sexta-feira, outubro 21, 2005



Cidade escura

A minha bagagem vai sempre cheia
De gaivotas expulsas pelo vento
Presenças que se empurram borda fora,
À beira da cidade escondida na tempestade
Regurgitando tirania, de me prender onde não quero
Apagando todos os cigarros que acendo
Retirando-me com ousadia os prazeres que me restam.

Tudo o que tenho é inútil,
Espalha-se no rasto do lixo das ruas mais estreitas,
Soturno coração que insiste em não morrer,
Eterniza-se nos escritos que deixas
Quando amanhece,
Quando a mar cresce sobre as silhuetas adormecidas da noite,
Também as nossas, brisas
Que se cruzam aleatoriamente no mesmo local,
Insistem em despertar juntas, no mesmo impulso.

Tu és, a minha...
Ousadia dos meus vícios,
A luz que guardo no peito,
A luz que me entra no peito,
A fuga apressada das horas,
A minha babel de afectos...

Tu és, a minha cidade escura
Que me expulsa e me prende, com o mesmo encanto,
A luxúria de desejar nada mais do que isso,
Do que te ter,
Mesmo em todas as coisas que não tenho nem vejo,
Escondidas,
Como néon reanimando-se na noite.