sábado, julho 21, 2012


sussurrar, do latim susurro -are, causar sussurro, rumorejar, dizer baixinho, segredar.

Depois de "Vísceras", "Venenos" e "O Amor é uma maldição", o coletivo tânia ribas troeira, daniel costa-lourenço, carlangas e os DJ Casalmaravilha regressam ao Etilico para mais uma sessão de poesia e música.

As noites quentes de Lisboa são a envolvente perfeita para uma noite de segredos e confidências, musica e palavras ébrias.
...
"Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente... "

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, maio 04, 2012

Não consigo escrever

Não consigo escrever. As palavras são pequenos sopros rasgados e indecifráveis. O amor, o ódio, o medo, a esperança, a dor, todas as fraquezas empurrei-as para bem fundo, longe, onde não as posso ver. Para onde julgo que podem não existir. Por momentos somos mudos. A escuridão é calma e reconfortante.


Tenho tanto dentro de mim e tão pouco sei o que é. Rebento e alucino, confundo-me, luto, resisto, prosto-me perante as evidências e os sonhos e o ritmo implacável do tempo. A consciência da minha finitude deixa-me apenas a gestão corrente dos minutos que se sucedem à espera de qualquer coisa que não acontece. Não sei se luto contra impossibilidades ou limitações, inatas ou impostas, conscientes e implacáveis.
Sei que não consigo escrever. As palavras falam, alto, ganham vida e a cor do veneno que me ensopa, afoga, cega. A emoção toma o lugar da razão e é a razão que o diz. Não consigo escrever, não consigo amar, não consigo ver e no entanto quero tudo isso e quero escrevê-lo, exorcizá-lo, sentir.


É à noite que o medo se dissipa. É na noite que me comprometo e comprometo o dia de amanhã. Tão depressa e tão fácil, tão rápido.


Não consigo escrever porque o mundo às vezes é mais veloz, mais cruel, mais necessário, mais sincero. E eu não sei ser mais eu do que sempre sou, trair o que me permito sentir.


Por vezes, tantas vezes, não se abandona o que se possui, mesmo que tudo ou nada se saiba do que não nos pertence.

quinta-feira, abril 26, 2012

Depois de "Vísceras" e "Venenos", a poesia e a música voltam ao Etilico bairro alto e às suas spoken word sessions.



Consideradas uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o poetry slam / spoken word sessions têm alcançado enorme suces...so nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres


Por lisboa, "O amor é uma maldição" é o mote dado por Daniel Costa-Lourenço e por Tânia Ribas Troeira com cenários musicais improvisados do casalmaravilha/wondercouple e a guitarra de Cartangas que criam ambientes para uma administração de concentrado de palavras e segredos de diversos autores, como Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Al Berto ou Fernando Pessoa. Os efeitos são imediatos na forma como olhamos o mundo com as palavras dos poetas e a sonoridade das suas palavras.

Com a duração aproximada de 1 hora, a spoken word session terá ainda o microfone aberto ao público, onde podem ser lidos os poemas que escolherem, sejam da sua autoria ou de outros autores. Quem pretender participar poderá inscrever-se através do lisbonpoetry@gmail.com ou no dia do evento.

Maldição é a ação efetiva de um poder sobrenatural, caracterizada pela adversidade que traz, sendo geralmente usada para expressar o azar ou algo mau e aparentemente sem solução ou soluçao sobrenatural, na vida de uma pessoa. Pode ser associado a um "Feitiço", "Encantamento" ou "Fatalidade" ou a algo que possa ter a capacidade de matar ou provocar a morte.



Se isto é uma maldição então o que pode ser o Amor?


quinta-feira, março 29, 2012


Para ouvir mais logo:

(i)mundo

Silêncio.
Perante ti, o gosto amargo do silêncio. Procuro redenção na transpiração dos nossos
vícios.
Oiço-te chegar, partir, abrir e fechar todas as portas e janelas para o nosso
passado. O futuro é agora e acabou de passar. E outra vez.

Escurecemos
as sombras que fogem, que cobiçam o nosso desprendimento, a nossa vagabundagem.
Os teus cigarros surgem nos cantos, criam altares toxícos que não renegas e veneras.

Veneno,
Aquele que temos um pelo outro, como um vício insuperável, instintivo, imanente.
Preciso tanto deste silêncio, líquido perfumado, pó de estrelas decadentes,
como de dormir.

