terça-feira, julho 22, 2003

Tenho alguém que me espera

Tenho alguém que me espera.
Para lá do outono que voou pela janela,
Nada deixando além do meu nome.
E o teu, não me lembro, da cidade que não vi,
Pois só a ti eu deixei,
O que não tinha,
Como no corredor vazio, só a luz entrava,
E iludia a ausência, de quem espera por nada,
Rebelde pela sua causa, sem chama nem valor,
Sem arbítrio ou condescendência.
Alguém que sei que tive, nos meus braços e mais ninguém,
Nem outro verão ou primavera, nem vento que separasse,
Nem ponte que unisse, nem mundo que ruísse,
Não teve força nem vontade,
Esperava clamores de vitória, honras de estado.
Mas o meu coração não tem protocolo,
É terra de ninguém,
Onde não há vida,
A não ser a que despertaste e chamaste,
Onde deixaste silêncio,
E nada mais se ouve que o bater, oco, sincopado, compassado,
como dois dedos na mesa, contando as horas, os minutos,
sem segundos momentos, nem novas oportunidades.
O silêncio de alguém nem ficou para se ouvir,
Olhando-se de longe, fugindo pela calçada,
Com passos calados e tímidos, por entre as frinchas e feridas,
Abertas, ardendo, do meu coração.