sexta-feira, novembro 21, 2003

morremos


Mais um dia. Sempre o mesmo, sempre o mesmo quarto, as mesmas pessoas, às mesmas horas, dando-me as mesmas coisas, com as mesmas cores, os mesmos sabores, dizendo-me o mesmo que ontem. No corredor, as pessoas habituais, fazendo gestos dementes, com quem não se pode conversar, por dizerem sempre o mesmo.
As paredes iguais, brancas, um branco higiénico e maçador, monótono, reflectindo a mínima luz, todo o dia e noite. Só o pôr-do-sol nunca mais vi, por ser atrás das árvores, e não me deixarem contornar o edifício. Já tentei subir às árvores, mas valeu-me dois dias em clausura no quarto, num completo afogamento em medicamentos.
O jardim, nada tem de diferente dos outros que vejo para lá das grades. É apenas o que medeia o meu quarto da avenida, depois das grades. Fascinante e intrigante, um mundo de pessoas, para lá e para cá, cada uma na sua própria vida, atarefadas ou a passear, correndo, sempre correndo, não se sabe bem para quê. Algumas já conheço, por estarem todas as manhãs na paragem do autocarro. Espreito-as por entre as folhas das sebes, sem que elas me vejam. Sei quando têm roupa nova, quando estão tristes, quando têm mais pressa. Ás vezes gostaria de falar com elas, mas tenho medo. A avenida é confusa, barulhenta, selvagem. Assim que penso em sair, imediatamente desisto e volto para o meu quarto.
Depois, é sempre o mesmo. Escrevo. Escrevo compulsivamente, sem parar. Assim posso abstrair-me desta monotonia asfixiante e aterradora, pois não consigo viver sem ela. E por me ser tão essencial acredito que se parar ou sair lá para fora, poderei morrer fulminantemente. Sinto que devo escrever sobre tudo o que possa apreender nos meus breves instantes de paz. Não suporto ver as folhas brancas. Se começo numa página, rapidamente cubro-a, da primeira à ultima página, margem esquerda à direita, inferior à superior.
Algumas delas foram-me tiradas. Eu sei. As enfermeiras e alguns médicos rasgaram páginas. Não para ler. Para rabiscarem nos intervalos para o lanche.
Escrevo e falo com as pessoas que saem da minha cabeça. À noite falo com as pessoas que vejo todos os dias, mas que há noite não estão na paragem. Mas a essa hora posso falar à vontade, sobre tudo, sem ninguém interromper.

Há uma enfermeira que fala comigo, de um modo diferente das outras. De noite, ela entra no meu quarto e, enquanto finjo dormir, ela afaga-me o cabelo, fala de um modo doce, tranquiliza-me. Quando tenho pesadelos, ela aparece imediatamente, conversa comigo. Quando tenho a cabeça cheia, parecendo que vai rebentar, falo-lhe dos meus pensamentos, do que me atormenta, mas que não consigo exprimir de forma alguma. Choro por nada, tenho ataques de ansiedade, por nada. Penso em perguntar-lhe porque estou naquele quarto. Mas desisto. Tenho medo que me responda que já não é necessário, que já posso sair, que já posso conhecer a Avenida e falar com as pessoas que vejo todos os dias. E tenho medo. E calo-me.
Ela parece preocupar-se apenas comigo. Reparei que raramente fala com as outras pessoas, as outras que passam nos corredores compridos, com olhares vazios, sempre olhando para o fundo, nunca para nós.
Algumas noites, não conseguia dormir e andava de um lado para o outro no quarto, perdendo os passos no eco do corredor. Os medicamentos não faziam efeito. Continuava a fingir que dormia. Tinha medo que me mandassem embora, que a enfermeira não mais conversasse comigo.
Perdia noites inteiras à espera que o dia viesse, com medo de adormecer, com medo de sonhar com coisas sem sentido. Tinha medo de falar sobre eles, tinha medo de delirar e que me diagnosticassem algo próximo da demência. Isso significaria que me poderiam prender naquele quarto horrível e eu queria sentir que estava ali porque queria, enquanto me sentisse bem, enquanto não perdesse este medo irracional ao exterior.

Mas naquela noite, havia mais ruído do que o habitual. Ouviam-se mais vozes, muitas, sobrepostas. Espreitei pela janela e reparei, por entre as folhas e ramos das árvores, luzes e gente, falando alto, rindo, cantando. Vinham do exterior, da avenida, para lá das grades. Abri a porta com cuidado, para evitar os rangidos, pé ante pé, percorri o corredor, interminável e vazio até à saída. Não havia ninguém.
Saí para o jardim. Estava húmido e caíam algumas gotas dos beirais e das árvores. Os candeeiros continuavam avariados, pelo que consegui chegar às grades sem que ninguém me visse, não obstante ter tropeçado nos vários canteiros que encontrei pelo caminho. Afastei as sebes e espreitei pelas grades.

