quinta-feira, outubro 09, 2003

Carta a um amor inevitável - por Pedro rapoula

Sento-me na praça do Giraldo no momento exacto em que passa um cortejo de casamento. Os apitos dos automóveis manifestam alarvemente uma felicidade que é de todos e não pertence a ninguém. E é assim que me vem à mente uma infelicidade que é tão minha e me pertence tanto.
Onde estás? Ainda existes? Morreste mesmo, como me disseram? Passaste a noite nos braços de outro? Massacro-me com esta imagem até chegar à exaustão dos sentidos. Quero esquecer mas não consigo. Conheço bem os movimentos do teu corpo, como conheço o teu cheiro e o teu toque. Sei como começas e onde acabas. Mais do que a tua presença, sinto a tua existência. E penso que, afinal, tudo o que eras e a forma como renascias em mim não pertence apenas ao meu universo... É difícil viver com esta ideia quando tudo o que queria era que fosses minha do princípio ao fim...
Lembro, então, as gargalhadas que dava nos momentos da explosão final, quando, enebriados de suor, de prazer e de cansaço, nos deixávamos cair suavemente nos braços um do outro. Eu ria, ria, ria muito e ria alto e tu limitavas-te a sorrir do meu disparate e da minha pureza. E de todas as vezes o ritual se repetia e o esboçar do teu sorriso tornou-se num misto de conforto e de calor. Acreditava nesses momentos que me amavas, que a tua, a nossa entrega era única e não tinha precedentes.
Havia noites em que se apoderava de mim um enorme pânico de te perder. Procurava-te pela cama e só a tua despreocupada respiração me serenava. Nesses momentos eu não dormia, deixava-me ficar ali, ao teu lado, observando-te adormecida, tão vulnerável, tão minha... E nesses momentos mais uma vez, acreditava que te tinha, que me pertencias, que eu era teu e que o universo nos estava destinado. Pensava, então, enquanto dormias com essa tua serena forma de meditar, que tudo era grande e belo, e imaginava para nós todo um mundo de futuro e de partilha.
Um dia ganhei a coragem necessária: - queres namorar comigo? A realidade cortante não demorou um segundo. Não! - respondeste. Baixei os olhos, talvez por vergonha, talvez com medo, ou provavelmente por razão nenhuma. Penso, agora, que os baixei para não ler no teu olhar que já não me pertencias. De resto, em vários momentos o teu comportamento era nada senão um sucessivo encadear de nãos e rejeições. E depois sorrias, com um sorriso terno, infantil e genuíno. E era então, nesses breves segundos que durava o teu sorriso, que eu esquecia a rejeição e me enchia da tua presença. Abria muito os olhos como uma criança à espera de uma surpresa e , do mesmo modo ansioso e febril, esperava por um beijo teu que iniciasse o nosso processo de entrega e de partilha. Os momentos em que isso não acontecia eram mais do que os momentos em que te deixavas amar. E normalmente depois do sorriso, limitavas-te a virar a cara e olhar em volta, enquanto na minha cabeça o teu - não! - crescia até me deixar vazio de sonhos, de partilha ou de amor. Era então que decidia partir, virar-te as costas e esquecer... mas eis que o teu sorriso se abria de novo e eu achava ali a forma do teu amor, a forma de tu me amares.
Quando me enchia de coragem (ou quando a mágoa era mais forte), exilava-me longe de Lisboa procurando deixar-te para trás e, no entanto, dava-me conta que tu estavas em toda a parte. Mesmo quando me deixaste em Barcelona. Primeiro achava que te encontraria apenas onde as recordações de nós estivessem presentes. Descobri depois que era eu o portador da tua presença, que te transportava comigo para todos os lugares, como a uma doença crónica. E assim me dei conta da inevitabilidade do nosso amor.
Sempre me convenci de que não existiam amores eternos... e sempre me enganei na procura dessa eternidade. Conhecer-te confirmou o erro em que vivia. O teu olhar fazia-me acreditar na distância do eterno e na proximidade do amor. Quando a nossa entrega era real, o tempo tornava-se nosso aliado e os momentos de eternidade pareciam estar em nós. E aí, viver de ti e para ti parecia-me a única saída. A forma como nos amávamos era intemporal e o modo como sorrias não fazia mais que confirmar essa intemporalidade.
