados pelo meio,
E ainda não eram duas da tarde,
Mas os dias não se fazem de esperas inúteis,
E nem tudo gira à nossa volta,
Acontecem sozinhas sempre que as empurramos,
Nos sopros de fumo, subindo até ao tecto dos nossos humores.

Ontem não sabia o que dizer,
Hoje não disse nada.

Ardemos no fundo de um caixote.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007


Espreitam

Espreitam-me o peito muralhado,
Que o esquecimento disfarça com acalmia,
Coberto o desejo em neblina espessa,
Onde nada germina, onde nada se ouve,
Só eu,
Num campo guerreiro aguardando as trombetas,
T tu, insistentemente lá fora,
Desfraldando as bandeiras há muito recolhidas,
Sem tempo nem pressas á vista,
Pisando as cinzas e pedras de campos onde fogo insiste em passar,
Mas que ora se apaga,
No espanto de um amor inevitável.

Sábado, Dezembro 30, 2006


Faz-me (tempo)

Falta-me escrever outra linha,
Abrir outro vinho, mais um minuto,
Sentir outras vozes, ouvir notas batidas,
Sem parar,
Falta-me ter ilusões vezes sem conta,
Na tua cama,
Brincar com as palavras, ao café,
Dizer tudo, mais, muito, sempre,
Cansar-me, esgotar-se, matar-me,
Vezes sem conta,
As que percorro o alfabeto,
Procurar aquela letra que me falta,
Aquele riso último, derradeiro.

Faz-me falta tempo para mais, para menos, para tudo.

Sem tudo saber

Tenho-te só para mim, sem saber quem és,
Incondicionalmente, mesmo que nada acordado,
Mesmo que só agora, assim que te conheci,
Como queres, como pedes, como eu quero, como gemes,
Como esqueces e insinuas um outro “nós”, que não este,
Queimando etapas, preliminares, pressupostos,
Gozando cada subversão, cada dogma, cada proibição,
Subindo, descendo, percorrendo letras, palavras, frases,
Entrando, percorrendo a tua invisível satisfação no escuro,
Agarrando, observando, segurando, possuindo, latejando
Como se o mundo estivesse nestas mãos,
O desejo libertando-se, brilhando, claro como a lucidez de todos os momentos,
Mesmo com a tua imensa vertigem ácida
Que te faz esquecer a desolação de amanhã,
Queimando-se nos estilhaços esquecidos que fizeram esta noite.

Uso-te, sabendo que me usas, mesmo sem saber quem és.

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006


Perder

Adivinho-te o ínfimo termer dos dedos junto ao peito,
O medo que se insinua num sorriso sem luz,
A atenção presa nas poucas folhas que já restam
Do Outono, lá fora,
Os teus sentidos lambendo cada nesga de movimento,
Adormecendo-me a tristeza,
E quase tudo o que me lembre, agora.

É-me difícil sentir mais qualquer coisa,
Nada dizer,
A exaustão fecha-nos qualquer livro,
Arrefece e mata as intrigas e histórias de qualquer dia
Como pinturas fortivas sem movimento.


Perdi-me a meio do dia

No fundo da rua, no fim da cidade

No dia em que enlouqueceste

Quarta-feira, Dezembro 27, 2006


Fecha o dia (outro)


Abre-se a janela mais uma vez
E outra, boca que fecha o dia,
Quando mais uma noite magoa ainda mais,
Sempre que mais um copo te possuía,
Mais forte, com mais prazer
Que eu, desfeito
Insuportável, irremediável,
Batendo com estrondo, o coração
Que sabe estar perdido,
Lentamente, convencido
De outro corpo que não se toca, não se mexe,
Não se sente, a morte
Em aveludado perfume envolvendo,
De mansinho, leve, fácil, previsível
Canto de sereia, inquieto, escondido,
Alucinando.

Abro a porta pela última vez.

Terça-feira, Dezembro 26, 2006


Sangrando

O sangue já ferve, como se brotasse fulgurante
Correndo ordenado nos limites invisíveis da estrada,
Entre palavras que adivinham a respiração
Suspensa, nas sílabas ofegantes do lusco fusco,
Adivinhando o peito dorido, massacrado,
Rasgado de separação abrupta,
Contudo cirúrgica, calculada e cruel.

O sangue já escorre,
Em rubro medo, incendiando-se,
Secando vestígios húmidos de sal,
Na boca que se calou,
Em triste uivo, cuspido.


E a estrada alonga-se num fio,
Espalhando-te pelo sossego do meio dia,
Agora que nos sangrámos sem remédio.


E o céu enche-se de nuvens em debandada.

Quinta-feira, Dezembro 21, 2006


E se eu não quiser esperar.

E se eu quiser não esperar,
Nem mais cinco minutos, nem a hora acordada,
Nem atrasos, onde olhássemos na ansiedade que nos espera,
No manto escuro que agora se sente,
Onde deixássemos a imaginação para outra conversa,
Onde perdêssemos todo o tempo,
Para ouvir-te comandar o meu sonho, e eu o teu,
Rasgar o meu coração de dúvidas, de fugas e ódios,
Esquecer o protocolo,
Qualquer um que agora se aplique,
que agora se exija,
E nos beijássemos, sem limites,
Tal como nos apetece, tal como nos treme debaixo da pele,
Esquecendo a vergonha que não temos, perdida.

E se eu não quiser esperar,
Nem mais um suspiro de tédio, pela relógio parado, e correr,
Atravessar a cidade em hora de ponta, enorme, instransponível,
Só para chegar mais cedo, agora mesmo,
Para poder ver-te descer as escadas, tão devagar quanto possível,
Para poder não perder o mesmo brilho que trazes nos olhos, irreal,
Que já não vejo, e beijo,
Sem esperar.

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006



Depois de "As Vozes em ti", foi apresentado no passado dia 13 de Dezembro, "Furor das Noites Cheias", de Daniel Costa-Lourenço, o seu segundo livro de poesia.

A obra conta com a colaboração fotográfica de Paulo César e com prefácio de António Garcia Pereira e Possidónio Cachapa.

