terça-feira, abril 26, 2005


Estio

O estio cola-se ao corpo ao som da rembetica em mais um Agosto febril longe de casa,
correndo os recortes mediterrânicos do Egeu, as madrugadas na tua língua acendida na proa do nosso espanto, como um farol onde começamos e acabamos.
Transpiramos ouzo à sombra da colina, descortinando a cidade imensa diluindo-se no calor do asfalto, presos na pele, em sufoco.
Luzem os corpos queimados, em sopro quente de verão nas ascendentes e descendentes de Kolonaki. Ombros descobertos, emudecidos no relento, escorrendo dos poros travo a fogo ateado, nuvens ardentes esfumando-se nos parapeitos, fluídas como vagas, como um dia qualquer, como sempre.
O mar ainda é longe e o ferry não espera por nós, para cortar o vento e as águas até às ilhas. Donos dos caminhos que serpenteiam, em sangue, como veneno, esperamos a brisa da tarde e o silêncio das cigarras, voando até nós como pássaros extraviados na quente planura de Atenas.