sexta-feira, novembro 21, 2003

Perdidos

A maresia de Setembro faz-me bem. Arrefece o espírito, quente e inquieto, muito subtilmente, sem molhar. O mar no início do Outono, revolto e furioso, escuro e misterioso, faz-me arrepiar perante tamanha demonstração de poder e magnitude de uma beleza serena. Se existisse um lugar de refúgio que pudesse chamar meu, seria um qualquer junto do mar.

Ao fundo, sem distinção, mar, céu e chuva recortados por raios e ecos que racham o silêncio do horizonte. As nuvens passam depressa, espalham-se à passagem, unem o este e o oeste, anunciam que não tardará a pingar. Não tenho abrigo.
Não sei há quanto tempo venho a esta praia, escondida, batida pela tempestade, agreste e selvagem, nem quanto tempo levo a perceber este sabor, a entender este ruído. Poderia ter nascido aqui, ter sido outra coisa em outra vida, um grão de areia, uma concha, ou uma duna feita grãos de areia unidos na solidão de nada serem uns aos outros, além de serem todos iguais na forma. Uma duna movendo-se lentamente ao longo da costa, ora crescendo, ora alongando, vendo as plantas crescendo e morrendo, acostumando-me à ausência de eternidade. Facilmente compreenderia que quem não se desilude é porque não ama e não ama para não se desiludir. Tudo o que fizesse perder-se-ia no ar, como se pertencesse a uma qualquer e pretensa ordem natural das coisas.

Sigo o caminho, olhando os carris, evitando a madeira podre, os ramos secos. O vento corre na areia, levanta as folhas secas. De um lado o mar, do outro as arribas, o sol não tarda a desaparecer, para lá da vista, depois do horizonte. O barulho das ondas diminui, distancia-se, as gaivotas deixam marcas pequenas na beira-mar. Pescadores contemplam o mar, já cansados, enquanto crianças brincam com os peixes deixados na beira da rede. Deixo que anoiteça, que o sol se consuma, lindo, sentir o frio da noite, o arrepio do vento, a areia fresca.

Trouxe-te aqui uma vez. Se debaixo daquela lua, as sombras me podiam enganar, o sentido que o horizonte tinha não podia esconder a simplicidade de uma emoção. Se no escuro, apenas o medo se mostrava, foi na penumbra que me alheei, sem pensar ou a pensar que não o deveria fazer, em que a única referência é o barulho do mar, um eco desconcertante, reconfortante, assustador. Tão assustador como deixar a areia correr entre os dedos, que acaba por se perder no mar. Como se tu, estivesses na minha frente, não por acaso, não por medo, mas porque assim seria.
E isso agora dá-me medo. A praia está deserta, e eu…. Eu, estou aqui, deixando areia escapar-se por entre os dedos. E porque, não só tu, mas outros também não estão.

Perder-se alguém é muito triste. Pior do que se tivesse morrido. Somos obrigados a ver todos os dias, nos mesmos sítios que eram nossos, a alma viva de quem já não nos diz nada. Perder amigos é penoso, mas vários no mesmo dia tem algo de tão dilacerante que chega quase a ser indolor. Perdem-se e não se trocam como outros elementos do nosso plano emocional.
Pior ainda é termos consciência de que se entra num caminho sem retorno, por nossa própria imposição e voltar atrás não é alternativa, embora, no fundo, nos apetecesse. Mas não queremos, e eu, irritado porque tenha a plena consciência que luto contra caminhos que outros escolheram conscientemente, demasiados ofuscados com o seu horizonte. ..

Fico só na praia, esperando os relâmpagos que o céu escuro prenuncia.