segunda-feira, agosto 25, 2003

Linha vermelha

A linha vermelha onde nos cruzámos
Perdidos e achados, reflectidos em azulejo
Ao longo do corredor, perdendo a timidez
Esquecendo pudores, esquecendo o inevitável.
A dor, talvez devassa, traça invisível
A tinta do teu coração
Esventrado, amassado
Que dói
Como veneno que corrói e não mata.
E como mata
Estar perdido, vendido ao vazio
Entregue a mares por cima de nós
Olhando outra rua na nossa.
Não nos encontrámos
Num sítio que não marcámos
Por não sabermos qual
E a linha tem muitas estações
Onde não batem corações
Que não morrem, que não choram
Que não sabem.
Queríamos alguém como nós
Não como duplicados, não como cópias
Mas como nós, numa mesma consciência
De sabermos que éramos sempre nós.
E vi que já passava da hora
Que talvez houvesse demora
E em cinco minutos um coração não pára
Por loucura ou desespero, porque sim
Só por momentos, instantes
Nos mesmos em que julguei que te vi
Na ansiedade de saber
Se virias no próximo comboio.
Não quero que venhas
Não quero que me doa de novo
Como doeu antes, a espera de quem não vem
De quem se perdeu, com intenção
Com desmesura maldade de quem escolhe
Noutra linha que não esta
Bastando outra qualquer
Mais ténue e fria,
Mostrando-me o vazio da loucura
Mesmo ali, no mesmo sítio e instante
Na mesma linha
Onde nunca nos conhecemos.