Guardiões da claridade
A cadeira vazia admira o deserto que se estende, infinito, depois do terraço
E o bloco de papel perde todas as notas de solidão,
Todo o ressoar dos mastros recortados no pôr-do-sol.
O cântico do Mar da Palha dilui-se, vasto, como um temporal que se indicia mas não acontece.
Balançam os pés na beira do telhado e nós
Experimentamos as fronteiras do que podemos sentir, aqui,
Onde tudo se abre e se mostra, onde ninguém adivinha como nos queremos,
Como bebemos as estrelas e pescamos cardumes de gaivotas
Sacudidos pelo vento.
Envolvo a mão magoada na escrita no calor da noite, na tua furiosa quietude,
Desfaço os nossos nomes em poemas exaustos, viajantes, atormentados.
Foi assim que nos tornámos guardiões da barra do rio, da ponte perdendo-se no nevoeiro, do perfume intermitente da claridade, das palavras amareladas no bloco de notas, nascidas e mortas no mesmo instante de vento brando.
E todos os dias daqueles dias, mordemos o sossego, desfizemos o poente nas fogueiras acendidas por toda a cidade, provámos os corpos urgentes e inacessíveis de quem sonhava acordado.
Tornámo-nos descrentes de que, um qualquer dia, toda a cidade que se avistava não seria nossa, sempre.
sexta-feira, março 14, 2014
sábado, fevereiro 01, 2014
Espera (Linha Amarela)
É no cais que se espera
São quatro minutos
De espera
Pessoas que desesperam
Eu
Que descanso, escrevo,
Brinco com os passos, nas mãos,
No brilho dos azulejos
Nos grafitis mal educados
E espero
E penso, conjuro, desconstruo, maquino, procuro
Mudo o mundo mudo
E o que pensava fazer daqui a três dias
E fico imóvel
Sempre ali
E gritam comigo (estou em frente à porta do comboio)
Cheio, cheios de espera, de cidade,
De Natal, de Páscoa, de Férias, de vida
Loucos
De ânsia
Chegar a casa
A ti
- “Para sua segurança não ultrapasse a faixa amarela" –
A linha amarela traçado aos meus pés,
A linha que nos separa de nada.
Passaram quatro minutos e um segundo,
Vou passar nas outras estações, mudar de linha e de coração
E esperar
Quando sair na estação que dá para o mar
E submergir para amanhã.
É no cais que se espera
São quatro minutos
De espera
Pessoas que desesperam
Eu
Que descanso, escrevo,
Brinco com os passos, nas mãos,
No brilho dos azulejos
Nos grafitis mal educados
E espero
E penso, conjuro, desconstruo, maquino, procuro
Mudo o mundo mudo
E o que pensava fazer daqui a três dias
E fico imóvel
Sempre ali
E gritam comigo (estou em frente à porta do comboio)
Cheio, cheios de espera, de cidade,
De Natal, de Páscoa, de Férias, de vida
Loucos
De ânsia
Chegar a casa
A ti
- “Para sua segurança não ultrapasse a faixa amarela" –
A linha amarela traçado aos meus pés,
A linha que nos separa de nada.
Passaram quatro minutos e um segundo,
Vou passar nas outras estações, mudar de linha e de coração
E esperar
Quando sair na estação que dá para o mar
E submergir para amanhã.
segunda-feira, janeiro 20, 2014
terça-feira, janeiro 14, 2014
As spoken Word sessions voltam ao Bairro Alto a 16 de Janeiro. Depois de um 2013 completo, o Etílico Bairro Alto e o Blog Mar da Palha voltam a organizar sessões de poesia que misturam a voz, música e imagens, sendo o coletivo constituído pelas vozes de Daniel Costa-Lourenço, Susana Simões e Bruno Torrão, o ambiente sonoro a cargo do piano de Paulo Martins e da guitarra de Luís Pestana e a poesia visual a cargo de Eldorado13 by Marta Cruz.
Á semelhança de outras sessões, como “O Amor é uma Maldição”, Sussurros”, “Lisboa”, “Mar”, “Utopia”, “Venenos” ou “Vísceras”, existe um tema transversal e enquadrador, sendo que este “Trans(e)ação” está subordinado à poesia erótica, de autores mais e de outros menos conhecidos, tendo a música e a projeção de imagens como a envolvência perfeita.
