terça-feira, abril 03, 2007


Beijos no cimento


São traçados a tédio, sincopados,
Os encontros e as ilusões,
Pequenos mundos devorados a cinzento
Que as breves horas apressadas nos deixam.

De ip’s e ic’s forma-se a anatomia do que já fizémos,
Os itinerários que se complementam, as certezas do fim
Afundam-se no cimêncio dos beijos,
A um ritmo pendular,
Frios e mudos,
Roubados às canções pálidas que ofereci,
Perdidas,
Nas peregrinações encenadas de todos os dias.

Tudo é um grande momento único,
Na contigência geométrica da calma suburbana,
No sono profundo dos arredores,
Entorpecendo lábios que se tocam
Escondidos.


cimêncio, s.m. (do lat. coementu por aglutinação com do lat. silentiu). Estado calcário de pessoa ou cidade que revela uma calma fortísssima. Mistura de cal, segredo e mistério, impenetrável ao tempo. União íntima; pausa fundamental. Suspensão de base ou fundamento. Sono profundo dos arredores. Construção imaginária; matéria-prima do espírito.
luís gouveia monteiro
após Diogo Lopes e Nuno Cera in"Cimêncio" (Ed. Fenda, Lisboa)