sexta-feira, abril 01, 2005


Que os dias caíssem (outras horas)

As horas já não são as mesmas
e eu espero, no silêncio,
fugindo mais depressa do que sou capaz.

As horas, apressadas, desgastando
os trilhos que invento, os atalhos
nos escritos subindo a colina,
zunindo nas curvas,
perdendo-se na devoção de parar o tempo,
a cadência dos barcos, a simetria das ondas.
O compasso não muda,
insurge-se,
a ânsia, à espreita, tremendo nos lábios.

Disseste que chegavas a horas…

Foi só esperar que os dias caíssem
e se levantassem sobre os telhados abaixo de nós,
uma única vez.

Sem querer, as coisas mudam,
hora após hora, todos os dias.
Esqueci-me que a cidade não é a mesma,
devassada,
descendo a colina nos dias esquecidos,
nas mentiras de corpos transpirando o amargo dos químicos,
imperceptíveis, sôfregos,
sangrando os passos sem retorno,
o andar lento despenhando-se.

O atraso perpetua-se.

*

Inevitáveis, os teus cinco minutos,
arrancados em pêlo, dolorosos
implodindo e irrompendo,
o tempo, o suficiente para nada fazer,
subir o comboio na estação, na hora marcada,
o Oriente iluminando-se, as velas e as árvores,
a nova Lisboa acordando,
deixando-me solto, levado pelos ponteiros,
seguindo incansáveis a sucessão de outras horas.

No escuro, ao fundo, deixámos de bater...