"À segunda incursão pelo texto poético, Daniel Costa-Lourenço aprofunda as ideias lançadas em “As Vozes em ti”, percorrendo, com um sentimento mais maduro, as interrogações e as visões do mundo urbano, dos desencontros, das dores e euforias da sucessão dos dias, tendo sempre o mar e a cidade como pontos de partida para o que começa e acaba.
Sem nunca conceptualizar ou definir dos sentimentos que explora, assume a constante interrogação sobre o ser urbano, sobre a luta constante do indivíduo em manter-se único na sua apreensão do que o rodeia e do que o une aos demais, importem eles ou não.
Marcam as impressões eufóricas de amar, tristes, desiludidas e prementes, como se fossem as últimas, não porque acabem, mas porque nunca bastam a quem vive intensamente." EDIÇÕES ESCRITA CRIATIVA


Prefácio por Possidónio Cachapa

Este será um prefácio curto sobre um livro de poesia. O que é uma maneira redundante de dizer as coisas, porque a boa poesia tende a ser curta. Dá-se bem com a síntese, parte-se quando a tentam estender pela folha fora. É por isso que os poemas parecem estar sempre em fila. Fragmentaram-se em grãos de areia, porque não são as palavras mais do que isso: grãos de areia que alguns tentam unir, molhados com água do mar, ou com lágrimas que é a mesma coisa mas em ponto pequeno. Seguram a ideia com dedos finos, e retiram-nos cautelosamente esperando que a forma que antes só existia na cabeça, se sustente ali ao menos por um instante.
A poesia de Daniel Costa Lourenço fala destas coisas todas: do cheiro do mar que é o cheiro de um corpo, da necessidade de juntar palavras, de as dizer sem parar antes que a memória-onda as leve. “Uma investida sobre ti e as gaivotas voam rasando a água…” Fala à sua maneira, como consegue. Como todos nós. Parte a rocha dura para que a poesia se extraia. E às vezes extrai-se. E as outras, mesmo se cascalho ou suor, são fruto de esforço honesto que o tempo se encarregará de cobrir. Sempre foi assim com a poesia e há coisas que nunca mudam, como a mineração ou a pesca. Na essência, pelo menos.
Há uma ideia de água que percorre todo o livro. “Maré”, “rio”, “manhã” (cedo). Ou não estivéssemos rodeados dela em Portugal por todos os lados: pelo mar, pela chuva, pelo interior líquido que nos percorre. E há também a partida. Há sempre quem parta. Porque tudo se parte. Mesmo a gente quando se levanta cedo e deixa na cama outro corpo quente.
“A tempestade, única/Conduz ao promontório, /Veloz e impaciente (…) Todos os enganos são previsíveis…”.

Possidónio Cachapa, Lisboa, Outubro de 2006
Prefácio por António Garcia Pereira
Surpresa e Admiração, eis as palavras certas para definir a minha relação com este livro e com o prefácio que me concederam o privilégio de convidar a escrever.
Surpresa, e profunda, antes de mais por tal convite. Pública e notoriamente amante do mar e admirador desse eterno frémito de emoção que são os nascentes e poentes que ele sempre nos propicia, vibrando cada vez que revejo, uma vez mais, a célebre cena do cantar da Marselhesa no filme “Casablanca”, é sabido que não sou propriamente um cultor, muito menos um conhecedor qualificado, de Poesia.
Surpresa, depois, pela impressão, por vezes triste e mesmo desesperada, de outras vezes forte e intensa, quase vulcânica, que a leitura do livro nos vai causando e que, sinceramente, não esperava que fosse tão marcante. E, na verdade, pode eventualmente discordar-se ou desgostar-se de quase tudo nesta obra, dos temas, ou da semântica, ou da métrica, ou até do próprio estilo, Mas que ela nos toca em cordas sensíveis, nalguns casos muito vibrantes, isso creio ser inegável.
Por fim admiração, uma marcada admiração. É que numa sociedade em que todos os dias e em todas as horas se pretendem impor, como valores supremos, o dinheiro, o Poder, a capacidade de enganar ou esmagar o próximo, revela-se absolutamente admirável – para mais num país por vezes imposto como demasiado “pequenino” para nele poder haver lugar à arte, à cultura, à poesia, à sensibilidade, à emoção, ao sentimento e à paixão – que um jovem se decida atirar-se a esse seu sonho que foi, e é, o de fazer um livro de Poesia.
E é por tudo isto que, tendo logo acedido ao honroso convite para escrever estas simples e despretensiosas palavras, acho o autor da obra merecedor de bem mais do que o bastante pouco que tais palavras serão alguma vez capazes de significar.

Lisboa, 9 de Outubro de 2006

Sexta-feira, Novembro 24, 2006


A voz das palavras


“Cada dia que passa escrevo menos, e o pouco que escrevo exige todo o meu tempo disponível. requer paixão sem partilha. (...)”

Al Berto, Livro Sétimo, 1984


O vazio esconde-se lá em cima,
Nos momento infinitos de claridade,
Dos dias de sol, alguns à tarde
Outros nunca, perdidos por esquinas e sombras,
Desconhecidos, na multidão,
Nas pequenas coisas raras, em todos os portos de qualquer voz,
De alguém que espera as cores, os sopros leves das palavras,
Em silêncio,
Desejando mudar.

A vida não chega para as tormentas do mundo,
Do canto iluminado onde a beleza se refugia,
Onde nos embalam, com a fúria de amar.

Terça-feira, Novembro 21, 2006


Gare do Oriente

Os risos,
Na claridade profunda daquele dia,
Estendendo-se até ao rio próximo,
Debruçando-se dentro das dúvidas de outras horas,
Presos ao que há-de ser,
Ao que já foi e ardeu lentamente no esquecimento,
Como o meu nome, o teu,
Devorado vezes sem conta,
Quando nos alimentámos de prazer,
Indiferentes à mudança das luzes,
Dia ou noite,
Vigiados pelos braços da estação,
Ao longe,
Mas abraçados, como nós,
Aqui,
Devagar,
Como o aproximar dos comboios.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006


Sobressalto (nosso)

O mundo passa nos rios perfumados do silêncio,
(suave)
Olhando sítios onde a vida é dormente,
(devassa)
Acorda em ínfimos momentos,
(rara)
Paixão subtil em sobressalto,
(suspira)
Palavras atravessando a maresia,
(eterna),
Sorriso desenhando a palma da mão,
(adormecida)
Acorda desejo esquecido,
(tu)
Que tudo revela,
(em mim)
A tinta dos meus dedos no teu corpo,
(amando-te).

Sábado, Novembro 11, 2006


Dois segundos

Fantasmas esvoaçam na noite
Em movimentos sublimes e incertos
Peitos abertos em gritos sussurrantes
Fugas escondidas nas esquinas, nas entrelinhas
Das palavras que repousam e acordam
Nos corpos que se enchem de caminhos
De lábios rasgados a beijos e tremores incandescentes,
Na pele silenciosa,
Insónias de uma cidade que crepita vigilante,
Atrás de risos cadentes que chamam a rua
Em sublimes e esquivos sopros
Que só nós deciframos
Sem querer.

No fim, somos só dois momentos intermitentes.