Não o posso evitar. O tempo perdido devora-nos. O prazer da minha carne não é só meu.

Observas,
O tempo, tu, a mim, enchendo o teu copo de rancor, de virtudes condenadas, excomungadas, repetidas vezes sem conta. Sem penas. Sem castigos.

Esperas-me
ao fundo das minhas dúvidas. Por isso não te vejo e não as esclareço.
Por isso a dor desaparece ante a ignorância do futuro. Que é agora e acabou de passar. E outra vez.

Cansaço.
Esgueira-se sem rodeios, arrasta todas as letras das palavras imundas que enfeitam a nossa rua,
que inundam a tua boca, que surgem nos poros transpirados que se revelam, em espasmos, vómitos.

O mundo apaga-se quando eu fecho os olhos.

sábado, março 17, 2012


POESIA no metropolitano de Lisboa ;)

quinta-feira, março 08, 2012




Alucinação

Sou um alucinado que perde no cheiro apodrecido nas palavras solenes.

Não resisto às declarações de amor cavalgadas em salas vazias sem atenção,
Uma e outras, de indisciplinada inspiração,
Minuciosamente escavadas nos silêncios e intervalos dos poemas,
Dos dedos da tua mão,
Vincados nos recantos ardentes do meu corpo.

Eu era vivo e morro todas as vezes nos impulsos discretos das circunstâncias acidentais.

O quotidiano supera as dúvidas das tuas promessas,
O castigo da escolha do antro onde te amar melhor que a última vez,
Como se soubéssemos distinguir, sequer, o que sabemos, o que queremos, o que desprezamos.

O tempo passa e envenena a feroz ilusão de que temos alicerces cravados algures.

Envelhecemos no espaço estéril da ventania.

O tempo passa e é coisa que não se perdoa,
Porque já passou e não pode ser outra vez.

sábado, fevereiro 04, 2012


http://maismulher.sic.sapo.pt/401866.html

No livro da autoria de Daniel Costa-Lourenço a cidade é novamente cenário e personagem que se movimenta entre os homens e as emoções.

Recorrendo à ambiguidade imanente ao conceito de herói, oscilando entre o divino e o humano, o egoísmo e o altruísmo, mergulha nas contradições das emoções e nas suas próprias dúvidas, como um reflexo opaco mas evidente das angústias e guerras do mundo. E como seria de esperar, os heróis de todos os dias sonham e amam nos encantamentos melódicos do fado e dos lamentos árabes, numa clara alusão a Lisboa e à sua alma.

Saiba mais sobre este livro na entrevista ao programa "Mais Mulher" da SIC mulher.

No próxmo dia 25 de Fevereiro, lançamento da antologia, que inclui um texto inédito de Daniel Costa-Lourenço.

No próximo dia 16 estão convidados para uma sessão de poesia visceral, com Daniel Costa-Lourenço, Tania Ribas Troeira, Luis Carvalho e dj set com Casalmaravilha- Poemas de lisboa, amores, paixões, sexo, loucuras e adições.
Lotaria


As folhas e os pássaros lutam,
Digo-te que o meu coração é vadio
E as paredes são inúteis confessionários.

Esqueces,
voltas noutro dia.

As noites são sempre iguais,
O tempo transforma-se, aprofunda-se.
Minto-te muitas vezes, com prazer.
Não fico impressionado com sangue, salpicos de álcool.
Desço a rua todas as manhãs sem levantar os olhos do chão,
Espreitas sempre pela janela. Não resistes.
Paciência de chinês,
Soberba de francês.
O Amor soa bem em quarto transpirado.

Não esqueces, voltas no mesmo dia.

Conto com a sorte, contigo.
Ainda é de tarde mas quero gin. Pastel de nata.
Os quadros estão espalhados pelo corredor, abandonados, à espera de engate soturno.
Não estou,
não estás para isso.

Contamos com o certo. Cigarros depois de sexo.