E como sempre, não se pretende uma sessão formal mas sim que o público se sinta confortável e desafiado a entrar no espectáculo, podendo inclusive trazer os seus poemas preferidos e ligados ao tema, com o objetivo de fazer desta sessão um encontro de pessoas e partilha de paixões.
Acontecerá a 16 de janeiro, quinta-feira, pelas 22h30 e com a duração aproximada de 1 hora.
domingo, outubro 06, 2013
Atlas
Os mapas antigos têm cores,
Ventos, monstros e serpentes, verdes.
A tua,
Rodeia-te o ombro,
Toca-te o veneno dos lábios,
Baralha-me a latitude,
Afunda-me nos cantos desconhecidos
Onde o mar cai no vazio,
Onde todos os aventureiros perderam o chão e o abismo
E descobriram as estrelas.
São os pontos recortados e letras que não conheço
Que lavram a linha do teu braço,
Apontam as cidades e os povos imaginados
No rumor da rua
(que não vemos há dias porque um atlas redescobre-se como
se fosse outra vez),
No estalido surdo da carne trémula,
Perturbando falhas, desfiladeiros, cicatrizes.
Os trópicos misturam-se na tinta e o Equador revela-se
quando me rodeias
E envolves no sopro Este do Levante.
Não se ouve ninguém nos confins do mundo.
sábado, agosto 31, 2013
Agosto
Fervemos
em qualquer dia
Que
nos apeteça
Ou
aconteça,
Mas
é verão em Lisboa
E
o azul é maior do que nós,
Helénico,
Imenso
toldo que nos cobre as façanhas,
As
patranhas,
Os
beijos roubados no jardim,
Os
peixes a ver,
E
a relva que nos aconchega,
Esconde
a roupa molhada, na sombra,
Sem
disfarçar,
Do
quanto me queres,
Do
quanto te dás.
A
cidade abandonada só para nós,
Disponível,
Enchendo-nos
a boca de sede,
A
querer mais,
Querer-te
mais,
Ter-te
mais.
Esquece,
Não
digas a ninguém,
Mas
amanhã há novamente rio
E
tardes devoradas por incêndios
Dos
nossos corpos acesos.
sexta-feira, julho 12, 2013
Lisboa (estio)
Demoras a acordar.
Suspiros profundos recortados nas travessias que despertam,
Crescendo nos ventos africanos da manhã.
Corre-te o rio na nuca, transpirado, sonolento,
Expulsando pássaros salgados pela janela,
Com as primeiras palavras do dia.
Acordas Lisboa, cansada, rindo do vácuo da noite, do estio,
De corpo gasto, sepultado nos mistérios aromáticos, etílicos,
Dos peixes que alcançam terraços
Em chamamentos longínquos.
Lamentas não ser aquele dia, não ser a próxima
Palavra atada, submergida no fogo dos arredores,
Nos Jacarandás brilhando, o ouro luminoso do verão.
Beijamos a brisa, desfazemos o mar em cada ponto invisível
Do corpo e das muralhas que crescem e se esboroam,
Cada vez que nos deixamos exaustos, perdidos, os corações e
Os navios na barra.
Pressinto que deixo de existir em ti,
Subitamente, em todos os segundos,
Sempre que morres e que nasces,
À beira, no clamor do mundo.
Demoras a acordar.
Suspiros profundos recortados nas travessias que despertam,
Crescendo nos ventos africanos da manhã.
Corre-te o rio na nuca, transpirado, sonolento,
Expulsando pássaros salgados pela janela,
Com as primeiras palavras do dia.
Acordas Lisboa, cansada, rindo do vácuo da noite, do estio,
De corpo gasto, sepultado nos mistérios aromáticos, etílicos,
Dos peixes que alcançam terraços
Em chamamentos longínquos.
Lamentas não ser aquele dia, não ser a próxima
Palavra atada, submergida no fogo dos arredores,
Nos Jacarandás brilhando, o ouro luminoso do verão.
Beijamos a brisa, desfazemos o mar em cada ponto invisível
Do corpo e das muralhas que crescem e se esboroam,
Cada vez que nos deixamos exaustos, perdidos, os corações e
Os navios na barra.
Pressinto que deixo de existir em ti,
Subitamente, em todos os segundos,
Sempre que morres e que nasces,
À beira, no clamor do mundo.
quarta-feira, maio 15, 2013
Furor de todas as coisas (segunda parte)
Há um silêncio agudo em mim
Revelando-se em vozes inexplicáveis, descobertas na areia
Com as marés.