Sexta-feira, Novembro 10, 2006


Tempo

O tempo demora a passar em todos os instantes,
Alonga-se em passadeiras devassadas por semáforo sem vida,
Indiferente, habituado a acordar tarde,
Em vagas lentas, abandonadas, preguiçosas,
Nos dias em que nada mais há do que eu e aquele dia.

E depois, o passar do mundo resplandece
A cada eco dos teus momentos,
Atordoa e fere todas as sombras que os ameçam,
Cresce, estreme, na medida da nossa procura,
Na avidez de corpos reencontrados,
Agitando-se,
Amando e odiando,
Cada réstea de tempo que nos une e vicia.

Sábado, Novembro 04, 2006


Luminoso

Luminoso coração à margem da minha cidade,
Silêncio claro, fio de história febril
Sem tempo, nem forma,
Sem palavra que dormite e nada ofusque
Encontros manchados de neblina fresca,
A imaginação cintilante de ter ver sempre,
Aqui,
Nos fulgurantes segredos da nossa tempestade,
Que nunca amaina, sempre amarga,
Sempre irresistível,
Como um errante sossego, sempre desfeito,
Sempre perfeitamente imperfeito.

Sexta-feira, Novembro 03, 2006


inesperado

Fugindo de presentimentos esquecidos
Com travos indecifráveis
Que tudo complicam e amarrar,
Transformam o doce dos momentos,
Em sabor a demência,
Escasseando na mesma proporção que a felicidade
Aquela que deixas nos lábios hemudecidos nos meus,
Consumindo-se
Mas intacta como fogo
Protegida da ilusão fugitiva de ter certezas.

Afundamo-nos no terror de um dia nada ser inesperado.

Sexta-feira, Outubro 06, 2006


Medos

A vida corre com o vento de feição, apenas onde se desenrola devagar a emoção,

Desconhecendo a saudade de outras marés, que não somente aquela que agora sobe

Com mais um anoitecer, sem espantos nem medos,

Apenas o tremor do abandono, da distância intolerável do mar,

Como se escondessem o mundo para não mais o revelar.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006


Dias (Noites) de Furor

Quando nos ouvimos nos murmúrios da cidade,
Crescendo com a manhã, explodindo no fogo de um encontro iluminado,
A euforia que se perde nos pecados da noite,
Poros libertando o furor e a loucura de corpos á deriva,
Indefesos.......

Quinta-feira, Agosto 31, 2006


Desassossego

O mundo é sempre tão breve,
Esvai-se em fulgurantes gestos,
Imperceptível, dissimulado,
Sem travo, amargo,
Em sílabas perfeitamente ditas
E perfeitamente ardendo no vazio.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006


Desejo incerto

No ínfimo compasso de um aceno,
Uma mudez amarga que se escreve e apaga
Como uma lenta e vagarosa repetição dos dias,
A tristeza dormitando
Nos hábitos de corpos juntos com hora marcada,
Teimosamente acordando
O febril instinto da unificação de sujeitos,
Numa infernal repetição de adjectivos
E estilhaços de suspiros liquefeitos.

Rastejamos na corrosão de desejos agudos,
O prazer angustiante de inventar outra rua,
Outro aceno que nos chame,
Outro mundo que nos ignore e liberte.

Colam-se os corpos,
No ínfimo repetir de um aceno.

Terça-feira, Agosto 29, 2006



Amor cadente

As chaminés lançam negros gritos
Na irreconhecível memória da tempestade,
Escavando memórias
Em pleno estrondo de trovoada,
Murmurando os nomes de águas enfurecidas
Que infiltram a nossa cama.

Dançam amores cadentes, sorrisos breves
Sobre as cinzas dos teus pensamentos,
Lamentos tardios cuspidos no mundo,
Sobre nós, corpos magoados com gosto a desdém,
Que ecoam no fim das coisas,
No limite das últimas palavras que não se repetem,
Depois da ressaca de outro abandono.

Em ti nasce o meu dia sem rumo.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006


Embriaguez


O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.

É tudo o que temos,
Quando nos temos…

Sexta-feira, Agosto 25, 2006


Escuro distante

A nudez da solidão,
Esmagando corpos vagos,
Decifrando ecos de tinta escorrida
Lenta, demorada, ácida,
Precipitando-se na desolação desta cidade,
Questionando o escuro distante
De olhos apagados, imóveis,
Chegando com a maresia.

Há muito que nada vejo.

Quinta-feira, Agosto 24, 2006


Breve chama

A lenta lucidez da paixão maligna que me vigia,
Sem cessar, vaga,
Vigiando a dança das folhas na vastidão do silêncio
Encerrado no pequeno canto que guardamos vazio,
Pernoitando nos sentimentos porosos que nos separam,
Indiferentes ao latejar das palavras na chuva espessa
Apagando os breves chamas que nos consomem,
Esquecendo os tempos em que não tínhamos horas,
Nem tormentas ou amarras a nada que não fosse desejo.


A pele definha ferida, na surdina do gelo de outro copo,
Num maior engano, nós,
Que nos amachucamos como fantasmas de turva existência,
Lamentando o que nada mais será dito,
Soprando a poeira que insiste em cair sobre nós.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006


De partida

As vezes que esqueço de voltar,
Simulando que o dia não começa nunca mais,
Devassando quem dorme,
conspirando segredos nocturnos,
Procurando nomes que se afastam
Sem rasto, sem passos na relva pisada,
Escondidos no pó da cidade,
Amarrados às horas,
Ao verão deslizando na transpiração,
Aos vícios da respiração, dos espaços,
Dos sorrisos no meio das palavras guardadas
Em caixas, como segredos para o mundo
Saboreados com o gosto sombrio do mar.


A cidade esconde-se em nada e a luz esmorece,
Nada existindo além dos corpos que se esvaziam
Na confusão da sucessão dos dias,
Perdidos nas fugas dos barcos,
Cúmplices de quem se esconde longe,
Mesmo aqui ao lado.

Do escuro emergimos.
A noite não acabou.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006


Onde o mar desapareceu


Onde o mar desapareceu
adormeceu o dia,
cansado,
entre desejos adiados,
tremores e excitação.
O corpo treme e acende
fissurando a escuridão,
num lusco fusco de traição
e vento derramado,
adivinhando rastos de errância,
de coração sangrado, sangrando,
rasgando fina pele de tempestade,
súbita, sibilante,
despoduradamente.

A beira-mar confunde-se
com o abandono.

Sexta-feira, Junho 30, 2006


Ícaro

O primeiro momento
Onde tudo se define e se apaga,
Voa e faz-se,
De pó e pesadelos,
Num apuro melódico
De um piano quebrado.
A melancolia oceânica
Presa no ruído das ondas
Sarando feridas esquecidas
De gente que se esquece.
És tu, deambulando
E eu, voando entre nevoeiro espesso
Poluído de dúvidas,
Chamando-me outra vez
Outro nome que não o meu.