Rasgamos a lotaria.

domingo, janeiro 08, 2012


Sono

Tenho permanentemente sono…
Vivo como um estrangeiro no teu quarto, exilado,
Onde mesmo de madrugada já é tarde, já é o dia seguinte,
Onde nenhum fogo aquece, é distante,
A fornalha do sol que se afunda no oceano.
E o silêncio cai, molda-se aos espaços vazios,
Entre nós, entre as palavras esparsas, na sua ausência, sempre.
Podia apontar-te o movimento ascendente da lua e o mergulhar dos pássaros atrás dos
prédios,
Mas isso seria abrir mais espaço que teria de preencher,
E eu não conheço o idioma e os costumes deste degredo,
Deste canto que me apontas e aprisionas, o dedo em riste que sentencia o fim das
coisas.
Condenado ao inferno, não recuso
o prazer (o teu),
a morte (a minha),
o fim (do dia)
fugir (de volta à minha cidade)
acordar (não ter mais sono).

segunda-feira, dezembro 26, 2011

II

Suspiro nos compassos intermitentes dos risos, por vezes, demasiadas vezes,
aturdido no furacão que fustiga a tua, a nossa, aproximação.
Será esta a minha sôfrega ardência ou a loucura descontrolada que nos abraça e sufoca?
São as minhas, as tuas, as outras palavras, as próximas,
ensurdecedores pactos de silêncio, que nos aprisionam na decadência obscena dos sentimentos mais obscuros?
São desejos que soletramos,
que segredam a verdade inesperada da angústia, são medos,
águas mortas onde não chove, mordaças de silêncio infecto.
Somos tristes, caducos, arruinados.
Estamos despidos e desferimos golpes sem misericórdia, sem vergonha, sem limite.
Fujo de ti na certeza de que não te posso escapar.
Observas-me. De longe.
Excitada por saberes que me fazes mais homem.
A minha língua limpa,
sedenta, salpicos de sangue e saliva. Não sei se em ti, ou em mim.

IV

A tua boca declara guerra,
De língua desembainhada, sentencia a morte de todos os beijos,
Irreversíveis os que perdemos, eternos os que prometemos, mortos os que lastimamos.
A paixão persegue-me sem quartel,...
E nada mais me resta que viver estropiado,
Quando nada mais se move no tempo que empresto, no amor que hipoteco,
Perdido o sustento ou o ofício de amar.
Que faço amanhã,
Se a renda que há meses não pago deixa o coração livre para novos inquilinos,
Desconhecidos, outros que não nós?
Estou despido, fugindo do relento, procurando lugares escondidos dentro de nós.
Lambo as marcas da carne ferida.
Não aprendi a evitar a tua pele de arame farpado.
Mas outra coisa não sei, cativo me declaro e rendo,
Revelo-te os segredos, o sexo na minha roupa.
Beija-me ou mata-me. Sem remédio, sem desculpas, esta noite extingo-me na tua cama.

quinta-feira, novembro 10, 2011



Sei de um lugar (coração)



Ouvi dizer que existe,

um lugar escondido,

sussuro viajante, errando,

em constante e solene poente.


Sei de um coração,

triste,

perecendo em todos os males,

perseguindo naufrágios,

enganando a morte e a grandeza.



Chega-me um perfume de cravos, livros fechados, páginas que mortas cantam,

brisas amainando nas colinas,

súplicas, invejas, enganos.



Mas nesse lugar,

toda a luz é um grito,

todo o vinho é sagrado, todo o sangue renasce,

toda a palavra rasga, alastra,

dorme no mar,

imenso.



Nessa morada, a noite é curta e quente,

e a certeza, a nobreza, são mundo e glória,

e a força é estrada, é sopro, é víscera.



Sou de uma casa, de uma ideia que não termina

que avança no tempo,

que detém e contempla a todo o momento,

é alguém e toda a verdade, terrena e divina.



Sei de um coração que não cessa de bater,

belo, entontecido como o meu,

no meu.

sábado, novembro 05, 2011

Libertação (3 actos)

III - Inspira (libertação)

Tenho o poder.
Ser feliz em toda parte,
Apesar de tudo, por todos,
Inspirar a rua, as pessoas no mundo,
Quebrar e refazer o espírito,
Crescer a voz, em oração.
Eu sou.
Sou o sabor do meu nome,
Sal e vento, tempestade perfeita,
Sonho, devaneio,
Aresta inconformada que rasga o silêncio,
Mãos que interrogam, palavras insubmissas.
Mudo, liberto, guardo, arrependo-me, grito.

Escrevo o dia seguinte Amanhã.

