sexta-feira, abril 29, 2005


O escuro da maré

Manto de algas errantes
Viajam altaneiras na crista, riscada a giz,
Imitam desenhos erráticos em ardósia líquida.

Os gritos ressoando nas paredes marginais,
O silêncio ecoando
Ameaçador sobre os vultos contrastantes na rocha,
Deitados num embalo esboroado e velho.

A angústia fustiga, perfura abaixo da pele,
Amacia as arestas da dor, em valsa lenta e triste.
O aguçado engano de medir o tempo em eternidade,
Engenhosa mentira, disfarce
Da dor cravada em arpão e ferrugem,
Surpresa.

A chaga aberta, para sempre inquinando as manhãs
Sempre que adormeço e acordo
Ouvindo o lento e escuro sonoro da maré,
Extinguindo-se sem brilho nas pedras,
Lambendo os pés sujos da cidade
Sem ruas e sem gente.
O tempo acaba quando morre o mar.