Quinta-feira, Junho 29, 2006


Outros verões

Abraçar o mundo nas
Nas faces que se mostram,
Nos dias que se sucedem,
Como nós, olhando o vazio,
Nada mais que o céu e mais nada que
Espuma, escuro, sombras
Eternas, de luz
Em euforia, esperando, o encanto
Do estio nas avenidas
Perseguindo o vento pelas sombras
Em silêncio que bate, inaudível
No infinito sobre as árvores,
E o céu, imenso.

Sexta-feira, Junho 09, 2006


Mais

Mais do que tudo,
As palavras que fogem
Corações fingidos que batem, mentindo
Ansiando veneno e saliva
Escrevendo corpos estendidos, despidos
Numa interminável insónia dolorosa,
Saborosa, viciante
A tua ausência
Que me ocupo em preencher, sem mais
Por mais e por nada,
Pelo que não consigo inventar
Para além disto,
Do que somos.

Sexta-feira, Abril 07, 2006















Naquela cidade

Somente num sonho, acordo em novas incertezas, à procura
de alguém que não eu.
Estás em todo lado,
vejo-te perdida,
levando-me ao mundo, naquela cidade,
rindo, iluminando mais que tudo.

Naquela cidade, sonhas,
voas sobre o mar,
lavas a alma, como chuva,
perdes-te comigo,
vendo lá de cima quem somos
e mergulhar no vazio, que nos embriaga,
juntos,
como num sonho, com água transparente.

Quarta-feira, Abril 05, 2006


Adágios nocturnos (fuga apressada sobre a neve)

Debaixo da noite
Adormece a manhã,
Admiram-se as profundezas do sonho,
Quando o dia acaba lá fora,
De ferro, as minhas pernas (seguras, na escada)
Forjado, no coração (o amor ao divino)
Branco, o meu corpo
Extinguindo-se na luz ténue de uma ópera
Na envolvência do calor da música.


Em fuga apressada sobre a neve,
Descobre-se a grandeza das cidades
De domingo à tarde
Feitas de café com piano,
Misturando-se nas últimas corridas do dia,
Saboreando o gosto pelos desfechos perfeitos.

escrito entre Praga, Viena e Budapeste, Março de 2006

Segunda-feira, Março 06, 2006

















Minutos antes


Minutos antes de o céu abrir
Queria eu ser
Apenas fumo na avenida
Cegar-me nos sinais deixados na ferrugem da alma
Corroendo, trilhando, com riscos a mais
Do que aqueles que já tinha lamentado
Reinventar-me surdo
Às sombras estridentes de outras vozes
Estendendo-se nas escadas
Irregulares
Indiferentes à geometria da minha dor.

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006


Toques imperfeitos

Corpos povoados de vagos gemidos
acesos na penumbra fingida da exaustão
de uma noite, por um beijo que se
deixou inacabado no fogo nocturno
de cigarros extintos, na humidade
da beira mar, suspirando nomes
de cidades e toques imperfeitos,
desfazendo nós apertados de corações migrando,
peitos entreabertos ao amor,
irrompendo em águas enfurecidas,
paredes que derrubam e abrigam
ausências, instantes invisíveis, desenhos
de feridas atravessando as horas do cais,
voes pressentindo-se como rádios pirata
enxameando as ondas sonoras do teu riso,
o medo de nada e tudo acontecer
contigo.

Terça-feira, Dezembro 13, 2005


O mundo das canções

Riscar o céu aberto,
Abrir a porta a silêncios ágeis
Repescando o cheiro a mar
E amores esboroados em lagrimas alterosas,
Em batidas lentas de sussurros
E imagens vagas.


Marcar o vazio com linhas e pensamentos
Criar a desordem, errar em vinhedos perdidos
Degustá-los,
Imaginar impérios que misturam sangue, voz e palavras.

Amar, sem mais,
Como no mundo perfeito das canções.

Terça-feira, Novembro 22, 2005



Avenida marginal

A dormência salpicada da marginal
Sonolenta, espiando invernias
A penumbra de um dia de Novembro findando
Alastrando no asfalto cintilando de chuva fria
Por quem esperei, lento vagar de um estio interminável
Espantando vagas de silêncio no passeio marítimo
Crescendo em ecoar dos passos, corrida
Compassada e atordoando sentidos
Sufocando, amarrando, soluços teimando jorrar
A agonia das palavras querendo soltar-se
Fugir dos remotos cantos do esquecimento...

A luz entorna-se pelo dia.

Espero não te ver quando chegar.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005



A noite segue adiante

A noite segue adiante
Numa voz quebrada,
Singrando nomes esquecidos
Em vão desespero,
Demorando-se no vício do tempo,
Vagabundeando,
Passos adormecidos que se apagam devagar,
Sentidos que se ocultam
Pressentindo sossegos e excessos.

Ficam as sombras das travessias, devassadas,
Rastos de travo a sal,
Rotinas amarradas ao cais,
Como alicerces da cidade.

Já não faz sentido o que deixou de fazer sentido.

Quinta-feira, Outubro 27, 2005



Segunda circular


É quase pecaminoso
Vestir e despir em voz baixa
Como um corpo que se desloca e cai
Numa expiação despudorada, acordar
Ontem e hoje e todos os dias
Sofrendo garganta abaixo
Impressões vagas de confusão
A cidade correndo frente à minha janela
Corroendo-se em movimentos sujos
De uma segunda circular sem ruídos de paixão
Esquecidas as rectas que devorámos
Como criaturas à solta, electricidade fulgurante
Demónios,
Em balanços viciantes
Desordem pura.

A manhã é a prova do delito
Como uma imensa espiritualidade
Um prova diária de auto flagelação
Esquecimento inflingido do meu prazer
Um ritual carmim, purpura, escarlate
De palavras resgatadas e sexo carnal
Esquecidas as pulsações dos corpos
Largadas as amarras dos gemidos e do silêncio

Já amanheceu e já não existes.
Não mintas.
Fui mais um conhecido amante
Bolor na escuridão
Entregando-se à realidade.

Chove como há muito não acontecia.
Já esperava que não doesse tanto.

