sexta-feira, fevereiro 13, 2009


Lisboa para amantes


Ninguém soube dizer-me
Quem foste tu.

Não se podem fingir as partidas,
Esconder feridas com golpes
Ter amigos e amantes e pecados inconfessáveis,
Promessas sobre tudo o mais que não se pode dar,
Esquecer tudo o que se fez e se faz e insiste,
Trilhar os mesmos bairros que descobrimos por nós
Em ruas traçadas a descuido,
Sozinhos, a sós com desejos nocturnos intermitentes
E não perguntar: quem és tu?

A paixão chama-se sangrando no coração,
Gritar verbos que ardem no sofá aberto à rua,
Incessante,
Transbordar as margens, com o rio, as inconstâncias da razão,
Correr o sonho, sôfrego
Nos instantes que nos atordoam.

Fomos docas mansas, portos de abrigo cheios de adeus,
Brilhámos longe,
Acesos pela lua que nos vigiava,
Procurando saber quem queríamos ser, nós.

Somos sombras e beijos ditados pela cidade,
O veludo da nudez,
Das praças vazias amanhecendo com a luz.



“Encheram profunda taça e envolveram-se em fervor. Ficou-lhes na boca — presa ao crescente desejo de mais beberem, de mais conhecerem — o sabor da outra Vida maior, onde os levara o ensejo de ultrapassarem a carne. (…)”António Salvado, in "Difícil Passagem"