*
O mundo suspende-se na doçura da descoberta,
Do que guardas, dizes e estendes pela minha tentação,
Do que desconheço e das palavras afiadas em limão que já partiram,
Ardendo até onde nos podemos conhecer e extinguir.

És um poema obstinado e lúcido.

Admiramos ondas que ainda não nasceram.



“ A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra”
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Libertação (3 actos)

II - Sangue e tudo (revolta)‎

És mais morte e sangue,
Coração esmagado, dorido, meu amor traído,
Finalmente tingido,
Escrito, nas paredes, corpo gasto, uma e outra vez,
Na voz que se arrasta, mel rubro, veneno,
Lambe sôfrega, violenta, sentida, perdida, liberta,
Vagando, voando,
Grita a tua maldição, outra tentação, a minha e a tua,
O ódio que nos agarra,
O inferno, o avesso, o medo, a fúria.

És morte e sangue e tudo.
Libertação (3 actos)



I – Etílico (adormecido)

Escuto o álcool correr.
As janelas e a música
Chamam cidade suja, delirante,
Adiam a minha descida à madrugada,
Aos prazeres idílicos e voláteis,
Que, lentamente, mordem as horas,
Que adormecem as dores,
Lapidam a poesia constante das noites intermináveis.
As palavras, os medos os risos e os azares,
Examinam cada rosto apressado que tropeça na calçada,
Interrogando cada pessoa que atravessa o Bairro Alto
Que se repetem a cada trago, a ausência e o esquecimento.
Mais um coração bate,
E outro amor dissolve-se em vários copos,
Evapora-se ébrio
Num perfume etílico, eminente, inesgotável.

sábado, setembro 11, 2010

quinta-feira, março 26, 2009


Todos os poemas de Madrid

Todos os poemas podem ser instantes,
Noites que se desfazem depressa,
Vozes que se pensam perdidas e que se encontram sem saber,
Encontros fugazes, insinuações inconscientes,
Nos outros pólos de atracção e repulsa,
Nos caminhos, nas canções,
Nos olhares que não se cruzam.

A poesia das coisas que se escondem,
Que se inventam,
Que se perdem por querer,
Mergulhando no calor das cidades,
No prazer da descoberta dos recantos do teu corpo,
Nos medos, na inquietude,
Vive profusa, esparsa e fugidia,
Em estado de eterna, entusiasmada, prontidão.


É a impaciência que despeja a tinta em forma de palavras,
É o silêncio que desperta os sonhos e a fuga,
O desterro dos sentimentos indecifráveis ou mais banais,
É a cidade, esta, que trago colada sem conseguir arrancar,
Sem lembrar as perguntas e as respostas,
Na tormenta dos amores guerreiros.

O sol aquece as ruas sem luar, as mãos, os corações enfeitiçados e
Repletos de gente e poemas ao acaso.

terça-feira, março 24, 2009


Corpo amargo

O corpo deitado, respira as memórias de ontem
- E as outras, que agora imagino -
Silencioso, seguindo a corrente e os barcos ao fundo, a luz
Que se extingue no tempo escuro,
Esgueirando-se nos sonhos.

A música ofegante da madrugada some-se com as vagas,
Viaja nos sussurros da cumplicidade
Até aos portos escondidos da tua alma,
Envolta em neblina e no amargo do medo.

Estremece-nos a pele e a inquietude do corpo,
Afogados no ruído ofegante,
Ressoando, desaparecendo
Subitamente
Já distante, adormeces.

Interrogo-me, sem que saiba, na verdade, o que devo perguntar-te.



“As mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais - porque o tempo todo talvez esteja onde existimos.”
Al Berto, O Medo

quinta-feira, março 12, 2009



Arco das Portas do Mar

A noite finda, exausta e com medo
Acordamos mergulhando no oceano,
Na maré da manhã que nos arrebata da frieza das pedras,
Dos corpos fundidos com o imenso que finda e se inicia
Sempre que agarramos e cruzamos o céu e a almas,
Quando nos fazemos corpos celestes em fogo e cadentes,
Como palha desfazendo-se na chuva,
Inundando tudo o que contemplamos por inteiro, infinitos
A lua, o mar e a espuma que se quebram e soltam na correnteza,
Confidentes dos segredos que se guardam sobre o arco
Nas portas do mundo.


