sábado, julho 12, 2008

Mediterrâneo

Aqui sou eu,
Gigante,
O mundo, que descansa,
Braços descoberto sobre a mesa,
Até mim, entre nós, as palavras,
A verdade, navegando, o vinho.
Somos tempo e luz que não se encontra nem se apaga,
Que nasce e mergulha no horizonte,
Sem cessar,
Como tu e eu...

Oia (Santorini - Grécia)

O Mediterrâneo ao longe escurece
Mas
Eu
Sou o único azul.
O passado do Mediterrâneo é antigo, distante,
Mas
Eu
Sou o dono das estrelas.
O Mediterrâneo não pode criar-te novamente
Mas
Eu
Posso te amar mais uma vez.

Fazıl Hüsnü Dağlarca
In Poemas do Mediterrâneo

terça-feira, junho 24, 2008




Peito rasgado

É no silêncio mais quente deste poema,
Que ainda não se vislumbra a inquietude latente da aproximação,
A vibração incandescencente do aviso tombado na porta,
Na escada, no quarto, na cama, na boca,
Prostrado,
Sem brandura, com estranha intimidade,
Desfazendo-se em tremor,
Explodindo, ressoando,
Do interior, peito rasgado,
Explodindo, sem apelo, nem agravo
Na vibração de uma nota suave.

A forma como se expandem antes e depois de nos devorarmos
Assim como fogos que se extinguem e renascem
Atravessando o calor da noite
E todas as moradas dos acasos felizes
Que implodem quando menos se espera
E quando mais nos queremos.

quinta-feira, maio 22, 2008




Águas paradas

Suspiro…
Por vezes penso, demasiadas vezes,
Será esta a minha ardência, o meu compasso,
O lugar, das minhas outras palavras, as próximas,
As que não falam mas batem inquietas, tocam, afagam?
Será este o idioma dos meus pensamentos, aqueles, os indecifráveis
Que segredam a verdade inesperada da angústia,
Dos desejos soletrados só para mim?
São apenas todos medos,
São águas mortas onde não chove,
São mordaças de silêncio.

quinta-feira, maio 15, 2008


Outro calor

As razões suficientes do fingimento
Lambem-se sobre as folhas, as palavras iradas
Nos momentos em que perco a vergonha dos teus olhos,
No fumo da descoberta dos risos perdidos da porta laranja,
O Bairro na hora que peca e anoitece
Uma vez mais e se desfaz,
Ilusão,
No meu medo imortal de outro calor
Que não este,
O teu, diminuindo, fugaz.

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
José Saramago in “intimidade”

segunda-feira, abril 28, 2008


O escuro imenso

O mundo ameaçava derrubar o medo sobre água
Prolongar o escuro vazio sobre o mar.
E as pontes uniam-se ainda demasiado longe,
Abraçando as luzes solitárias e trémulas de um corpo vigilante ao acaso.

Era Abril descendo a Graça ao mar da palha,
Num venerando silêncio.

terça-feira, abril 08, 2008


Curta

Mesmo que esperasse a imensa travessia das duas pontes sobre o mar,
Todos os diabos seriam lapsos imperceptíveis e fugazes,
Curtas chamadas irresistíveis, indulgentes.
Seria só chuva, desabotoa, ruído baço que desbota.



É curta a distância entre a vontade e a razão.




“Ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa.
Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim”
De José Lobo Antunes
In “Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa”

sexta-feira, abril 04, 2008


Quase dormia

Abril aquece antes de tempo,
O telefone interrompe o meu cigarro na janela,
Falas que passavas por acaso,
Hesito entre a cama, uma cerveja no Bairro e os prazeres do corpo.

Vem.

Óculo indiscreto treme,
Oiço a porta, dois andares abaixo,
A porta entreaberta força o beijo, a língua,
A mão entre a tua roupa e o teu corpo,
O teu peito, as tuas nádegas, a língua outra vez,
A voz que nada diz e tudo quer,
E tudo faz, descreve clichés, diverte,
Transpira.

Sabe bem, ir ao acaso, com as mãos e as palavras.

sábado, março 22, 2008




01:24



Álcool derramado a três vozes sobre a mesa,
Olhos, desejo, sentido, mãos sobre o sexo
Dos anjos, lutando por um quinto do inferno,
E nada restando do céu prometido
Em cada respirar sôfrego,
Ansiado a todas as últimas noites.

Trágica, a poesia da decadência.

quinta-feira, março 13, 2008

Madrid (palabras sencillas)

Debajo del cielo de Madrid,
El amanecer llegó temprano
(Me envenenó con el miedo de la tormenta)
Y se olvidó de quién soy,
De las cosas que deseo con ganas y dolor.
(Mientras la noche no empieza y no termina)
Como cautivo y loco,
Sigo el sonido de las calles
Hasta llegar a ti,
Hasta llenarme de ti.