Imagino os barcos voando nas cidades
Levando-me ao meu primeiro dia no mundo
Luminoso
Efervescendo todas as manhã.
Abri os olhos à passagem das gaivotas
À escrita das conversas longínquas dos mitos oceânicos,
O furor de todas as coisas que ainda tenho de inventar,
Em estremecida devoção,
A ti,
Mistério perfumado que vagueia nos instantes das dúvidas e
Explode como a primavera depois do verão.
Respiro em águas mansas que regam a solidão.
Há um silêncio agudo em mim
Revelando-se em vozes inexplicáveis, descobertas na areia
Com as marés.
Imagino os barcos voando nas cidades
Levando-me ao meu primeiro dia no mundo
Luminoso
Efervescendo todas as manhã.
Abri os olhos à passagem das gaivotas
À escrita das conversas longínquas dos mitos oceânicos,
O furor de todas as coisas que ainda tenho de inventar,
Em estremecida devoção,
A ti,
Mistério perfumado que vagueia nos instantes das dúvidas e
Explode como a primavera depois do verão.
Respiro em águas mansas que regam a solidão.
segunda-feira, maio 13, 2013
Furor de todas as coisas
Perdi o furor de todas as coisas
No chamamentos das ondas e
Nos abismos tenebrosos que devoram a luz,
Inspiram o céu e encostam os ventos às maldições.
São mil feridas abertas na espuma,
Torturas cavadas e invernosas,
Corações afogados batendo no cais,
Em movimentos ardentes, esvaídos na voz antiga do tempo,
Odisseia de navegantes
Procurando a curvatura da imaginação e
Do medo.
Perdi o rasto das estrelas desprendidas e os faróis consumiram-se
Cansados,
Em crepúsculos sempre iguais.
O mundo é um ermo vasto e solitário
Um excesso que se devora de forma estridente,
Que me cria e destrói e
Condena a renascer, infinito
Perdi o furor de todas as coisas
No chamamentos das ondas e
Nos abismos tenebrosos que devoram a luz,
Inspiram o céu e encostam os ventos às maldições.
São mil feridas abertas na espuma,
Torturas cavadas e invernosas,
Corações afogados batendo no cais,
Em movimentos ardentes, esvaídos na voz antiga do tempo,
Odisseia de navegantes
Procurando a curvatura da imaginação e
Do medo.
Perdi o rasto das estrelas desprendidas e os faróis consumiram-se
Cansados,
Em crepúsculos sempre iguais.
O mundo é um ermo vasto e solitário
Um excesso que se devora de forma estridente,
Que me cria e destrói e
Condena a renascer, infinito
sábado, novembro 24, 2012
Às vezes não temos cor
Lisboa às vezes não tem cor, esvai-se em soluços cinzentos,
Separa-nos, entrega-nos ao desconforto das janelas vazias.
Hoje não acordei. Não é dia e não chove.
Medeia-nos o desconforto, o fim da história,
As palavras esbatidas das dúvidas e o medo, o desafio,
Separa-nos, entrega-nos ao desconforto das janelas vazias.
Hoje não acordei. Não é dia e não chove.
Medeia-nos o desconforto, o fim da história,
As palavras esbatidas das dúvidas e o medo, o desafio,
Cavaleiros tremendo na ânsia da batalha que terminou.
Hoje não acendi a luz, fervi o coração em desespero,
Queimei-te em festa, desmantelei-te em intervalos longínquos.
Ficaram os lapsos, o tédio, os sonhos ardendo na respiração.
No rastro da tempestade, o silêncio não tarda. Perde-se na calçada,
Para lá das janelas desgarradas, irrompe, salpica-nos.
Não é mais nada do que o espaço liberto dos nossos passos, à procura de restauro,
No canto sonolento das palavras mudas, sem arrojo e sem rasgo.
Revisitada a arquitetura das nossas diferenças, tudo permanece igual:
Uma soma de paralelos, perdendo espessura, implodindo no infinito incolor.
Hoje não acendi a luz, fervi o coração em desespero,
Queimei-te em festa, desmantelei-te em intervalos longínquos.
Ficaram os lapsos, o tédio, os sonhos ardendo na respiração.
No rastro da tempestade, o silêncio não tarda. Perde-se na calçada,
Para lá das janelas desgarradas, irrompe, salpica-nos.
Não é mais nada do que o espaço liberto dos nossos passos, à procura de restauro,
No canto sonolento das palavras mudas, sem arrojo e sem rasgo.
