quarta-feira, novembro 19, 2003

As regras

O inverno quase chegou. Os desejos arrefecem, mutam-se, esquecem as sombras e os bálsamos marítimos perdidos na contagem cíclica do tempo que se perde sem pensar. Na varanda do Lux. tu, de vermelho justo, braço estendido, alongando, percorrendo, afagando, o ferro e a pele descoberta, de tez escurecida pela luz, sem arrepio, como o caminho mais próximo que faço até ti. No interior, a cadeira escura, ao canto, na passagem para o exterior, encenado as gruas e as luzes do porto, observa bem quem passa por aqui, por ti. Brilhas mais, ofuscas, ris de quem se apaga e se perde. Ris, sem te rires como os outros, em leves movimentos, imperceptíveis, ronronando em algodão, tão leve, escondida e camuflada aos nossos olhos como aos dos outros, esta nossa vertiginosa corrida suicida, sede de adrenalina em estado puro, adocicadamente perigosa como cocaína. Este nosso entendimento que não entendemos.
O cigarro queima, cheiras a jasmim e a sexo, dos poros libertando-o, em doses de suor contadas em escala milimétrica. No teu pescoço.
Não há vergonha. Despudorada, insana, beijares aqui, com língua, percorrendo as tuas linhas, tremendo, de frio concerteza, que eu não me apaixono nem cedo a impulsos próprios da carne. Só ás vezes, muitas vezes, quase sempre, as vezes que te vejo assim. Tu.
Vozes e gente, barcos e carros correndo na margem, furando o torpor da quase luz e à vista, à primeira, é tudo igual. A noite engana e não é para nós, que não partilhamos egoísmos e excitações, as nossas. Não há mesas nem cadeiras, jarros nem quadros que possamos atirar ao canto, da parede ao chão, no meu tapete vermelho da sala onde te oiço gemer, sedenta de tudo, contorcendo-te na voragem das horas e dos limites que não temos e as regras que não cumprimos.
Não gosto tanto de ti e não gostas tanto de mim. Eu também não. Falas, ris, daquela forma imperceptível. Gozas da expressão e do adjectivo. O romance da prosa poética que é inventar o desejo, sem sentido e a fulminante e grosseira forma como nos agarramos ao instinto de copular por prazer, como nos defraudamos com Paris no cinema e escrevemos desprezando as regras de Al Berto e Saramago. Não são as nossas.
A varanda já é pequena e o táxi espera por nós. O chão da minha sala está livre, esperando por nós, por cinco minutos que seja, pedindo que não te apresses nem te acalmes. Afinal, a primeira regra é aceitar a incerteza e o fascínio.

A indomável satisfação de se ter o que não se tem.