sexta-feira, novembro 19, 2004


Perfurando a tua ausência


A casa há muito que está fechada. Os passos há muito deixaram de se ouvir e gastar o soalho do alpendre, vestido de folhas secas e ramos abandonados do velho castanheiro que teima em crescer no jardim.
Encostado ao carro, espero uns momentos para admirar a ausência de vida no penhasco, para ganhar coragem e atravessar o o caminho de ciprestes até à clareira defronte da porta, que sei que não tentar sequer abrir.
Pedi-te para ficar e esperar fora dos domínios do que queria esquecer. Compreendeste, como sempre. E aceitaste.
O barulho da porta do carro assusta os pássaros nas árvores e ecoa pelas falésias até ao meu peito, batendo ao ritmo dos sapatos esmagando tufos de erva seca, da chave rodando na ferrugem do portão, denunciando que há muito teria sido deixado aberto.
O barulho do mar tornava-se perceptível e presente, ao fundo do pinhal frio atravessando a fina camisola de malha que trazia, não sei bem porquê e agora não me lembro, porque me esqueci que saberia que assim seria.
Desde há umas semanas que não conseguia dormir e a tua presença era demasiado constante para que pudesse levar uma vida normal, sem suores frios, sem ataques de ansiedade, sem pressa para saborear o meu café ao fim da tarde lá na avenida. Pensava que tudo tinha sido enterrado aqui, que aqui tudo tinha sido discutido e resolvido, que fechando a porta da nossa casa, deixava as minhas inseguranças seguramente presas longe do meu precário equilíbrio, continuamente devassado.
Passei ao largo alpendre, dos canteiros de rosas dominados por ervas e mato e procurei as escadas da falésia no meio das silvas, tentando lembrar-me do sítio onde nos vimos pela última vez, algumas semanas, meses atrás, já não sei.
Descobri a velha passadeira de madeira que nos levava ao miradouro e à casa de inverno, onde observávamos e admirávamos o forte mar de inverno, comendo a areia, deformando a praia. È o lugar que melhor me recordo de estar contigo, os dois a sós, a última, onde me pediste em casamento, eliminado de vez a minha vontade de amar em liberdade.
O cheiro a abandono era intenso e insuportável, mas garantia-me que ainda poderias lá estar, que permaneceste presa ao que era nosso, libertando-me para construir o que era meu, talvez obrigando-me a fugir para outra prisão, não sei. Queria apenas assegurar que a tua presença não me teria seguido para onde fui.
A porta estava aberta, mas ao fundo da sala, junto à lareira, estavas lá. Ainda estavas lá. Apesar de tudo sempre altiva e arrogante, mas continuavas como quando te deixei. Sofrendo, clamando perdão, aceitando os fracassos e a inglória luta para me destruir. Nada que que não se resolvesse perfurando o teu orgulho até à ausência de coração, o que, curiosamente, também sangra, dói e mata.
E matou na perfeição, sem falhar, como uma ciência exacta, embora de variáveis incertas e muito indeterminadas, quase improváveis, como o facto de continuares imóvel, na mesma posição, mãos sobre o peito, de camisa tingida, entre a lareira e o sofá, rodeada de bichos e decomposta sem tréguas. Provocaria enjoos, não fosse a satisfação de ver que o meu passado estava morto e decomposto, como que por magia.
A gasolina ainda estava ao teu lado, mas na altura não julguei mereceres a purificação da chama nem pretendia alertar os espíritos à solta na praia nesse Verão.
Receando ter de te ver aqui, ou todos os dias quando acordava ou dormia, lancei-te o fogo, não para te purificar mas para te castigar, para queimar qualquer possibilidade de dignidade que pudesse ainda residir em ti. Assim mesmo, sem perdão, tão facilmente como ignorar o que não sabemos.
Muito devagar, mãos nos bolsos, subi as escadas, atravessei o jardim sem olhar para a casa, fitando o carro ao fundo da alameda descuidada e vazia.
Ainda esperavas por mim, embora ja cá fora, fumando compulsivamente. Se bem te conhecia, não era o primeiro cigarro.
Beijei-te sofregamente, inesperadamente, mas gostaste. Sem medos, sem estigmas, apenas amando, abri-te a camisa, as calças, exibi-te a minha excitação, a minha vontade e encostei-te ao carro, amando-te, rindo, libertando gritos em liberdade, por longos momentos sem tempo.
Abriste-te os olhos e a tua boca desenhou as palavras que me voltariam a matar, a morrer por dentro, a desejar nunca ter amado.
- Queres casar comigo? Disseste chorando de alegria.
Foram as últimas palavras que ouvi da tua boca, antes de te ver desaparecer e soçobrar diante mim, horrorizada com o mal que me infligiste, com a tua crueldade fria e com a faca que perfurei a tua ausência de coração.