Olho em volta e não te encontro e neste momento de uma lucidez cortante apercebo-me de que te perdi. Faço um esforço para acreditar que não partiste, que te pertenço, que me pertences e para nós não existe tempo nem espaço. Nós somos o tempo e o espaço, a noite e o dia, o longe e o perto. Não no sentido antagónico das verdades mas na verdade complementar dos sentidos: viver em nós, morrer em mim. Olho em volta, mais uma vez, e a tua ausência subitamente não faz sentido porque te amo, porque me amas e porque é em ti que me preencho. Sinto o teu cheiro em mim e vejo o teu corpo no meu. Porque é aí que existes, na procura que fazemos um do outro. Em qualquer outra noite sei que estendo o braço e no teu lado frio da cama descubro o corpo quente e familiar que me completa e me acalma.
Chamo por ti e o teu nome enche o espaço como se o ar não existisse no deserto da tua presença. E sei que respondes com o sim que nunca disseste e com a aceitação de um amor que nunca recebeste.
Não sei, sinceramente, o que me confunde mais, a ideia de te ter perdido ou a solidão que sinto. Porque, no fundo, amar-te foi sempre sentir-me só. Mesmo quando estávamos juntos, nunca éramos apenas nós porque insistias sempre em estar entre o resto do mundo. Como se a solidão do nosso amor te assustasse... Percebi, então, que era aí que existia a forma de te dares, na maneira social como vivias o nosso amor. E ali estava eu, do teu lado, rodeado de gente, e a ideia da solidão sobrepunha-se ao facto de estarmos juntos. Como quando estávamos só os dois, no carro, de mão dada, e evitavas o beijo porque alguém o poderia testemunhar. Da forma obcecada com que sempre te vivi acreditava que tinhas razão. E fazia o teu jogo, ainda mais subtilmente paranóico e obsessivo. O beijo era nosso, ninguém deveria vê-lo sob pena de o perdermos. Dou-me, agora, conta que o resto do mundo foi sempre o alibi para a forma como me não amavas... Se não insistisse no nosso amor, terias simplesmente passado os teus olhos por mim, como acabaste por fazer tantas e tantas vezes sem notar o desespero com que sempre procurei o teu olhar. Sinto-me só... mas não terei sempre estado só? Em que momentos partilhaste comigo a plenitude do que procurava em ti?
Escrevo-te, agora, porque, no fim de tudo, sei que escrever-te é a única forma de te manter em mim, de não te esquecer, de não deixar sair a tua presença. Porque de todo o sofrimento que ficou quando partiste, esquecer-te foi sempre o que não quis. Não concebia viver sem a tua presença. Viver em nós, morrer em mim, lembras-te? E não é, como me dizem, na tua ausência que te esqueço porque é exactamente na ausência de ti que mais te encontro. E de repente tudo se torna mais fácil porque te entregas e te deixas amar.
Lembro-me quando, numa noite, nos zangámos por teres ciúmes. Nesse momento fui a pessoa mais feliz do mundo porque me reconheci no teu ciúme, porque senti em ti o desejo de me possuíres. Eu era teu, o nosso amor era real e tu amavas-me de facto. Ironicamente, no momento em que tudo começava para mim, tu davas tudo por terminado. Nessa altura, e sem dar conta, perdi todas as defesas que me protegiam do sofrimento e entreguei-te tudo o que de mais precioso havia em mim. Porque nessa entrega apaixonada havia o compromisso de uma vida que abarcava o universo, o tempo e o espaço. É por isso que sei que não partiste e que estás ao meu lado. Porque um amor inevitável como o nosso não nem tempo, nem espaço, nem vida, nem morte. Existe de uma forma suprema como se todo o mundo fosse pequeno demais para o testemunhar. Mas tudo isto foi antes, muito antes. Porque houve um tempo em que a tua ausência se transformava numa espécie de dor física e, no desespero da minha solidão, não te ter ocupava todo o meu tempo e espaço. Nesses momentos procurava aflitivamente fazer-te viver em mim a ponto de, no limiar entre a dor e a loucura, acreditar que nunca tinhas existido para além das paredes da minha imaginação. Acreditava seres apenas uma criação da minha solidão... Porque era tudo demasiado frágil e eu sentia-me terrivelmente só. Entregava-me então a um processo de autocomiseração e, ao mesmo tempo, encarregava-me da tua divinização. Aí, agredia-me moral e fisicamente por nunca ter sabido amar-te. Porque, mais uma vez, no enaltecimento que fazia de ti, a fraqueza era sempre minha e era em mim que reconhecia a incapacidade de te amar.