Por entre o silêncio que se instalou, apenas uma pessoa virou a cabeça para as grades onde eu estava. Não identifiquei quem olhava, mas quem o fazia sabia de certo quem eu era. À medida que se aproximava, senti uma ansiedade anormal. Comecei a pensar a uma velocidade alucinante.
Reconheci. Não queria admitir, mas reconheci quem se dirigia a mim. Já não me controlava, voltar para trás e fugir não era solução, o meu quarto branco e monótono já não servia de abrigo, já não me protegia dos meus medos, da minha falsa segurança, que se espalhava no chão como um colar de pérolas desfeito.
Como se a minha vida acontecesse naquele momento, como se tudo se resumisse a breve instantes, nos mesmos em que revisitei a minha vida, os meus sonhos.
Quanto mais se aproximava, sentia que não havia volta a dar, que estava à beira do precipício, decidindo enfrentar o que quer que fosse, ou cedesse à facilidade e saltasse.
Sinto uma mão aparando-me para descer das grades. A enfermeira. Trazia um casaco quente para me confortar, olhando-me com carinho e atenção.
Do outro lado. Tu.
Tu
Tu.
Tu.
Ali, sem falar, sem emitir um som, sem que eu pudesse ouvir o teu coração bater, depressa ou devagar. Esqueci-me do teu timbre de voz, dos teus risos, dos teus movimentos. O que queríamos falar, o que eu não dizia, mas gritava por dentro, com todas as minhas forças até à exaustão. Tremi, de frio, de qualquer coisa. Meti a mão no bolso. Respirei fundo. Tentei ouvir o meu coração.
Nada.
Deixei de ter frio.
Nada.
Morri.
Deixei de ouvir os aplausos. As vozes desvaneceram-se lentamente até não as ouvir mais. Mexias os lábios mas deles não percebi o mínimo som, uma única palavra.
Estendeste os braços por entre as grades, tentando alcançar-me, mas sem sequer senti algum toque, por mais leve que fosse. Morri. Naqueles breves mas intermináveis momentos em que me tentava aperceber do que se passava, enquanto a minha vida corria vertiginosamente em frente aos meus olhos. Já nada importava, já nada sentia, já nada queria, como se nunca tivesse pensado nisso.
Agarrei-te na mão, puxei-te contra as grades, e enquanto te segredava ao ouvido “ Tu não existes”, espetei a faca que roubara na cozinha, no teu peito.
Como se o tempo tivesse parado, como numa dança, apercebi-me dos teus pormenores, da forma como cada parte do teu corpo se moveu. Os olhos abertos, falando, a boca semicerrada, o corpo girando graciosamente sobre si mesmo. As mãos no peito, perdendo a segurança, enquanto tentava segurar um jorro de sangue, que empapava a roupa, salpicava o passeio. Se alguma coisas querias dizer, ficou contigo, enterrada no teu peito, com a minha faca. Não queria ficar com mais nada teu, nada que me fizesse pensar em viver com esperança de que tu aparecesses e me dissesses ou desses algo.
A enfermeira largou-me. Não gritou, não se moveu, não disse nada. Simplesmente fitou-me por segundos, observando-me surpreendida.

Depois disso o habitual. Um corpo no chão, sem vida, pedindo atenção, pessoas e mais pessoas correndo como loucas, sem saberem ao certo o que fazer, comentando, dando largas à imaginação, inserindo na sua vida sem vida, um episódio grotesco mas excitante. E eu.... Eu saí calmamente para a avenida. Já não me assusta. Morri e agora tudo o que se pudesse passar, não passaria por mim.


P.S: Recebi hoje a notícia de que foste enterrado no cemitério do Alto de S. João. A enfermeira disse que foi uma cerimónia linda, com muita gente, vieram pessoas de Barcelona, que estavam todos vestidos de preto, que lançaram muitas flores sobre o teu caixão, não obstante os coveiros terem tido imensas dificuldades em prosseguir com a descida à terra do teu corpo, uma vez que chovia copiosamente e a cova encheu-se rapidamente de água e lama e pareceu-lhes mal afogar uma pessoa morta. No entanto não foi vergonhoso, pois todos fugiram a abrigar-se da chuva e ninguém viu o insólito acontecimento.
Contando com o ciclo da água, é provável que a água onde te afogaram fosse proveniente do Tejo, pelo que, além da vista magnífica, ficaste bem junto do rio que tanto gostavas.
Acrescento que, como também morri, vou deixar de escrever, e já não me importo que as enfermeiras levem estas páginas. O facto de serem brancas e imaculadas já não me atormenta. Podem perfeitamente permanecer em branco.