“A porta do mar, na qual penetram as ondas pela maré cheia, e vêm, numa altura de três braças, bater contra a muralha.”
Al-Himyari, Kitab-Rawd Al-Mitar, sobre a Cerca Moura de Lisboa
Traduzido por António Borges

sexta-feira, fevereiro 27, 2009


Bairro (alto)


Renovam-se, multiplicam-se, incessantes, irresistíveis,
Os planos para a noite, para arrumar o mundo,
Os loucos e perfeitos movimentos, moribundos,
As artimanhas e conjecturas, sortilégios,
As fugas, amores e beijos roubados, tesão,
As lutas, desejo e inquietude, a devassa, tu,
Os prazeres escondidos, proibidos, adorados em surdina,
As paredes que transpiram,
As companhias, estranhos equívocos, revelações,
Palcos improvisados,
As torrentes de vozes, subindo, morrendo, ressurgindo,
As portas abertas, peitos escancarados, ao alto,
As luzes pardas,
As noites e dias seguidos em rotineiro e excitado sobressalto,

O Bairro,
A cidade que se interrompe, por meros instantes, quando amanhece.
Até já.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009


Cais das mil colunas (infinito)

O silêncio apodrece na areia suja,
Perde-se nos poemas e artifícios do tempo
Ateado nas ondas despedaças no cais,
Feridas nos sublimes avanços das marés.

Singram as palavras no rio,
Aportam os dedos na tua boca,
Os beijos ancorados no cais,
Apontando ao céu
E ao mar adiante, infinito,
Entrando na cidade, vestida de travessias
E luz de fim de dia.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009


Lisboa para amantes


Ninguém soube dizer-me
Quem foste tu.

Não se podem fingir as partidas,
Esconder feridas com golpes
Ter amigos e amantes e pecados inconfessáveis,
Promessas sobre tudo o mais que não se pode dar,
Esquecer tudo o que se fez e se faz e insiste,
Trilhar os mesmos bairros que descobrimos por nós
Em ruas traçadas a descuido,
Sozinhos, a sós com desejos nocturnos intermitentes
E não perguntar: quem és tu?

A paixão chama-se sangrando no coração,
Gritar verbos que ardem no sofá aberto à rua,
Incessante,
Transbordar as margens, com o rio, as inconstâncias da razão,
Correr o sonho, sôfrego
Nos instantes que nos atordoam.

Fomos docas mansas, portos de abrigo cheios de adeus,
Brilhámos longe,
Acesos pela lua que nos vigiava,
Procurando saber quem queríamos ser, nós.

Somos sombras e beijos ditados pela cidade,
O veludo da nudez,
Das praças vazias amanhecendo com a luz.



“Encheram profunda taça e envolveram-se em fervor. Ficou-lhes na boca — presa ao crescente desejo de mais beberem, de mais conhecerem — o sabor da outra Vida maior, onde os levara o ensejo de ultrapassarem a carne. (…)”António Salvado, in "Difícil Passagem"

sábado, janeiro 17, 2009


Na 3.ª Edição da Revista Volte-Face, fotografia, design, intervenções e poesia.
Textos de Daniel Costa-Lourenço e Pedro Peralta

quarta-feira, dezembro 31, 2008


O dia seguinte

No último dia prometo,
Sem angústias e sem pressas,
Alcançar cada instante,
Proteger-me das feridas,
Do choro arrependido,
Dos suspiros inquietos e intermitentes.

Que tudo seja claridade e lucidez,
As palavras sejam simples mas saciem, sem remédio,
O fluxo e o refluxo das vontades escondidas,
Deixem marcas de fúria e desejo,
Indeléveis ao esvair do tempo,
Inconsequente, incontrolável, irresistível,
Como o mar que se aproxima e inunda todos os medos,
Do cais à minha janela.


Passa, lento vapor, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edifícios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha...

In “Ode Marítima”Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, novembro 13, 2008


Conversa (improvável)


Fugaz, disfarce, espreita,
Áspera, nudez, incendeia,
Impulsivo, estoiro, queima,
Distinta vagueação dilacera,
Irremediável, ideia acontece,
Casual palavra, corrói,
Lúcido gesto, confunde,
Ávido conquistador ama,
Funesto amor cansa,
Sereno, lugar, existe,
Inútil espera, desespera,
Frágil boca, entontece,
Doce mágoa, arranca,
Agreste, voz, desperta.