Sexta-feira, Outubro 21, 2005



Azul Sonoro
por Pedro Peralta

Para o meu amigo daniel costa-lourenço



azul sonoro (celeste)
paladar marítimo:
sal pele toque (brandura)
também o céu
a escuridão luzidia
denominada céu
desce à terra que o sustêm
e irrompe
pela mais fina fissura do dia
o cidadão comum : a luz inteira (suspensa)
a vertigem do crepúsculo
a deambular em todas as horas
e em todas as vozes (e é silêncio
o ruído que se ouve.
e houve, e há
rostos olvidando
uma cidade por rasgar
corpos velozes
e há, o azul depois)


Cidade escura

A minha bagagem vai sempre cheia
De gaivotas expulsas pelo vento
Presenças que se empurram borda fora,
À beira da cidade escondida na tempestade
Regurgitando tirania, de me prender onde não quero
Apagando todos os cigarros que acendo
Retirando-me com ousadia os prazeres que me restam.

Tudo o que tenho é inútil,
Espalha-se no rasto do lixo das ruas mais estreitas,
Soturno coração que insiste em não morrer,
Eterniza-se nos escritos que deixas
Quando amanhece,
Quando a mar cresce sobre as silhuetas adormecidas da noite,
Também as nossas, brisas
Que se cruzam aleatoriamente no mesmo local,
Insistem em despertar juntas, no mesmo impulso.

Tu és, a minha...
Ousadia dos meus vícios,
A luz que guardo no peito,
A luz que me entra no peito,
A fuga apressada das horas,
A minha babel de afectos...

Tu és, a minha cidade escura
Que me expulsa e me prende, com o mesmo encanto,
A luxúria de desejar nada mais do que isso,
Do que te ter,
Mesmo em todas as coisas que não tenho nem vejo,
Escondidas,
Como néon reanimando-se na noite.

Terça-feira, Outubro 11, 2005


Amor amargo sabor

Acendo um fogo nos dedos,
Sobre papeis amarrotados e alisados,
No silêncio
Gravado na pele,
Segredos abertos nas feridas
Riscadas em néon,
Odiando quem deveria amar.
Mas,
Há muito que a luz que as palavras têm
O sabor que derramas,
Que transportas agora,
Como travo a pó, que se entranha
E ainda não pousou,
Mas rodeia-me
Como vento torneando o corpo,
Deixando incólume o fogo que acendi.

E segue ardendo
Como nenhuma paixão.

Sexta-feira, Setembro 23, 2005


Céu nocturno

Curioso céu nocturno
Pontos de luz em fogo preso
Que se escapam de fornalhas em movimento
Em fugaz rompante de silêncio eterno

Vagando no ocaso, por acasos sem descrição e ritmo
Sem a música que se mistura, veste a pele nua
Os gritos e os risos que rasgam as colinas
Sem horas que nos exilem os momentos que guardamos

Curioso céu nocturno
Torrente que se acalma, perdida na imensidão da nossa mão
Medo que nos consome, como dia soçobra todas as tardes
O beijo que já não larga e resiste, ante tudo

Curioso céu nocturno
Pontos de luz em fogo preso.

Sexta-feira, Agosto 26, 2005



Cárcere (escondido da luz)

Esconder a pele e os ossos
num sitio só deles,
E depois a fúria
Arranhando qualquer coisa como a alma
Dorida, em sangue salpicado de cores indeléveis,
Recortando figuras e silhuetas nas sombras das palavras,
Indistintas, intransponíveis, inexplicáveis
Como acidentes felizes do acaso, à espera de acontecer,
Murmurando canções alheias, de sonora lascívia,
Decapitando as agulhas do vinil, trilhando mãos demasiado pequenas para este mundo,
Com êxtase inexplicável e sádico.

Não te podes esconder de mim.

Quinta-feira, Agosto 18, 2005


Deixa entrar o jazz


No passeio que acompanha o mar
O dia suspende-se em melancolia,
Perdido numa atmosfera de surdinas,
Uma sensação de eterno retorno,
Música de um tempo ausente
Cola-se à pele como o inevitável balançar das ondas,
Aspirando a um contacto leve com o mundo.

Oiço-te aqui e agora,
De olhos içados ao som profundo,
Voando centelhas de paixão e música de solstícios.

Deixa entrar o jazz,
Em sucessivas vagas,
Expondo as entranhas de um coração amordaçado,
Libertando os relicários de demónios que conservas
Como amuletos de má sorte.

Afinal, oiço-te aqui e agora.
Como sempre.

Terça-feira, Agosto 09, 2005


Je fais de toi mon desire

O desejo é cor dorida e noctívaga
Coisa de minúcias e murmúrios
Que se espreguiça no amainar da manhã,
Sorrindo das memórias longínquas de ontem
Assumindo formas invulgares e inesperadas
Reflectidas como sombras perdidas no escuro
Ouvindo-se como um grito arrancado de uma paixão furiosa
Afundar-se numa boca de metro qualquer,
Insinuando-se nas esquinas mal escondidas da penumbra.

Faço de ti o meu desejo egoísta de amar sem limites,
Amordaçar gemidos de prazer,
Guardá-los só para mim
E ardendo-me as asas, subir às nuvens.

Quinta-feira, Julho 21, 2005


Braços nus à janela


A noite vem morna e livre,
Jorrando versos e odor a água amansada.

Deixa-te ficar por aí,
Onde te veja, onde me oiças.

Não durmo...

A distância é um veneno alucinogénico,
Morte lenta e dissimulada,
Fulminando o coração que ainda vive,
Recuperando o que se perdeu, que se esvaiu em silêncio,
Aconchegando-se em papel amarelecido contorcido,
Ardendo.

Sexta-feira, Julho 01, 2005



As palavras (intransponíveis como a tempestade)

Nada mais toca do que as palavras que se acercam de ti,
Coloridas,
O azul com que a solidão desfeita nos pinta.
Não te importes que não me abracem,
Sou intransponível como a tempestade diluindo-se na cidade,
Sem horas, libertina.
Qualquer noite será melhor para nos afastarmos
E não pararmos de nos olhar a esta luz.
Quero-te sempre sem o peso da eternidade,
Mas podes rir enquanto a terra girar sem avareza ou falta de amparo
Na imensidão do vazio,
Á procura de quem faça amor em qualquer terraço de onde se possam ver as nuvens e o céu, como nós.
Nada está escrito que nos impeça de parar de escrever a nossa história,
De viver nas sombras que deixam marcas nos nossos olhos,
Fechados mas atentos.
Os braços de luz e beijos que nos recolhem na paz de uma casa aberta à manhã,
Humedecem-nos, como nunca se ouvira cantar...
E as palavras pousam, indeléveis na poeira das janelas.

Sexta-feira, Junho 17, 2005


Amantes

Na deserta manhã da cidade,
Abandono-me ao desejo que escorre sobre ti,
Gemidos expulsos no que não se disse
Por palavras,
Limpo o esquecimento da noite,
Agarrando o que parecia querer escapar .

A boca...

