sexta-feira, dezembro 05, 2003

Descanso à noite


Sem guia ou vigília, sem estribos
Porém taciturna, a noite chega,
Sem horizonte nem horas para deixar de morrer aos poucos,
Na evidência abrupta e genética de ignorar as evidências,
O óbvio que é a distância daqui à morte
Observando a rua do alto de vinte andares, sem luz,
Fugindo aos cantos indeterminados dos meus ébrios suspiros,
De tédio e apatia.
À noite, no silêncio infinito e escuro da minha janela,
A água quieta vibra no vidro, lenta, dilatória
Como sangue passando abaixo da minha pele,
O suor pingando sobre as pestanas, ardendo nos olhos,
Fazendo-me querer arrancar esta pele de impotência e frustração.
Tenho medo das dúvidas e da certeza,
De sair e atravessar a cidade, evadir-me sem suspeita
E descobrir apenas as alegrias que me são permitidas,
Fetiches tão vazios e sem sentido
Como este open space claustrofóbico,
Ordenado, limpo e sufocante.

*
Beijo o vidro e o meu reflexo foge da janela.
*
A distância daqui à rua desaparece,
Inexplicavelmente,
De uma forma indolor.