Revisitada a arquitetura das nossas diferenças, tudo permanece igual:
Uma soma de paralelos, perdendo espessura, implodindo no infinito incolor.
Portugal
As montanhas empurram o mar
Em busca incessante, um formigueiro na viagem,
Condição contaminante.
As montanhas empurram o mar
Em busca incessante, um formigueiro na viagem,
Condição contaminante.
Esconjuras, ousadia e degredo,
Língua esvaída, desdita, feliz,
Sossego em sobressalto.
Cidades murmuradas, gastas ao fim-de-semana,
Sabedoria de café, janelas iluminadas,
Portas escancaradas para gaivotas.
São tempestades, é verão,
Vento manso que nunca chega,
Tudo alcança, em todo o lugar chega,
Criatura liberdade em permanente aventura,
Tempo passado, futuro insistente, teimoso.
O mesmo relógio, diferentes razões e atrasos, desculpas,
Nada mais acontece, a todas as horas se inventa,
Ainda assim, é mesmo assim,
Existe alma, escrevemos triunfantes,
Nesta terra não sai petróleo mas jorra talento.
Língua esvaída, desdita, feliz,
Sossego em sobressalto.
Cidades murmuradas, gastas ao fim-de-semana,
Sabedoria de café, janelas iluminadas,
Portas escancaradas para gaivotas.
São tempestades, é verão,
Vento manso que nunca chega,
Tudo alcança, em todo o lugar chega,
Criatura liberdade em permanente aventura,
Tempo passado, futuro insistente, teimoso.
O mesmo relógio, diferentes razões e atrasos, desculpas,
Nada mais acontece, a todas as horas se inventa,
Ainda assim, é mesmo assim,
Existe alma, escrevemos triunfantes,
Nesta terra não sai petróleo mas jorra talento.
quarta-feira, setembro 19, 2012
Jardim secreto
Quando finalmente adormecer,
Será na tarde que chegará solta, indolente, de pés
descalços sobre a relva,
De lábios doces por experimentar,
Sem vestígios de nós os dois e todo o mundo, sedutor,
Num abraço de juramento, de corpos estendidos e mãos
tateando o espaço perfumado de fruta fresca.
É domingo, és tu o jardim secreto desenhado a sonhos,
Que não chegam mas torturam o lusco-fusco dos meus
olhos,
Semi-cerrados, inquietos, ansiosos.
És mais música, menos poema, voz de toda a insolência.
Uma consolação aguardada, evidente e íntima,
Um desejo indomável que não deixa vestígio visível nem
sopro morno sobre a pele.
Acorda-me.
Estes não são dias como os outros e quando ceder ao
pôr-do-sol,
Tudo desaparecerá sobre o silêncio de uma floresta
temendo o fogo.
Mas tu não. Tu ficas.
Tu ficas e guardas o sol
para quando eu não quiser mais chuva.
quarta-feira, agosto 15, 2012
O mundo assim
O mundo assim, agora,
Tarde doirada de azeite,
Café e açúcar no fundo da chávena, dormem,
Os teus olhos rindo, fugindo dos meus,
Tejo com cheiro a chuva, salpicos,
Árvores sobre a relva e música, sol nos pés,
...
Tarde doirada de azeite,
Café e açúcar no fundo da chávena, dormem,
Os teus olhos rindo, fugindo dos meus,
Tejo com cheiro a chuva, salpicos,
Árvores sobre a relva e música, sol nos pés,
...
Cortinas e os carros na janela, voam
Astros escondidos na luz,
Lisboa acontecendo.
Astros escondidos na luz,
Lisboa acontecendo.
sábado, julho 21, 2012
sussurrar, do latim susurro -are, causar sussurro, rumorejar, dizer baixinho, segredar.
Depois de "Vísceras", "Venenos" e "O Amor é uma maldição", o coletivo tânia ribas troeira, daniel costa-lourenço, carlangas e os DJ Casalmaravilha regressam ao Etilico para mais uma sessão de poesia e música. As noites quentes de Lisboa são a envolvente perfeita para uma noite de segredos e confidências, musica e palavras ébrias. ... "Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva Não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva Do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego... Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece Que não é chuva, mas um sussurrar Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece... Não paira vento, não há céu que eu sinta. Chove longínqua e indistintamente, Como uma coisa certa que nos minta, Como um grande desejo que nos mente. Chove. Nada em mim sente... " Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" |
sexta-feira, maio 04, 2012
Não consigo escrever
Não consigo escrever. As palavras são pequenos sopros rasgados e indecifráveis. O amor, o ódio, o medo, a esperança, a dor, todas as fraquezas empurrei-as para bem fundo, longe, onde não as posso ver. Para onde julgo que podem não existir. Por momentos somos mudos. A escuridão é calma e reconfortante.
