sexta-feira, novembro 19, 2004


Gato e rato


Em cubos, o açúcar desfaz-se como água ráz violeta no céu e ao fundo do corredor, vermelho - sem intenções óbvias – a divina cumplicidade de Deus e o Diabo num corpo só, rindo e corando, sem nesgas de penas ou provações, rebola-se numa aparente simplicidade e inocência da minha cama.
Do sofá de veludo azul apenas vejo uma nesga de pecado, aquela que me concedeste, afastando censuras por patente gozo depravado e voyer, que não me permitirias ter.
Por mim gatinharia pelo chão de madeira envernizada, duplicando no reflexo o meu divertimento, partindo para conquistar, novamente, esses domínios que insistes reclamar como inexplorados.
Dizes, sem levantar a voz, que não devo sair de onde estou. Aceno que sim, concordando, apesar de não me veres e continuo a beber o meu café, adivinhando o que não irás fazer.
A luz já não entra na janela, o relógio marca a mesma hora há cinco horas, numa em que arrancaste a ficha da parede, em cada dia desta semana, ultrapassando os limites do cansaço e da agonia do excesso do prazer, como casas de veludo e talha dourada, em cada ínfimo ponto que pudesse ser preenchido.
A chávena de café já transbordava, como eu, preenchido de antecipação, estupidamente, ou inteligentemente, como um jogo. Sabia perfeitamente onde tudo iria acabar, e lembrando como era, fazia por esquecer, extasiado por surpresas melhoradas, sempre que as mesmas aconteciam.
A musica apareceu, sem que desse por isso, mas encostou-se a mim como um gato, ronronando. “Quiereme” da Núria Fergó não era bem o que eu queria, mas nada como salero de fim de tarde num quinto andar da Sétima Colina.
“Quiereme, como se quiere por primeira vez, quiéreme, quiéreme para lo resto de la vida.......” e por aí adiante, percorrendo o corredor, sem parar, pisando tudo o que atiraste pelos curtos intervalos em que abrias a porta, rindo, sorrindo, provocando, com saídas esporádicas e rápidas, como um jogo de gato e rato que sempre gostei de jogar contigo, desprevenido, à mercê da tua militante loucura, nada virginal, sem tremores de primeira vez, onde eu podia ser rato e gato, conforme o momento e a disposição. Mas gostavas de ser gato de vestido curto, fosse em Paris, Praga ou Atenas, nunca em Nápoles, Nice ou Barcelona. O teu estranho e excitante fetiche da proximidade ao poder não nos deixava dormir numa cidade que não fosse capital, num quarto com janela com vista para o poder.
Fechada no quarto, matando-me de antecipação, sabias que esperaria o tempo eu fosse preciso, sabias que não eram perdidas as horas de preliminares, em que, invariavelmente, chegarias sem que eu ouvisse, tirando-me o cigarro da boca, fechando a janela sobre o Palácio de S. Bento, já iluminado.