sexta-feira, fevereiro 25, 2005


Esquinas

Pelas esquinas de lioz passam os mundos em contemplação,
Nas noites longas de alívio pelo fim do inverno,
Desenhando pegadas nas paredes pintadas ainda ontem,
Como que escamando as capas da cidade,
Tão ínsitas como a alegria que trazemos dentro,
Que se dilui na monotonia do suceder das estações,
Cada vez menos previsível e aliciante,
Como se já não fosse excitante roubar um beijo,
Em surdina, nas escadas do teu prédio sem luz.

Nas margens da nossa esquina
Onde confluem e se separam o negro das tuas palavras
Tão amargas quanto doces são os olhos como ainda te vejo,
Não há brisa de verão nem chuva de inverno,
Nem voltam as noites em que ríamos “porque sim”,
Sem gostarmos ainda mais de sermos químicos como nunca,
Como se o riso tivesse de ser omnipresente na nossa alegria,
Como se não notássemos que o riso sempre presente nos sufocava,
Que nos tornámos dormentes ao nascer do sol,
Que nos tornámos ausentes das manhãs junto ao rio,
Que nos amamos sem termos noção um do outro,
Que, sabendo isso, já não sabíamos rir de outra forma.

E tudo porque te apaixonaste pela madrugada,
Esquecendo que eu voltara para trás,
Numa manhã em que não esperei pela manhã,
E não dobrei a esquina contigo.