Depois acordei deste transe. Prometi a mim mesmo que nunca mais me deixava iludir por esses mistérios que se chamam amor... Recuso-me a amar alguém, como me recuso a ser amado. Nunca precisei disso e sempre me desviei desse caminho.
Não me sinto muito bem... Já não me sentia assim há algum tempo. De vez em quando, por breves instantes consigo esquecer-me do dia em que morreste. Mas de repente, quando me encontro nessa doce abstracção, vêm-me à cabeça as imagens de todo aquele dia e venho a mim cheio de arrepios e estremecimentos. As coisas poderiam ter sido diferentes... Não deixa de ser irónico que tivesses sido justamente tu a pessoa a sobrepor-se ao meu egoísmo que sempre cultivei. Agora já nem esse egoísmo, essa forma de vida que fazia tão minha, já nem isso me resta. A única coisa que ocupa os meus dias, que ocupa a minha mente é a tua ausência. Como, pergunto eu, como é que a ausência pode preencher alguma coisa...? Não faz muito sentido, pois não? Estarei a ficar louco? Já li histórias assim, de pessoas que enlouquecem quando perdem alguém.
Às vezes surge em mim uma vontade imensa de escrever, não porque tenha ímpetos de escritor ou pretensões de poeta. É simplesmente porque uma folha branca inspira, sinto que desabafo... ou talvez não seja um desabafo, talvez queira apenas tirar da minha cabeça todas as palavras que se vão acumulando para sair e que acabam sempre por ficar cá dentro. A certa altura, letras, palavras e ideias atropelam-se e não há quem se oriente no meio desta confusão, nem mesmo eu... Hoje acordei com uma necessidade de deixar sair tudo, e só me dei conta porque, ao trabalhar, comecei a escrever coisas que não faziam sentido a não ser na confusão da minha mente...
Das poucas relações que tive, e repara que a ti não te vou incluir neste rol, até porque, sabes bem, tu nunca foste, de facto, apenas uma mera relação, todas ou quase todas, terminaram porque me comecei a sentir sufocado. De tanto fugir das pessoas e da solidão a que elas me poderiam eventualmente votar, acabei por me tornar uma pessoa fria para fora. Muitas foram as vezes em que sofri sozinho o facto de condenar outros à solidão. Não é uma coisa que encare com facilidade. Mas se alguém há-de sofrer, de uma forma ou outra esse alguém não hei-de ser eu! Sempre pensei desta forma e desta forma não havia relações que funcionassem. Até com a minha própria família sempre joguei com eles de uma forma ofensiva, de maneira a que, em caso de confronto, nunca fosse eu a ficar magoado. Porque no meio disto tudo é difícil ser coerente e por vezes quando mais nos apetece abraçar ou beijar, acabamos por rejeitar. No fim ficamos sozinhos e não temos com quem falar. No egoísmo da minha solidão não concebo não ter ninguém quando estiver por fim realmente só... já me chamaram egoísta tantas vezes... a certa altura já não sei se o sou, se sempre o fui ou se me fui convencendo de que o era após ouvir tantas vezes dos outros que essa era a minha maior característica. Será possível ser o egoísmo uma forma de defesa pessoal perante a solidão que sempre senti? Porque no fundo, se houve constante na minha vida, foi sempre a sensação de solidão. Mesmo naqueles momentos em que me julgava mais apaixonado e, por consequência, mais acompanhado, mesmo nesses momentos a solidão não me deixava. Lembro-me de ser criança e já aí me sentir só: eu e os meus brinquedos, e mesmo quando tinha a sorte ou a infelicidade de brincar com alguém, mesmo aí eu me isolava e tentava construir o meu mundo, como se coabitasse em mim uma espécie de autista. Ou talvez fosse esta a melhor forma de prevenir os momentos após a partida das minhas companhias. No fundo era como se nunca aproveitasse a presença do outro porque a sabia finita. Foi sempre assim...
