sexta-feira, março 18, 2005


Sopro da quietude

Nesta noite, escrevo e esqueço, na areia que suja o terraço, as palavras que quero ver escritas na vida que se extingue ao fundo e, nos teus olhos, sem chama ou marca brilhante, distinguindo a ressonância dos risos distantes no tempo, lambendo as feridas de unhas e mãos tenazes no braço na hora de sair, a culpa que se agarra às desculpas e ao arrependimento de te ter aqui e perder-te sem nada dizer.
O silêncio acompanha-te, intencionalmente, disfarçando o eco das escadas de mármore, abrindo-se a mim o espanto e o flanco à tua ignorância quanto à minha existência.
Apenas o silêncio ensurdece a ausência de ímpeto, soçobrando a raiva perante o crepúsculo, rasgando o céu, daqui ao horizonte.
No silêncio compreendi que já não te ouvia e já ria da raiva e pouco nexo com que subias as escadas. Já fazia sentido a tua falta de sentidos.
Ai, o mundo lá fora... Jaz amarelecido no canto dos livros, onde o gato se aninha, rasgando os periódicos sem hesitar. A cidade continua indiferente a nós. É apenas silêncio, rápido e avassalador, tortuoso e frio, ferindo-me fundo, gritando, magoado e soprando a calma de antes e que não voltaria mais.
Já nem sei se Lisboa ainda tem telhados, porque não me dizes, nem o que eu quero ouvir. Tiraste-me a voz, como o sol deixou de aquecer o meu pátio, tapado por um silo branco e devorador.
*
Nem me apercebi de que entretanto saíras. Em surdina, não bateste a porta. Não tinhas moedas no bolso nem saltos altos e ninguém te cumprimentou.
No mais puro dos silêncios deixaste-me à demente e lacónica ausência de nada saber. Vil e perversa, não me disseste como vai o mundo lá fora.

*
“Noites em que tuas mãos aliadas,
Como que em prece
Far-me-ão cerrar os olhos
Por um breve instante...
E eu deixarei sair de meus pulmões
O sopro da quietude.”
Carlos Feitosa Tesch in “Nesta noite...em todas as noites”.