”Emboscado en mi escritura
cantas em mi poema.R
ehén de tu dulce voz
petrificada en mi memoria.
Pájaro asido a tu fuga.
Aire tatuado por un ausente.
Reloj que late conmigo
para que nunca despierte.”
”Tu Voz” de Alejandra Pizarnik In
"La extracción de la piedrade la locura. Otros poemas.".

Devolveste-me

…um imutável silêncio
Mil monólogos sem resposta ou
Mostra de vida
…o tempo cativo
Partidas pelo mundo
E certezas conquistadas ao amor
Logo perdidas, descomprometidas
Irreparáveis deslizes de heróis principiantes
…a procura da voz por dentro
Sem verso ou anverso
Entornando poemas e sortilégios
Para lá dos muros da cidade.




“Tua voz no lacerar irreparável da tarde,
é como um gesto que arde
no fogo lento do canto...”
Ulisses Duarte, In "Poetaneamente"
*

“Devolveste-me os Cafés
cheios de gente que afinalexiste
Devolveste-me o tampo liso das mesas
sua lúcida certezade estar só”
Teresa Rita Lopes, Primeiro Poema do Amor Difícil
In"Os dedos os dias as palavras".

*

“Há quem quase tristemente nos deseje boa sorte.Mas a cidade alastra para além destes gestos.
Multiplica-se em rails e deflagrações de rolas.
Crispa-se em vaga-rosa e surda duração.”
Mário Cláudio In "Terra Sigilata".

quarta-feira, novembro 05, 2008

Cumprir o mundo

Mudou o sopro do tempo,
Quando lento é o tempo da mudança,
Quando os dias são esquecimento e cansaço,
As dúvidas são do medo e tédio.

Irrompe em chama no coração
A dor que é cumprir o mundo,
A inevitabilidade de amanhã ser mais,
Não ansiar por dias distantes.

E o mar avança pelo céu e pela terra
Cada dia, todos os dias,
Salgado e amargo, revolto,
Seguindo rumos e outras partidas,
Palavras minguantes, de pedra e amor.

E o vento sopra sempre em todas as direcções do tempo.

*


”Mas num dia amargo, num dia distante sentirei a raiva de não estender as mãos de não erguer as asas da renovação.” Pablo Neruda, in “Cadernos de Temuco”Tradução de Albano Martins


*
“Todo o mundo é composto de mudança”
Luís de Camões, in “Poesia Lírica” - “Mudam-se os tempos”


sexta-feira, outubro 17, 2008

Escondido (no tempo)

Esconde-se na tua pele
A noite eterna,
O medo frio de não chegar,
De não me lembrar a que sabem os dias a meio do mês
E as horas fora d’horas,
Os prazeres sofridos da culpa e da ambição
Como foragidos
Mergulhando, impossíveis, conscientes,
Definhando,
Sem terra nem chão, nem coração.

segunda-feira, agosto 25, 2008


Paredes

À volta são só paredes,
Olhos sem cor,
Perdidos na manhã que se desmorona
Em pesado silêncio,
Consumindo-se,
Por cada ruído de outro mundo,
Num indelével crepitar da despedida,
Em encontros casuais com o abismo do esquecimento,
Esperando em cada sombra
O espanto mudo e imperturbável das palavras
Escapando-se das janelas escancaradas sobre a cidade.


imagem: semanário "sol" 25/8/2008
incêndio do Chiado - 25/8/1988

quinta-feira, agosto 14, 2008



Embarcando

Os dias abandonam-se vagarosos
Espiando as velas perdidas no mar,
Sem nome, nem medos, nem porto,
Embarcando sempre ao longe,
Recusando palavras ou atenções,
Temendo acordar febris e adormecer
Sabendo por quem chamar.

Nada mais se ouve.

Estico os pés sobre a água,
A beira-mar limpando a saliva e a espuma das pedras,
E esqueço-me da certeza do regresso, da sorte
Dos enganos que não revelo serem meus.
(Therasia - Grécia)

terça-feira, agosto 12, 2008


Crepúsculo

Ébrios,
Sossegamos ao crepúsculo
Emudecidos,
Escrevendo a café e silêncio,
O temor e a surpresa,
A aceitação da eternidade,
Os instantes sem distância,
Depois de nós e de todos e o mar, sem horizonte,
Dormindo sobre as palavras,
Dançando sobre o amor,
Rindo sobre o calor despertado, que irrompe
E se desfaz,
Todos os dias,
Finito, como nós.