Terminei há mais de quatro meses o meu ultimo relacionamento. Não a amava. Chamava-se Nana. Mas isso não interessa. De resto não posso dizer que alguma vez tenha amado quem quer que seja depois de te conhecer e de te perder, é evidente. Acho o amor puro um sentimento impossível de existir. Em última análise é a expressão máxima do egoísmo. Uma pessoa só ama para se sentir amada. E só se sente feliz se sente amada. Ora se a felicidade individual depende da relação que se tem ou não com outro ser, essa busca pela outra pessoa é uma busca egoísta. Só se ama o outro porque de outra forma não nos sentimos bem... Eu sempre me senti bem sozinho. Tive um ou outro caso, antes de te conhecer, que me abalaram mais, não porque amasse, mas porque o grau de entrega foi maior. Mas a lição que aprendi nesses casos ensinou-me que quanto maior a entrega, maior o sofrimento. Desta forma tornei-me calculista e no principio de cada relação já conseguia vislumbrar o fim... Desta forma é difícil as coisas resultarem. Lembro-me de uma relação em que a outra pessoa ainda era pior que eu.. Deu-me luta. Era egoísta e oportunista. Perdi e, achava eu, nunca tinha sofrido tanto na vida. Lembro-me que o fim foi num verão e que ia muito para a praia. Pelo caminho, ouvia as músicas mais deprimentes que encontrava em cada CD que tinha e chorava o caminho todo. Sentia-me tão bem, no fim... Porque acreditava que aquele sofrimento era o que mais próximo eu tinha sentido do amor. E então entregava-me a esse processo de choro compulsivo, de sofrimento carregado, como se aquela relação de 2 meses fosse o casamento de 20 anos. Passadas uma ou duas semanas, lágrimas esgotadas, já nem me lembrava de como tudo aquilo tinha começado e voltava ao meu saudável isolamento...
Tento perceber em mim onde começou este meu processo irreversível pelos caminhos da solidão. Percebo enfim que, no meio de tanta gente que sempre me rodeou, não havia tanto tempo para cada uma das pessoas e que na minha infância tenha procurado sempre formas de me amar a mim mesmo. Como se à minha volta não existisse esse amor. Há pessoas assim, que precisam mais ou menos da atenção e do amor dos outros. Eu passei de um extremo ao outro. Não me custa. Não sofro minimamente com isso. Sei que o processo natural do Homem é ir ficando sozinho, seja por opção, seja porque à nossa volta as pessoas vão, naturalmente, desaparecendo. Pelo sim pelo não, porque não antecipar essa solidão? Solitários houve sempre na história do mundo. Para mim, todos os poetas são solitários, sem querer com isto dizer que todos os solitários são poetas. Existem poetas da solidão e existem solitários da destruição.
Estes tais solitários da destruição são aqueles seres cruéis por natureza que a pouco e pouco vão afastando os outros da sua esfera.. Não é o meu caso. Nunca fui desagradável para os outros. Nunca os tentei afastar. Normalmente sou eu quem me afasto. Ou então, quando estou mais preenchido de uma lucidez que me fere, tento fazer com que nem cheguem a aproximar-se. Tudo para não lhes adivinhar o afastamento inevitável.
Tenho saudades tuas. Vês como consigo escrever as coisas mais cruéis do mundo? Sempre me achaste um fraco. E de facto ao pé de ti eu era vulnerável. Quebraste as barreiras do meu isolamento e com isso destruíste-me as defesas. Na altura, disseste, era o preço a pagar pelo teu amor. Nunca fomos felizes e ainda assim, a tua morte acabou por se tornar na forma de me pertenceres para sempre. Porque me apropriei da tua memória e agora sinto que só a mim me pertences. É irónico, não é? Enquanto viveste nunca conseguimos realmente pertencer um ao outro. E agora já não há nada que te arranque de mim porque a tua existência tornou-se intemporal. Há noites em que sei perfeitamente que estás ao meu lado, porque sinto o teu calor, porque ouço o teu respirar e até te consigo tocar. Imagino-me a percorrer o teu corpo com as minhas mãos, com um toque suave que te causa arrepio. E tu a deixares-te amar de um modo confortável e descomprometido, como nunca fizeste.