Tenho tanto dentro de mim e tão pouco sei o que é. Rebento e alucino, confundo-me, luto, resisto, prosto-me perante as evidências e os sonhos e o ritmo implacável do tempo. A consciência da minha finitude deixa-me apenas a gestão corrente dos minutos que se sucedem à espera de qualquer coisa que não acontece. Não sei se luto contra impossibilidades ou limitações, inatas ou impostas, conscientes e implacáveis.
Sei que não consigo escrever. As palavras falam, alto, ganham vida e a cor do veneno que me ensopa, afoga, cega. A emoção toma o lugar da razão e é a razão que o diz. Não consigo escrever, não consigo amar, não consigo ver e no entanto quero tudo isso e quero escrevê-lo, exorcizá-lo, sentir.
É à noite que o medo se dissipa. É na noite que me comprometo e comprometo o dia de amanhã. Tão depressa e tão fácil, tão rápido.
Não consigo escrever porque o mundo às vezes é mais veloz, mais cruel, mais necessário, mais sincero. E eu não sei ser mais eu do que sempre sou, trair o que me permito sentir.
Por vezes, tantas vezes, não se abandona o que se possui, mesmo que tudo ou nada se saiba do que não nos pertence.
Não consigo escrever. As palavras são pequenos sopros rasgados e indecifráveis. O amor, o ódio, o medo, a esperança, a dor, todas as fraquezas empurrei-as para bem fundo, longe, onde não as posso ver. Para onde julgo que podem não existir. Por momentos somos mudos. A escuridão é calma e reconfortante.
Tenho tanto dentro de mim e tão pouco sei o que é. Rebento e alucino, confundo-me, luto, resisto, prosto-me perante as evidências e os sonhos e o ritmo implacável do tempo. A consciência da minha finitude deixa-me apenas a gestão corrente dos minutos que se sucedem à espera de qualquer coisa que não acontece. Não sei se luto contra impossibilidades ou limitações, inatas ou impostas, conscientes e implacáveis.
Sei que não consigo escrever. As palavras falam, alto, ganham vida e a cor do veneno que me ensopa, afoga, cega. A emoção toma o lugar da razão e é a razão que o diz. Não consigo escrever, não consigo amar, não consigo ver e no entanto quero tudo isso e quero escrevê-lo, exorcizá-lo, sentir.
É à noite que o medo se dissipa. É na noite que me comprometo e comprometo o dia de amanhã. Tão depressa e tão fácil, tão rápido.
Não consigo escrever porque o mundo às vezes é mais veloz, mais cruel, mais necessário, mais sincero. E eu não sei ser mais eu do que sempre sou, trair o que me permito sentir.
Por vezes, tantas vezes, não se abandona o que se possui, mesmo que tudo ou nada se saiba do que não nos pertence.
quinta-feira, abril 26, 2012
Depois de "Vísceras" e "Venenos", a poesia e a música voltam ao Etilico bairro alto e às suas spoken word sessions.
Consideradas uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o poetry slam / spoken word sessions têm alcançado enorme suces...so nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres
Por lisboa, "O amor é uma maldição" é o mote dado por Daniel Costa-Lourenço e por Tânia Ribas Troeira com cenários musicais improvisados do casalmaravilha/wondercouple e a guitarra de Cartangas que criam ambientes para uma administração de concentrado de palavras e segredos de diversos autores, como Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Al Berto ou Fernando Pessoa. Os efeitos são imediatos na forma como olhamos o mundo com as palavras dos poetas e a sonoridade das suas palavras.
Com a duração aproximada de 1 hora, a spoken word session terá ainda o microfone aberto ao público, onde podem ser lidos os poemas que escolherem, sejam da sua autoria ou de outros autores. Quem pretender participar poderá inscrever-se através do lisbonpoetry@gmail.com ou no dia do evento.
Maldição é a ação efetiva de um poder sobrenatural, caracterizada pela adversidade que traz, sendo geralmente usada para expressar o azar ou algo mau e aparentemente sem solução ou soluçao sobrenatural, na vida de uma pessoa. Pode ser associado a um "Feitiço", "Encantamento" ou "Fatalidade" ou a algo que possa ter a capacidade de matar ou provocar a morte.