Frases e sentidos serenados no peito,
Sublimadas no desejo de possuir sem rodeios,
A carne que abraçamos, tremendo...

A tua boca...
O denso travo salgado do corpo húmido,
Erguendo-se entorpecido,
Tropeçando no cansaço espreitando tímido...


As janelas revelam a nossa nudez perfumada.
Rimos...


*


“Um dia, enfim, só mais um dia
Para que possamos fazer amor livres
De outros compromissos
Até mais tarde, muito tarde
Até sublimes nos dissolvermos”


J. C Jerónimo, in “Só mais um dia”

Quinta-feira, Junho 02, 2005


Evadido

Desejo amotinado que se evade
Sem ruído, anónimo
Soprando a caliça presa nas unhas,
O amor suspenso na fúria cravada na tua muralha intransponível,
Em sangue expulso de feridas abertas sempre que é possível,
E que tu queiras
E que tu abras,
A malícia de saber que me prendes
Para que eu me solte
Vezes sem conta, as que te faço minha, por não seres
Nem tua.

Vento invernoso fustigante
Perdendo-se na demência de nada saber
Soçobrando,
Esvaindo-se no mar.

*

“Amei-te como um demente imanente
Num pedaço de lua,
Com uma flor de pudor lasciva
Cravada no meu sonho;
Fantasiei vidas sobre nós,
Cantei prantos de logro sem voz.”


Pedro Peralta in “Os Amantes Convexos”

Sexta-feira, Maio 20, 2005

Velas (enfunar)

Alongam-se as tardes reflectidas em ocre derretido
nas velas junto ao rio, altivas,
que não mais se recolhem
nem se dobram a qualquer sopro divino,
pontuando como proas orgulhosas
a pouca luz que ainda nos toca,
agitando-se no veludo das águas que não sossegam,
indo e vindo,
torrente incansável demorando diluir-se no sal que se aproxima.

Quarta-feira, Maio 11, 2005


Non si muova...

Almas cúmplices descortinando-se ao entardecer,
Mostrando-se em recantos de intimidade infinita,
Num jogo opiáceo de perpétua vigília,
Em movimentos de silêncio como fio de prumo

Cores magníficas sublimando-se,
Meias palavras crepitando,
O fragor de um dia maior, irrompendo debaixo de fogo
Queimando,
Corpos feridos da travessia, um escrevendo o outro
Como demónios à solta.

Naquela noite de Nápoles ouviu-se a mesma ópera
Um amor insurrecto, carnalidade absoluta,
Num pendor trágico e febril de um tremendo desejo,
Sem queixumes ou lamentos,
Apenas movimentos libertários, cintilando na penumbra.

Segunda-feira, Maio 09, 2005


As feras

Queimo por dentro em grave doçura,
Escondido na fresca claridade da multidão
Rugindo, ouvindo
As feras que habitam os nossos passos
Os risos vastos de uma fuga apressada do medo,
Do escuro da barra na fúria do inverno,
A pele irritada da poeira que nos cega.

Sexta-feira, Abril 29, 2005


O escuro da maré

Manto de algas errantes
Viajam altaneiras na crista, riscada a giz,
Imitam desenhos erráticos em ardósia líquida.

Os gritos ressoando nas paredes marginais,
O silêncio ecoando
Ameaçador sobre os vultos contrastantes na rocha,
Deitados num embalo esboroado e velho.

A angústia fustiga, perfura abaixo da pele,
Amacia as arestas da dor, em valsa lenta e triste.
O aguçado engano de medir o tempo em eternidade,
Engenhosa mentira, disfarce
Da dor cravada em arpão e ferrugem,
Surpresa.

A chaga aberta, para sempre inquinando as manhãs
Sempre que adormeço e acordo
Ouvindo o lento e escuro sonoro da maré,
Extinguindo-se sem brilho nas pedras,
Lambendo os pés sujos da cidade
Sem ruas e sem gente.
O tempo acaba quando morre o mar.

Terça-feira, Abril 26, 2005


Estio

O estio cola-se ao corpo ao som da rembetica em mais um Agosto febril longe de casa,
correndo os recortes mediterrânicos do Egeu, as madrugadas na tua língua acendida na proa do nosso espanto, como um farol onde começamos e acabamos.
Transpiramos ouzo à sombra da colina, descortinando a cidade imensa diluindo-se no calor do asfalto, presos na pele, em sufoco.
Luzem os corpos queimados, em sopro quente de verão nas ascendentes e descendentes de Kolonaki. Ombros descobertos, emudecidos no relento, escorrendo dos poros travo a fogo ateado, nuvens ardentes esfumando-se nos parapeitos, fluídas como vagas, como um dia qualquer, como sempre.
O mar ainda é longe e o ferry não espera por nós, para cortar o vento e as águas até às ilhas. Donos dos caminhos que serpenteiam, em sangue, como veneno, esperamos a brisa da tarde e o silêncio das cigarras, voando até nós como pássaros extraviados na quente planura de Atenas.

Sexta-feira, Abril 22, 2005


Pássaros (migração)

Esta dormente e insidiosa febre compassada,
Um perfeito bater de coração semanal,
Ritmada ânsia acompanhando o lento desenrolar das horas...

São talvez às dez horas os prenúncios de todas as sextas feiras.

Despida a pele dos medos e inseguranças,
Cumplicidades e mentiras tão narcóticas como os outros,
Pássaros sem lucidez
Migrando sem pouso do rio à cidade alta,
Sorvendo corpos em descoberta nudez citadina,
Na vertigem e delírio da exaustão nada acidental,
Breve fascinação furtiva.

Aproxima-se as manhãs arremessadas de véspera
E estamos já sem tempo antes delas.

Segunda-feira, Abril 18, 2005


Fotografia (música na casa)

Descobri a fotografia,
Imaginada,
deitada sobre a mesa,
esquecida a vontade que não me assiste,
adivinhando o tacto perdido, insensível,
a anca, a perna, esquecidas,
varrendo e mostrando as formas,
a tua boca húmida, prometendo
a travessia de um deserto no teu encalço.

A sala de água imensa,
amar em pele sobre a pedra,
em breve vertigem,
saliva e sal em desejo animal, cobrindo-te
em amarras fortes,
a voz atada num gemido fundo
sumindo-se na luz que nos atravessa sem pudor,
de vigia ao Porto dormente que desperta
no veludo do azulejo azul e branco,
quando finalmente a noite se recorta em foguetório,
acesos os corpos como um corpo qualquer,
flamejando com a música.

Terça-feira, Abril 12, 2005


Coisas da alma

Pássaros dormem ao vento
Ao som das águas costeiras,
Sussurrando palavras lúcidas, coisas da alma,
Nas alturas em que nos calamos como fantasmas
Com tempo para a solidão,
Sem silêncios incómodos,
Esperando apenas o fim da tarde.