Não consigo perceber porquê, mas tenho-me lembrado imenso de alguns momentos mais ou menos bons que passei ao teu lado. Lembrei-me daquela vez em que me telefonaste a dizer que querias passar comigo um dia em cheio. Contavas comigo para te surpreender. Fiquei numa excitação infantil. Fui para casa e como estava uma noite de verão quentíssima achei que poderíamos comer na varanda, que era o mais próximo do grande terraço com que sempre sonhaste... Fiz tudo o que era suposto. Cozinhei as coisas mais sofisticadas que sabia, com direito a entrada e sobremesa. Pus a mesa lá fora, com velas e um ambiente o mais quente e tropical possível, que nos remetesse a um cenário exótico, lembrando talvez as férias sempre prometidas, mas nunca cumpridas... Quando acabei todos estes preparativos enfiei-me na casa de banho e tomei um daqueles duches que nos deixam preparado para nos amarmos. Vesti uma camisa branca, a tua favorita, e acendi as velas todas da casa. Pus Bossa Nova na aparelhagem e esperei por ti. Esperei... esperei... e nunca apareceste. Quando te liguei respondeste que não te tinha dado jeito aparecer. Como se tudo o que me tinha motivado não significasse nada para ti... E de facto não significava. Não te sei dizer bem o que senti. Vou contar-te uma história. A minha mãe sempre trabalhou muito, fora de casa. Chegava sempre muito tarde e eu já estava deitado. Naqueles momentos após eu me deitar, ficava muito direito e quieto na cama, esperando que a porta de casa abrisse. Era terrível aquela angústia, a de não querer adormecer sem ouvir o barulho da chave que significava que provavelmente a mãe iria ao quarto dar-me um beijo de boa noite. Acabava sempre por adormecer, e no meio da revolta da manhã seguinte, ficava em mim uma sensação de vazio que me deixava inseguro e muito só. Pior que isso era estar acordado e perceber que os passos dela se encaminhavam para todos os lados menos para o meu quarto. Aí sim, sofria a sério. Sentia algo a quebrar-se por dentro e penso, agora, que foi assim que fui perdendo a noção de ser criança. Conto-te tudo isto porque nessa noite, todas essas imagens e sensações da minha infância voltaram a percorrer o meu cérebro. Acho que por instantes voltei a ser a criança solitária que fui. Desta vez não chorei, desta vez limitei-me a apanhar os pedacinhos de mim. E prometi a mim mesmo que iria ser forte de novo. Dias depois começou o teu processo penoso em direcção ao fim. E eu esqueci-me da minha promessa e mesmo contra tua vontade, acompanhei-te e estive ao teu lado, assistindo a algo que sempre me proibiste de ver: o teu sofrimento.
Não tenho saído, sabes? Quando saio para trabalhar, tento vir directamente para casa para me sentir contigo, aqui, entre estas quatro paredes. Ultimamente ainda ia com uns tipos lá do escritório até um bar, onde acabava sempre por petiscar algo que me servia de jantar. Detesto comer sozinho... Mas deixei de ir quando, outro dia, estava pacientemente a beber o meu gin e uma mulher se aproximou de mim, tentando à força olhar-me nos olhos. Odeio que tentem olhar-me bem fundo, nos olhos. Disse-me que se percebia perfeitamente que eu estava muito só. Divorciado? – sugeriu. A minha resposta calou toda a gente à nossa volta, naquele bar, não tanto pelo seu teor, mas pelo bofetão que ela fez questão de me dar. Limitei-me a responder-lhe que, com efeito, cultivava a minha solidão. Além do mais – disse – não pago bebidas a pêgas! Desapareça!
Depois desse dia não voltei a ir àquele bar, ou a qualquer outro, não tanto porque tenha medo que se lembrem do meu vexame, mas mais porque não posso admitir que mulher alguma se coloque entre mim e a tua memória. E, de qualquer forma, nunca mais ninguém me convidou para ir a bar nenhum depois do emprego. Acho que há vícios que a solidão traz consigo e um deles é mesmo o de nos tornarmos amargos. Como os outros não perdoam isso, acabamos por deixar de receber convites para o que quer que seja. E além do mais eu percebo que ninguém queira uma companhia sempre de cara fechada, sempre a falar do mesmo... Irrita-me que já não queiram ouvir falar de ti. Pedem-me que te enterre de uma vez por toda, antes que dê em doido. Não percebem que estás sempre comigo. Já não aturo ninguém. Não faço fretes.