“(…)baila, con el corazón apuñalado, cantay ríe porque la herida es danza y sonrisa,(…)”
in La Bailarina Apuñalada de Nazik Almalaika
– traduzido por Maria Lucia Prieto.)

(Thira - Santorini - Grécia)



sexta-feira, agosto 08, 2008


Perto do mar


As sombras da felicidade escorrem apressadas
Nas esquinas brancas, escondidas, adivinhando,
Despertadas pelas cigarras em sentinela,
Assobiando ao calor,
Ao mundo, levantado na ponta dos pés
Perto da porta, do mar,
Ao lado da janela
Onde o sol chega até metade a esta hora,
E as horas da tarde são para sempre…
Thira (Santorini - Grécia)

quinta-feira, julho 17, 2008


Palavras inteiras

O céu suspende-se
Nas constelações de palavras que crescem, voam
Nas velas, nas redes, nos sons da respiração silenciosa,
Sustendo-se numa garrafa deitada no mar.

Inesperados caminhos, estes,
Perfumes ocultos na luz imprecisa, inesperada, sublime do Egeu
Onde tudo é um princípio ardente,
Uma história sem regresso,
Uma lua rara e um amor inteiro.

Tudo se precipita no abismo,
Com ardor, crepitando nos instantes do meio-dia,
Esperando a reconciliação da noite,
Do anúncio da sombra espessa e abundante,
Do universo encontrando o seu lugar.



Imerovigli (Santorini - Grécia)

sábado, julho 12, 2008

Mediterrâneo

Aqui sou eu,
Gigante,
O mundo, que descansa,
Braços descoberto sobre a mesa,
Até mim, entre nós, as palavras,
A verdade, navegando, o vinho.
Somos tempo e luz que não se encontra nem se apaga,
Que nasce e mergulha no horizonte,
Sem cessar,
Como tu e eu...

Oia (Santorini - Grécia)

O Mediterrâneo ao longe escurece
Mas
Eu
Sou o único azul.
O passado do Mediterrâneo é antigo, distante,
Mas
Eu
Sou o dono das estrelas.
O Mediterrâneo não pode criar-te novamente
Mas
Eu
Posso te amar mais uma vez.

Fazıl Hüsnü Dağlarca
In Poemas do Mediterrâneo

terça-feira, junho 24, 2008




Peito rasgado

É no silêncio mais quente deste poema,
Que ainda não se vislumbra a inquietude latente da aproximação,
A vibração incandescencente do aviso tombado na porta,
Na escada, no quarto, na cama, na boca,
Prostrado,
Sem brandura, com estranha intimidade,
Desfazendo-se em tremor,
Explodindo, ressoando,
Do interior, peito rasgado,
Explodindo, sem apelo, nem agravo
Na vibração de uma nota suave.

A forma como se expandem antes e depois de nos devorarmos
Assim como fogos que se extinguem e renascem
Atravessando o calor da noite
E todas as moradas dos acasos felizes
Que implodem quando menos se espera
E quando mais nos queremos.

quinta-feira, maio 22, 2008




Águas paradas

Suspiro…
Por vezes penso, demasiadas vezes,
Será esta a minha ardência, o meu compasso,
O lugar, das minhas outras palavras, as próximas,
As que não falam mas batem inquietas, tocam, afagam?
Será este o idioma dos meus pensamentos, aqueles, os indecifráveis
Que segredam a verdade inesperada da angústia,
Dos desejos soletrados só para mim?
São apenas todos medos,
São águas mortas onde não chove,
São mordaças de silêncio.

quinta-feira, maio 15, 2008


Outro calor

As razões suficientes do fingimento
Lambem-se sobre as folhas, as palavras iradas
Nos momentos em que perco a vergonha dos teus olhos,
No fumo da descoberta dos risos perdidos da porta laranja,
O Bairro na hora que peca e anoitece
Uma vez mais e se desfaz,
Ilusão,
No meu medo imortal de outro calor
Que não este,
O teu, diminuindo, fugaz.