Se isto é uma maldição então o que pode ser o Amor?
Consideradas uma das mais recentes e cosmopolitas tendências da noite das grandes capitais, o poetry slam / spoken word sessions têm alcançado enorme suces...so nos bares de Berlim, Nova Iorque, Paris ou Londres
Por lisboa, "O amor é uma maldição" é o mote dado por Daniel Costa-Lourenço e por Tânia Ribas Troeira com cenários musicais improvisados do casalmaravilha/wondercouple e a guitarra de Cartangas que criam ambientes para uma administração de concentrado de palavras e segredos de diversos autores, como Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Al Berto ou Fernando Pessoa. Os efeitos são imediatos na forma como olhamos o mundo com as palavras dos poetas e a sonoridade das suas palavras.
Com a duração aproximada de 1 hora, a spoken word session terá ainda o microfone aberto ao público, onde podem ser lidos os poemas que escolherem, sejam da sua autoria ou de outros autores. Quem pretender participar poderá inscrever-se através do lisbonpoetry@gmail.com ou no dia do evento.
Maldição é a ação efetiva de um poder sobrenatural, caracterizada pela adversidade que traz, sendo geralmente usada para expressar o azar ou algo mau e aparentemente sem solução ou soluçao sobrenatural, na vida de uma pessoa. Pode ser associado a um "Feitiço", "Encantamento" ou "Fatalidade" ou a algo que possa ter a capacidade de matar ou provocar a morte.
Se isto é uma maldição então o que pode ser o Amor?
quinta-feira, março 29, 2012

Para ouvir mais logo:
(i)mundo
Silêncio.
Perante ti, o gosto amargo do silêncio. Procuro redenção na transpiração dos nossos
vícios.
Oiço-te chegar, partir, abrir e fechar todas as portas e janelas para o nosso
passado. O futuro é agora e acabou de passar. E outra vez.
Escurecemos
as sombras que fogem, que cobiçam o nosso desprendimento, a nossa vagabundagem.
Os teus cigarros surgem nos cantos, criam altares toxícos que não renegas e veneras.
Veneno,
Aquele que temos um pelo outro, como um vício insuperável, instintivo, imanente.
Preciso tanto deste silêncio, líquido perfumado, pó de estrelas decadentes,
como de dormir.
Não o posso evitar. O tempo perdido devora-nos. O prazer da minha carne não é só meu.
Observas,
O tempo, tu, a mim, enchendo o teu copo de rancor, de virtudes condenadas, excomungadas, repetidas vezes sem conta. Sem penas. Sem castigos.
Esperas-me
ao fundo das minhas dúvidas. Por isso não te vejo e não as esclareço.
Por isso a dor desaparece ante a ignorância do futuro. Que é agora e acabou de passar. E outra vez.
Cansaço.
Esgueira-se sem rodeios, arrasta todas as letras das palavras imundas que enfeitam a nossa rua,
que inundam a tua boca, que surgem nos poros transpirados que se revelam, em espasmos, vómitos.
O mundo apaga-se quando eu fecho os olhos.
Cansaço.
Esgueira-se sem rodeios, arrasta todas as letras das palavras imundas que enfeitam a nossa rua,
que inundam a tua boca, que surgem nos poros transpirados que se revelam, em espasmos, vómitos.
O mundo apaga-se quando eu fecho os olhos.
quinta-feira, março 08, 2012

Alucinação
Sou um alucinado que perde no cheiro apodrecido nas palavras solenes.
Não resisto às declarações de amor cavalgadas em salas vazias sem atenção,
Uma e outras, de indisciplinada inspiração,
Minuciosamente escavadas nos silêncios e intervalos dos poemas,
Dos dedos da tua mão,
Vincados nos recantos ardentes do meu corpo.
Eu era vivo e morro todas as vezes nos impulsos discretos das circunstâncias acidentais.
O quotidiano supera as dúvidas das tuas promessas,
O castigo da escolha do antro onde te amar melhor que a última vez,
Como se soubéssemos distinguir, sequer, o que sabemos, o que queremos, o que desprezamos.
O tempo passa e envenena a feroz ilusão de que temos alicerces cravados algures.
Envelhecemos no espaço estéril da ventania.
O tempo passa e é coisa que não se perdoa,
Porque já passou e não pode ser outra vez.
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