Outro dia pus-me a pensar que me poderia reformar. Ainda me faltam uns anos para a reforma completa, mas vendo a casa aqui de Lisboa e compro uma casa no campo, onde possa ter o cão que este apartamento nunca me permitiria ter. É o regresso às origens. Mas e se depois não encontras o caminho para junto de mim? Penso nisso imensas vezes, que saio desta casa e depois deixo de te ver, de te encontrar a vaguear por aí com as tuas insónias habituais. E não sei já, se sou capaz de viver sem ti por aí. Por isso é que não convido ninguém para cá vir. Tenho medo que te sintas pouco à vontade. Sei que sempre gostaste de andar nua por aí. Não quero limitar-te. Quero-te solta e irreverente como sempre foste. E quero esquecer que por vezes eras amarga e me tornavas a vida num inferno. Porque no fundo o inferno era apenas a minha incapacidade de deixar de ser egoísta. Ainda te amo. Ou por outra, amo-te mais ainda, porque és aquilo que eu quero que sejas. Ficaram para trás as discussões, as insónias e os berros. Só me lembro de ti a correr no jardim do Campo Grande com aquela saia de flores que sempre detestei, mas que te dava um ar de hippie que, por irritar a minha mãe, fazia de ti a pessoa ideal para estar ao meu lado.
Prometi a mim mesmo que vou regressar à vida. Para isso inventei um ritual. Agarrei na caixa que tenho com as infinitas fotografias que te tirei e decidi que todos os dias tiro uma. Passo horas a fixá-la até a conhecer de cor e no fim rasgo-a em mil pedaços. Conto com isto acabar com todas a fotografias e poder enfim passar a um plano menos corpóreo da tua memória. Porque se conseguir fixar todos os teus traços e expressões, não vai haver perigo de que te esqueça. É disso que tenho medo. De me esquecer da tua cara. Há histórias de pessoas que a pouco e pouco vão esquecendo as feições dos que mais amaram. Connosco não há esse perigo porque te vejo todos os dias. Mas já pensaste o que seria, se te esquecesse? Fizeste-me prometer, no meio da lamechice que nunca quiseste, que nunca te iria chorar, quando morresses. Mas chorei chorei porque no dia em que morreste entraste na minha vida como nunca tinhas estado antes.
Ontem encontrei aquela tua amiga, com quem jantavas todas as quartas feiras. Casou, tem um filho pequeno, e perguntou-me no meio de saudades e lágrimas, se já tinha refeito a minha vida. Mas refazer como, se nunca se desfez? É terrível a forma como as pessoas desconhecem a nossa relação, mesmo que lhes diga que estou bem olham para mim sempre com um toque de piedade. Faz-me lembrar aqueles filmes que sempre te recusaste a ver comigo, em que um casal em tudo perfeito (exactamente o oposto de nós dois), se desfazia pela morte de um dos dois. O sobrevivente acabava sempre por encontrar outra pessoa. Como encaravas tu o encontrares-me com outra pessoa aqui em casa, profanando aquele espaço que sempre foi tão nosso? Tens o teu território marcado, é o que penso sempre para comigo. Não posso ultrapassar o peso da tua presença, mas reconheço que por vezes me falta o ar quando penso na eternidade desse teu estado imaterial. Sei que me rodeias mas por vezes a força para te agarrar não chega e foges de mim, correndo pela casa, brincando comigo. Tenho medo disso. Porque foges tu? És feliz?
