segunda-feira, março 28, 2005


O perfume e o incenso

Deixo de morder...
O áspero mordido dos lábios,
Fio de sangue escurecendo este remoto canto,
Lavando, sem enganos,
O espanto do vermelho faustoso do amor,
Baixando guardas aos meus medos,
Receios esconsos e soturnos, escapando-se,
Atordoados com o sopro do oceano,
Entornados com a luminosa manhã,
Clareando a lucidez perdida
Amargada pela borrasca.

O perfume e o incenso,
Descendo as cordas soltas do barco que parte,
Como aridez efémera brotando
Do firmamento que se completa,
Embrenha-se, dilui-se sem tempo
Em nós e nós no mundo.


*

"E eu tinha, finalmente, todo o tempo do mundo - talvez seja isso o amor."
António Mega Ferreira in “Amor”