terça-feira, julho 08, 2003

Fragmentos do nada

Entregue(s) a Si

Vagamente, lentamente, lembrava-se de tudo e não via nada, nas nuvens não conseguia tocar. E nas pessoas...Tão indistintas por fora, tão semelhantes como largo é o abismo que separa o mundo, aquele que ele criou, o que todos constróem e desfazem.
Vagamente, este era o seu mundo, recordando-se de outras horas em outros tempos.
E no mar tocava e nada sentia, nem alegria nem tristeza, nem medo nem coragem. E o mundo girava, tão rápido que de longe parecia parado,
como que aguardando o fim.
Não existes!, disse ao espelho, mudo e absorto em si, inanimado, ao que Ele nada retorquiu, com medo de negar-se a si mesmo, como se neste momento pensasse que não pensava, que não se interrogava. Só preciso de quem me possa tocar, desabafou repudiando o seu reflexo.
E nós, de repente compreendemos que estávamos sozinhos e na penumbra não vislumbramos o dia, nem Ele, que sabia o que era o dia e a noite e a madrugada. Ele, perdido como a escuridão fugindo à luz, temendo o inevitável, pela primeira vez teve medo, como nunca sentira. Cada coisa no seu lugar é o mundo do avesso, as vontades diluídas na descrença, a ausência de futuro. Ele não percebia que o reverso é a prova da face e isso entristeceu-o, culpou-o, amarrou-o a si mesmo, pois não vira o que fizera. Fez mal pelo bem, o bem pelo mal e chorou, naturalmente.
O que fiz? Perguntou ao espelho, que respondeu Nada, Tu não fizeste nada, todos fizeram o que Tu devias fazer, eles disseram-Te o que lhes devias dizer, eles amordaçam-te quando querem, não ages nunca, mesmo quando alguns pedem; Tu pensas o que todos eles pensam, Tu fazes o que eles fazem, Tu estás onde eles estão. Ou Será tudo ao contrário?
Assustado, perguntou: - Então quem sou Eu? E ele nada respondeu...
Perplexo, vagueou e perplexo tentou entender a dor. A dor de não saber como pode doer se nada não pode doer, terá pensado. Mas não parou e não descansou até O reconhecerem, todos aqueles de quem falavam, no mar, na terra, no ar, nas estrelas, todos se apagavam, ocultando o seu caminho, dissimulando a sua passagem.
E Ele desistiu, pois mais nada conhecia que toda a parte e em toda a parte, ninguém O reconheceu. Deixou-se ficar, deixou de ouvir, a ninguém respondeu, pois ninguém O chamava.
E tudo mudou. A penumbra não mais fugia ao dia, e a noite não mais cessou, pois já era tudo, as nuvens cobriram a terra e toda parte era outra toda igual Ninguém O procurava, ninguém O perdera, não havia falta do que nunca lá estivera, percebendo, enfim, que não fazia sentido apenas para quem Nele depositava fé, apenas para quem Nele se orientava, por falta ou fraqueza, por escolha ou atitude, por reveses ou bandeiras.
E agora? Ficam entregues a si...! interrogou-se ao espelho, ao que este, sem pensar, num ápice, respondeu: Sempre estiveram...