Sabes, tenho tido, ultimamente, muitos flashes de momentos passados. Subitamente sou envolvido por uma espécie de melancolia quase cinematográfica que me faz viver um flashback e dou por mim sentado num autocarro, a caminho da universidade em Barcelona, ou vejo-me a comprar bilhetes para um cinema, em Paris. É estranho porque são momentos inofensivos e até quase agradáveis, mas depois, de repente, quando venho a mim, sinto-me mergulhar num desespero sem limites, como se estas viagens servissem apenas para me atormentarem, como que para me lembrarem que já estou parado no mesmo lugar há tempo demais. O pior de tudo é que acredito que a loucura é feita destas pequenas nuances e que começo a aproximar-me demasiado desse limiar, dessa ténue linha entre a sanidade e a completa perdição. Não sei se partir será a solução. E se tu não me seguires?
De resto tenho andado mais bem disposto. Às vezes sinto que começo a ficar maníaco- depressivo mas agora já estou melhor. Sabes como é, nem sempre o sorriso que ostento representa o que vai cá dentro (isto até poderia ser um pequeno apontamento de poesia). Cada vez me convenço mais que sou completamente desequilibrado mental, mas acho que isso até tem alguma graça. Enquanto não entrar num caminho sem retorno. Lembras-te do filme "Chocolat" com a Juliette Binoche? Pois é, lá passavam a imagem de uma mulher com fortes tendências para partir, sempre partir. Eu acho que sou um bocadinho assim. Sinto em mim um desejo incontrolável de conquista que se materializa numa sensação de falta de liberdade. Como se estivesse agrilhoado a um mundo que não escolhi, que fui impelido a aceitar. Não há nada melhor que chegar a um sítio onde não conseguimos nem pronunciar os nomes das ruas. É bom vaguear assim, à deriva por caminhos totalmente desconhecidos, ter que perguntar o caminho de volta para casa, às vezes até com gestos para que nos entendam.
Tenho escrito alguma coisa. Para dizer a verdade ando a tentar escrever um romance. Quanta pretensão, não achas? O problema é que me perco nos meandros da escrita e acabo por não saber onde acaba o romance e começa o purgante das minhas frustrações. Porque o que tenho escrito aproxima-se perigosamente de experiências que vivi e que não sei se estou preparado para as deixar sair assim. Mas faz-me bem. Ainda que nunca publique nada, tenho-me confrontado a mim mesmo com pequenas infelicidades que vêm desde a infância e que ao descrevê-las consigo finalmente começar a arrumá-las sem que me perturbem como fizeram durante anos e anos em que me parecia melhor tentar esquecer. É como se deixassem de ser minhas e passassem para a personagem do livro. Por isso agora assumi comigo mesmo o compromisso de não recalcar nada. Confronto-me com tudo. Claro que se torna francamente perigoso trilhar um caminho destes. Ficamos mais duros connosco mesmos e com os outros. E nem sempre as pessoas estão preparadas para encarar a frontalidade. Mas subitamente a mim pouco me importa começar a isolar-me porque tenho em mim a convicção de que descubro cá dentro a companhia necessária para quando ficar sozinho. Porque a solidão é inevitável, meu amor, e ninguém me convence do contrário. É o caminho natural do Homem. E depois nunca estamos francamente sós. À semelhança de Pessoa, há em mim, e acredito que em muito mais gente, formas de vida que nos complementam, que se responsabilizam pela nossa diversão. Doce loucura, poderá chamar-se assim? Tenho que partir: "Navegar é preciso, viver não é preciso, ai não".