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago in “intimidade”

segunda-feira, abril 28, 2008


O escuro imenso

O mundo ameaçava derrubar o medo sobre água
Prolongar o escuro vazio sobre o mar.
E as pontes uniam-se ainda demasiado longe,
Abraçando as luzes solitárias e trémulas de um corpo vigilante ao acaso.

Era Abril descendo a Graça ao mar da palha,
Num venerando silêncio.

terça-feira, abril 08, 2008


Curta

Mesmo que esperasse a imensa travessia das duas pontes sobre o mar,
Todos os diabos seriam lapsos imperceptíveis e fugazes,
Curtas chamadas irresistíveis, indulgentes.
Seria só chuva, desabotoa, ruído baço que desbota.



É curta a distância entre a vontade e a razão.




“Ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa.
Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim”
De José Lobo Antunes
In “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”

sexta-feira, abril 04, 2008


Quase dormia

Abril aquece antes de tempo,
O telefone interrompe o meu cigarro na janela,
Falas que passavas por acaso,
Hesito entre a cama, uma cerveja no Bairro e os prazeres do corpo.

Vem.

Óculo indiscreto treme,
Oiço a porta, dois andares abaixo,
A porta entreaberta força o beijo, a língua,
A mão entre a tua roupa e o teu corpo,
O teu peito, as tuas nádegas, a língua outra vez,
A voz que nada diz e tudo quer,
E tudo faz, descreve clichés, diverte,
Transpira.

Sabe bem, ir ao acaso, com as mãos e as palavras.

sábado, março 22, 2008




01:24



Álcool derramado a três vozes sobre a mesa,
Olhos, desejo, sentido, mãos sobre o sexo
Dos anjos, lutando por um quinto do inferno,
E nada restando do céu prometido
Em cada respirar sôfrego,
Ansiado a todas as últimas noites.

Trágica, a poesia da decadência.

quinta-feira, março 13, 2008

Madrid (palabras sencillas)

Debajo del cielo de Madrid,
El amanecer llegó temprano
(Me envenenó con el miedo de la tormenta)
Y se olvidó de quién soy,
De las cosas que deseo con ganas y dolor.
(Mientras la noche no empieza y no termina)
Como cautivo y loco,
Sigo el sonido de las calles
Hasta llegar a ti,
Hasta llenarme de ti.

Me dejé al sueño, al pressentir el olor del verano.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008



Lisboa (longe)

É triste a poesia dos horizontes que definham,
Do céu e das ruas que se perdem no caminho,
Das casas e dos telhados esventrados, sem coração,
Das almas enredadas na cidade escura que se dilui e se estende
Para longe.

Há dias assim,
Em que se acorda em outro lugar,
Luminoso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008


Sublime pranto

Nomes à solta,
No confronto das vagas
Esbracejando,
Corações pesados
Lançados no mar,
Embarcados nos enganos,
Num sublime pranto,
Como ferro esfriando, esmorece
Quebra de dor.

Não tarda que acabe
Este queixume moribundo,
Gritos esmagados
Que já só Deus pode atender,
Como frágil caravela condenada, ardendo,
Afundando na rebentação.

O céu reclama
Por nunca termos sido mais do que a exacta poesia
Da névoa tomando o cais,
Da chuva beijando as brasas que se afogam diante nós.



“(…)A chuva no chão revela
Os olhos por trás
Há que levar o restolho
Do que o tempo queimou(…)”
In “Laços” de Tiago Bettencourt

sexta-feira, fevereiro 01, 2008


Anónimo

A voz tem a máscara das horas
Anónimas,
A fala é feita de sílabas cúmplices,
O vício da mentira é um presságio de sedução
De paixão sagrada,
O lume do corpo é incerto e tormentoso
Murmurando ao coração em frágil vigília,
Atento à passagem dos astros e das aves,
Na vertigem do fogo e da cinza.



Outros nomes esquecidos

Não encontro no sossego da noite em diante
Na vertigem da escrita
O sentido oculto do meu nome,
Nem a saída nem o começo
Do labirinto desenhando na condensação da janela.

Dormes,
Corpo devassado sem cicatrizes
Sem identidade,
Diluído numa metáfora desinspirada
Imediatamente esquecida,
Latejando ensurdecedoramente.

Os outros, os nomes esquecidos
Da minha insónia,
São nómadas vagueando por esta casa,
Cúmplices das folhas brancas que se soltam
E se tingem de palavras arrancadas no meu peito.