Olhares outonais, seguem as voltas de um barco, sobre si mesmo,
Pensando e respirando como poucos,
Embriagados,
Ouvindo o deslumbramento, a cada nota cantada,
O som flutuante da maré subindo o cais,
Cobrindo a areia escura da margem.

A leve e insidiosa brisa do norte
Volteia e desfaz, em riscos, a planura do rio,
Mistura e espalha, cores e borboletas extraviadas,
Assinala a espuma que se esvai com a corrente,
Prega-nos as mãos, uma com outra, fixas
Na madeira podre e húmida do varandim,
De coração apertado, ansiando rebentar em fogo de fim de ano.

A luz escapa-se para as margens, renascendo,
Deixando-nos suspensos sobre a torrente que não se vê,
Acalmando, refreando a vontade de mais um beijo,
Olhos encontrando-se, brilhando...

As luzes na ponte dizem-nos que já escureceu.

Estranha manhã

(lá longe)

Estranha manhã aquela,
Quando o tempo mudou e as torres caíram
Sem o fascínio dos gestos teatrais
Numa vulnerável representação da aridez,
Uma alucinação promíscua,
Sem prefácio nem epílogo,
Subversão bizarra, sem sentido.

(aqui, tão perto)

A leveza grave da palavras, em desvario,
Perdendo-se nos jardins esquecidos
Abrem-se escancaradas, oferecendo-se,
Devorando-te sem quartel
Dedos de pó branco marcando os passos,
Implodindo, viscerais,
Escrita de seda, envolta em ti.

Segunda-feira, Abril 04, 2005


Alquimia

Amantes, abrigados debaixo do assombro,
Em surdina,
Acreditando em mais nada
Que o tempo esculpe-se no deslizar dos corpos,
Mármore alisado pelo toque, almejando
A poesia contaminada, subvertida
Em combustão lenta, deliciada, reinventando-se,
Alquimia de limalhas de ouro, soltando-se,
Libertando trechos de uma melodia,
De matizes escorreitas e ténues,
Risos feitos de bocados de céu,
Sem espaço às palavras.

Amantes, escondidos do medo,
Em silêncio,
Acreditando sobretudo na perda,
Que o arrepio seja ilusão, descuido,
Parando o tempo, mostrando a crueza,
A dureza fria da revelação, sentida,
O ouro mostrando-se pedra escura,
A paixão consumida, consumindo-se, apagando-se
A cinza espalhada com um sopro, desfeita
Sem rasto ou memória infame,
Esquecida.

Amantes, querendo,
Temendo o esquecimento.

Sexta-feira, Abril 01, 2005


Que os dias caíssem (outras horas)

As horas já não são as mesmas
e eu espero, no silêncio,
fugindo mais depressa do que sou capaz.

As horas, apressadas, desgastando
os trilhos que invento, os atalhos
nos escritos subindo a colina,
zunindo nas curvas,
perdendo-se na devoção de parar o tempo,
a cadência dos barcos, a simetria das ondas.
O compasso não muda,
insurge-se,
a ânsia, à espreita, tremendo nos lábios.

Disseste que chegavas a horas…

Foi só esperar que os dias caíssem
e se levantassem sobre os telhados abaixo de nós,
uma única vez.

Sem querer, as coisas mudam,
hora após hora, todos os dias.
Esqueci-me que a cidade não é a mesma,
devassada,
descendo a colina nos dias esquecidos,
nas mentiras de corpos transpirando o amargo dos químicos,
imperceptíveis, sôfregos,
sangrando os passos sem retorno,
o andar lento despenhando-se.

O atraso perpetua-se.

*

Inevitáveis, os teus cinco minutos,
arrancados em pêlo, dolorosos
implodindo e irrompendo,
o tempo, o suficiente para nada fazer,
subir o comboio na estação, na hora marcada,
o Oriente iluminando-se, as velas e as árvores,
a nova Lisboa acordando,
deixando-me solto, levado pelos ponteiros,
seguindo incansáveis a sucessão de outras horas.

No escuro, ao fundo, deixámos de bater...

Terça-feira, Março 29, 2005


Furor das noites cheias

As luzes que tremem ao fundo definem o horizonte,
Um esplendor acetinado em perpétuo furor,
Intermitente, entre a cadência da chuva e da poeira,
Como um latejo quebrado de emoção.

Um ofegante e voraz quarto crescente desvenda,
Revela, em contemplação ferida
O pontão desafiador,
Outrora escondido no rebentamento furioso, avassalador,
Agora em doce calma aportada, esquecendo a deriva
Como o vagar das marés baixas,
Deambulando em exíguas memórias, onde ardem suspiros.

No sufoco do turbilhão,
Fulminante e fulgurante,
A euforia lancinante de amar,
Que não acaba nem morre como um instante,
Foge à corrosão avassaladora do tempo.

A brisa lambe em arrepio a pele descoberta pela Lua,
Tocando as margens e os estilhaços de luz flutuantes,
Voando em euforia, nos risos soltos das noites cheias.

Segunda-feira, Março 28, 2005


O perfume e o incenso

Deixo de morder...
O áspero mordido dos lábios,
Fio de sangue escurecendo este remoto canto,
Lavando, sem enganos,
O espanto do vermelho faustoso do amor,
Baixando guardas aos meus medos,
Receios esconsos e soturnos, escapando-se,
Atordoados com o sopro do oceano,
Entornados com a luminosa manhã,
Clareando a lucidez perdida
Amargada pela borrasca.

O perfume e o incenso,
Descendo as cordas soltas do barco que parte,
Como aridez efémera brotando
Do firmamento que se completa,
Embrenha-se, dilui-se sem tempo
Em nós e nós no mundo.


*

"E eu tinha, finalmente, todo o tempo do mundo - talvez seja isso o amor."
António Mega Ferreira in “Amor”

Quarta-feira, Março 23, 2005


Almas Guerreiras

Uma chuva silenciosa de folhas outonais
Agita bailados guerreiros suspensos no ar,
Polvilhando a floresta cintilante,
Reacendendo a nossa errância,
Numa cadência pulsional,
Clarividente,
Vagabundeando nas mudanças que o mar desenha na cidade.

Cicatriz

O desafio maior...
Descobrir o rasto da dor,
A impressão em carne viva, de sangue e tatuagens,
De cicatrizes que as pontas dos dedos desenham no teu rosto...
Afectuosas preciosidades...
Que te mutilam e escondem,
Que fingem ser o que não são
E que se mostram,
Como caracteres vermelhos em papel branco,
Um sortilégio, uma inevitável condenação,
Difícil de esquecer.