Descobri agora que adoro o Alentejo. Como é que é possível gostarmos de um sítio que nunca na vida nos disse nada? Será possível que esteja a ficar obsessivo? Ainda mais... Lembras-te da vontade que sempre tive em ir viver para um sítio que não me dissesse nada? Pois é, no fim de semana meti-me no carro e parti rumo a essa planície dourada. Queria encontrar um convento por lá, talvez de Franciscanos que são uma Ordem com alguma dignidade. Imagino-me acabar os meus dias rodeado de uma paz conventual, com horários para comer rezar e dormir e onde não tenha que falar com absolutamente ninguém. Aconteceu-me uma coisa engraçada. Encontrei o tal lugar que tinha idealizado, um mosteiro de clausura, onde a todos os votos inerentes à condição de monge, ainda acrescia o voto do silêncio. Pareceu-me ideal. A beleza do lugar era única. No cimo de um monte, com uma vista privilegiada, erguia-se uma construção de finais do século XVII, com as suas pedras centenárias e os seus azulejos perturbadoramente azuis e sagrados. Enquanto caminhava por ali tentando absorver a religiosidade do lugar, pude reparar que por trás das grades pouco cerradas uns olhos me espreitavam, seguindo atentamente todos os meus movimentos. Em menos de nada um monge saltou o muro e veio em direcção a mim, explicando atabalhoadamente e com a velocidade de quem não fala durante séculos seguidos que ele não podia estar ali mas que precisava desesperadamente de ver alguém, de ouvir uma voz que não entoasse apenas cânticos e rezas. Foi uma conversa rápida e angustiada. Ele falava com a convicção de que estaria a cometer o maior dos pecados. Raras vezes pude pronunciar uma palavra que fosse, dada a sua fúria de falar, de soltar sons profanos. Explicou-me um pouco da vida conventual e depois tal como apareceu, desapareceu, olhando por cima do ombro como quem foge de um destino inevitável. Deve ter-se penitenciado horas sem fim pela falta que cometeu, que afinal não foi assim tão grande porque em momento nenhum ele fez menção de querer saber alguma coisa do exterior. A nossa conversa foi apenas sobre a história daquele lugar e o seu papel no presente.
Depois de ver aquela angústia, cheguei à conclusão que talvez também não seja ali que encontro a paz de que preciso. Que inferno! Preciso desesperadamente de paz! Onde estás meu amor?
Hoje arrependo-me mil vezes de não termos ficado apenas amigos, como me propuseste na semana em que nos conhecemos, quando completamente embriagado de paixão por ti, te pedi que casasses comigo. Vamos ser só amigos, disseste, bons e grandes amigos. Mas, amigos? Como gostaria de ser teu amigo, mas não posso. Não posso porque quem ama pode jurar mil vezes por dia que só sente amizade, para que, na primeira oportunidade sinta ódio, desespero, solidão, ciúme e todos os sentimentos entrelaçados com o amor. Foi por isso que nunca desisti de ti e te amei com a força de quem se agarra à vida no momento final. Amei-te por mim e por ti, porque sei que o que te unia a mim, era um misto de piedade e carinho. Agora dou-me conta de tudo isto porque nunca quis ver que o teu amor não chegava para superar o quotidiano. De qualquer modo sempre mo disseste e pior que isso, sempre fizeste questão que eu o sentisse na pele. Ainda sabes o caminho de regresso para mim?
P.S Tive uma imagem interessante por estes dias, uma imagem que pode explicar um pouco aquilo que tenho sentido ultimamente... Consegues imaginar um rio, a descer pelo seu leito, por vezes mais rápido, por vezes mais lento, dependendo dos acidentes geográficos ou quem sabe dependendo da vontade de chegar à foz? Agora imagina que na nascente desse rio está uma árvore de onde se desprende uma folha. Essa folha vai descendo sempre com a corrente, percorrendo com o rio todos os lugares por onde este passa. Por vezes vai ao fundo, submerge, mas por norma acaba sempre por vir à tona. Mas eis que um dia essa folha fica presa numa margem, uma margem que é um lugar lindo de morrer, com flores e sol e luz e cor e alegria, e de repente o mundo daquela folha que não tinha fronteiras acaba por ficar resumido àquele pequeno paraíso. A folha que sempre se mantivera verde com a ajuda da frescura da água, ao ficar presa naquela margem começa a secar e desfaz-se em mil pedaços à medida que se vai enraizando naquele lugar. Pois bem, o rio é a corrente da vida e a folha sou eu. Começo a sentir pedaços de mim a desfazerem-se à medida que me vou enraizado cada vez mais neste lugar. Sinto que o meu caminho é chegar à foz, sempre em movimento e mergulhar enfim na plenitude dos oceanos. Por muito paradisíaca que seja a margem em que estou, não posso deixar de ver o rio sempre a passar e sentir o desejo de partir com ele. Consegues assim entender porque me atormento tanto? Ando um bocado assustado com estas ideias, sabes.. Tento controlar em mim os ímpetos que tenho de partir de mochila às costas por esse mundo fora. Mas e se depois não for capaz de regressar? Por vezes tenho rasgos de grande entusiasmo mas depois há dias em que sou invadido por um pânico de que tudo corra mal e fico sem ar, como que asfixiado pela minha insegurança.