quarta-feira, novembro 19, 2003

Dança vencida

Entrei na sala de ensaios, pequena, mas muito luminosa e acolhedora, envolta numa pequena névoa de fumo. Á hora marcada as luzes apagaram-se, o burburinho foi diminuindo progressivamente até se instalar o silêncio absoluto e desconfortável pela espera. Uma luz vermelha acendeu, recortou o fumo e projectou-se no chão de madeira, por alguns minutos, como se de uma pequena chama se tratasse, acesa por si própria.
Um vulto mostrou-se, seguido de outro, e mais outro, alternadamente saindo da escuridão. Ondulavam como se acompanhassem o movimento da chama, como vários picos de luz numa fogueira. E tocavam-se, toques suaves e longos, como o fogo lambe a madeira, primeiro à superfície e depois, progressivamente até se confundirem com a matéria, ardendo. Como brasas que se soltam, separaram-se sem nunca se afastarem, fazendo parte do mesmo ser vivo, com identidade própria, em mutação permanente. Uma música suave, que não identifiquei, envolvia a sala, todos os presentes em fogo, que ora se mostrava, ora se escondia.
A pouco e pouco as formas revelavam-se. A pouco e pouco, as feridas abertas teimavam em não sarar, apesar do fogo que me consumia por dentro, que me devorava, como se de floresta virgem de sentimentos se tratasse. Várias mãos oscilavam, antes de tocarem nos rostos, no cabelo com uma determinação temerosa, como que admirando a pele, antes de a experimentarem. Vários corações batendo sincopadamente, ao mesmo ritmo, com a mesma excitação. A minha pele arrepiava-se com as outras. Sem vê-las, podia senti-las. Sem se tocarem, os corpos possuíam-se, apropriando-se a si próprios, queimando o chão.
O manto de fumo já envolvia sala. Libertavam-se silêncios, tocavam-se melodias. Chorava-se, ria-se, sentia-se. Trocavam-se olhares profanos, intenções carnais, mão seguras e decididas, movimentos distantes e quentes.
Todos se envolviam num tango, em corpos movidos pelo desejo, retidos na luta, no domínio, no carinho, no chão já gasto que quase nada reflectia. As cortinas eram a moldura da dança, vermelhas, de veludo, de dor e desejo, pecado carnal, capital.
Pararam corações aflitos, apagou-se coração deflagrado. Terminou a dança, acabou a luta. Não se deram por vencidos.
Fechei os olhos. Tentava desesperadamente controlar emoções que me esforçava por conter. Abri a porta e saí. Voei pelas escadas, tropeçando nas palavras que não saíam, turvando-me os olhos com água, sugando gotas de lucidez periclitante. Caí, no primeiro, no terceiro, em todos caíu qualquer coisa, das coisas que restaram, das coisas lindas que passaram, mas que acabaram por causa das coisas.
Chorei, sem respirar, sem pensar, apenas por doer, dor de nada, de vazio, de ferida a sangrar, de coração que se desfez. Doía tanto como se nada doesse, nada mais se perdesse, nada mais se quisesse. Calei gritos mudos, insuportavelmente repetidos na memória, sem tréguas, sem querer a paz.
Apenas me detive no fim do cais. Deixei-me cair. A chuva a molhar a cara, a ensopar a roupa, arrefecer a raiva, apagar o fogo.
Subi o corrimão, respirei o ar da noite, o rio. Céu escuro. Nem vislumbre de que vá mudar. Fechei os olhos e procurei sentir-me. Belisquei-me e nada. Nem arrepio nem dor, nem lágrima. Nada. Absolutamente nada.

Não resisti a mandar-te uma mensagem pelo telemóvel.