Mas tudo se ilumina e renasce.
A água gira e corre, moldando o mundo,
Criando e inventando o nosso riso,
Esperando o suceder dos dias,
Expectantes,
Pela memória que ainda não temos,
Pelas margens que o rio ainda não tocou.

Segunda-feira, Março 21, 2005


Todas as tardes são inúteis.


Diluídos na intimidade da multidão,
Antes de respirar, suspirar as palavras,
Últimas, derradeiras,
Sorrindo...

Os inebriantes enganos que já conhecíamos,
Elevados, em olhos fechados, à memória,
Entregue e convocada em delírios,
Dos corpos reféns de volúpia,
Desmaiando de prazer, serenos,
Incandescentes e transbordantes,
Arrancados ao suor salgado da pele,
Somente respirando, no minuto seguinte à insensatez,
Em todas as horas que não me recordo,
Esperando-te no extremo do mundo,
Com hora marcada,
Na secreta esperança de naufragar,
Passo a passo, estremecendo,
Arrepiando caminho.

Mas, a sinceridade perdeu-se
Nas minhas palavras,
Julgando-as minhas e sinceras.

Invasores


A tempestade, única,
Conduz ao promontório,
Veloz e impaciente.

Todos os enganos são previsíveis,
Irresistíveis,
Quais mãos que nos conduzem,
Quentes e melosas,
Envolvendo, entorpecendo.

A anestesia da calma,
Canto de sereia magicamente administrado,
A atracção da tormenta,
O medo do naufrágio,
Lento afogamento nas águas revoltas, em fúria,
Na culpa, censura.

E o mundo das sombras,
Incontrolável,
Selvajaria da alegria despoletada,
Ebulição estonteante ,
Fustiga-nos
De risos bárbaros implacáveis,
Invasores, taciturnos
Vertendo memórias...


A terra treme debaixo dos pés,
Esbatendo a respiração,
Sem alma, consciente.

O inferno são os outros...

Sexta-feira, Março 18, 2005


Sopro da quietude

Nesta noite, escrevo e esqueço, na areia que suja o terraço, as palavras que quero ver escritas na vida que se extingue ao fundo e, nos teus olhos, sem chama ou marca brilhante, distinguindo a ressonância dos risos distantes no tempo, lambendo as feridas de unhas e mãos tenazes no braço na hora de sair, a culpa que se agarra às desculpas e ao arrependimento de te ter aqui e perder-te sem nada dizer.
O silêncio acompanha-te, intencionalmente, disfarçando o eco das escadas de mármore, abrindo-se a mim o espanto e o flanco à tua ignorância quanto à minha existência.
Apenas o silêncio ensurdece a ausência de ímpeto, soçobrando a raiva perante o crepúsculo, rasgando o céu, daqui ao horizonte.
No silêncio compreendi que já não te ouvia e já ria da raiva e pouco nexo com que subias as escadas. Já fazia sentido a tua falta de sentidos.
Ai, o mundo lá fora... Jaz amarelecido no canto dos livros, onde o gato se aninha, rasgando os periódicos sem hesitar. A cidade continua indiferente a nós. É apenas silêncio, rápido e avassalador, tortuoso e frio, ferindo-me fundo, gritando, magoado e soprando a calma de antes e que não voltaria mais.
Já nem sei se Lisboa ainda tem telhados, porque não me dizes, nem o que eu quero ouvir. Tiraste-me a voz, como o sol deixou de aquecer o meu pátio, tapado por um silo branco e devorador.
*
Nem me apercebi de que entretanto saíras. Em surdina, não bateste a porta. Não tinhas moedas no bolso nem saltos altos e ninguém te cumprimentou.
No mais puro dos silêncios deixaste-me à demente e lacónica ausência de nada saber. Vil e perversa, não me disseste como vai o mundo lá fora.

*
“Noites em que tuas mãos aliadas,
Como que em prece
Far-me-ão cerrar os olhos
Por um breve instante...
E eu deixarei sair de meus pulmões
O sopro da quietude.”
Carlos Feitosa Tesch in “Nesta noite...em todas as noites”.

Profecia

A loucura escreve melhor,
Insinua-se suavemente na alma,
Em travos de surpresa a cada esquina,
Sem pompa embasbacada,
Ensaiando irreverentes coreografias
Em fúria e solidão tumultuosa,
Povoando a penumbra onde a luz se condensa num rumor,
Como um piano dissimulado num canto recôndito,
Onde a tragédia é mais indiferente e fascinante,
Onde cheira a ausência e demência
E a obsessão que se entranha,
Condenam-se,
Num incestuoso medo de se amar a si própria.

Quinta-feira, Março 17, 2005


Manhã de Veludo

Carmin e seda
Cai como veludo
Na chuva da manhã
Inesperada
Pronunciando as formas
As curvas da calçada
Ocultas com embaraço
Velado
Mas com espanto
Do Carmo e a Trindade
Caindo a seus pés
Corando
Como maçãs flutuantes
Que não trinco
Não quero desfazer o modelo
Nem apagar os holofotes
Que iluminam teu andar
Flamejante e incandescente
Tal fogo de Agosto
Consumindo o mundo
À sua passagem.

Sexta-feira, Março 04, 2005


Ouvi-te, à noite

dar sentido ao imenso vazio
lá dentro, fico à espera de nós
oportunidade rara e audácia
repousar nos cambiantes da voz

não evito um trago de desilusão
de nascer à flor da pele
ausentando-se um suspiro no escuro
como um piano na escuridão

falar do meu mundo, respirar
voo rasante de melancolia
delírio febril alimentando-se de si próprio
transgredir, sentir a tua voz descarnar

errância e desacerto dos passos
as árvores que fogem na janela
esbanjamento e desvarío
tu falas, preversa, da consciência dos teus traços

arrojada e vil proeza
a vassalagem ao momento
a sonoridade livre e consciente de ouvir
que me amas, mas sem certeza.
que me prendes e lapidas
com crueza.

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005


Dream on

Já não há azul como o teu
as luzes que cintilam e riem como tu,
as pernas insidiosas, o ombro esculpido pelo mar,

inocentes os dias em que te vejo assim,
sem querer, sem desejar parar, sem ti...
Sem ti é que não é nada, o vazio que me assusta
o desamparo de não ter mar.

Mesmo tremendo, no frio que me afronta,
e eu não desisto, espero assim mesmo que saias da loja.

Não fosse Dezembro e seria diferente,
escolhia as palavras que tens escritas nos olhos,
minuciosamente escolhidas e ditas,

que a Rua Augusta é o S. Carlos da tua ópera
e o Natal é tão bom para me declarar como o Verão.

Que palavras?