Me dejé al sueño, al pressentir el olor del verano.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008



Lisboa (longe)

É triste a poesia dos horizontes que definham,
Do céu e das ruas que se perdem no caminho,
Das casas e dos telhados esventrados, sem coração,
Das almas enredadas na cidade escura que se dilui e se estende
Para longe.

Há dias assim,
Em que se acorda em outro lugar,
Luminoso.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008


Sublime pranto

Nomes à solta,
No confronto das vagas
Esbracejando,
Corações pesados
Lançados no mar,
Embarcados nos enganos,
Num sublime pranto,
Como ferro esfriando, esmorece
Quebra de dor.

Não tarda que acabe
Este queixume moribundo,
Gritos esmagados
Que já só Deus pode atender,
Como frágil caravela condenada, ardendo,
Afundando na rebentação.

O céu reclama
Por nunca termos sido mais do que a exacta poesia
Da névoa tomando o cais,
Da chuva beijando as brasas que se afogam diante nós.



“(…)A chuva no chão revela
Os olhos por trás
Há que levar o restolho
Do que o tempo queimou(…)”
In “Laços” de Tiago Bettencourt

sexta-feira, fevereiro 01, 2008


Anónimo

A voz tem a máscara das horas
Anónimas,
A fala é feita de sílabas cúmplices,
O vício da mentira é um presságio de sedução
De paixão sagrada,
O lume do corpo é incerto e tormentoso
Murmurando ao coração em frágil vigília,
Atento à passagem dos astros e das aves,
Na vertigem do fogo e da cinza.



Outros nomes esquecidos

Não encontro no sossego da noite em diante
Na vertigem da escrita
O sentido oculto do meu nome,
Nem a saída nem o começo
Do labirinto desenhando na condensação da janela.

Dormes,
Corpo devassado sem cicatrizes
Sem identidade,
Diluído numa metáfora desinspirada
Imediatamente esquecida,
Latejando ensurdecedoramente.

Os outros, os nomes esquecidos
Da minha insónia,
São nómadas vagueando por esta casa,
Cúmplices das folhas brancas que se soltam
E se tingem de palavras arrancadas no meu peito.

quinta-feira, janeiro 31, 2008


Negro prado cintilante


Sigo o rasto rasurado dos sonhos,
Sem estrelas nem mapa,
Cruzando abismos de olhos fechados,
Embalado na respiração ordeira e transeunte
Dos mais simples intentos que invento e
Que desmembro à nascença.

É inaudível, transparente, fétida e dolorosa
A geografia rasgada da cidade,
Monstro sub-reptício devorando-se em sofreguidão,
Que fende, cede, abre, pulsa, rasga,
Corrói o horizonte fissurado
Pela luz difusa deste negro prado cintilante.

O nome da viagem é o caminho para a morada esquecida.



(…)este negro prado de cimento cintilante
de ramos e segredos oníricos
de silêncios dissonantes
de caos harmoniosos (…)”
in “Nave Mãe” de Pedro Peralta





Ferrugem

Por entre as grades e a neblina
Prendem-se as luzes ferrugentas do porto,
Acalma-se a vastidão dos gritos metálicos,
Numa longa descida às horas mortas da madrugada.

Passos nascem e morrem nas ruas largas dos aterros ribeirinhos,
Perdidos,
Afogados em chuva lacrimosa
Nas paixões que arrefecem,
Abandonas à ferrugem dos quartos vazios e
Estuque esboroado,
Despontando das fachadas tristes,
Precipitando-se das sacadas podres que assomam nas colinas.

Em todas as janelas, o horizonte é fundo e triste.
Entrego-me.








“Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer (…)”
In “O Sentimento de um Ocidental” de Cesário Verde

quinta-feira, janeiro 24, 2008


Conta (me)

Às doze passa o comboio e o barco
Dos cinco minutos depois, avisa a cidade, agora
Que se afasta da marginal, aos quinze minutos de cada hora,
A que demoro, todos os dias,
Para as avenidas altas, às treze,
Onde espero mais vinte, eternidades, por ti,
E gasto mais dez, cigarros, implacáveis
Com os meus trinta e um anos de vida,
Perfeitamente realizados
A cada uma das incontáveis ocasiões que te toco,
Amaldiçoados dedos, cinco, os meus e
As vezes ao dia que digo que vou fugir, outra mentira,
E voltar aos teus braços, quatro,
Envolvidos todas as manhãs, mil
Histórias contadas a cada sonho e noite que perco da conta, sempre,
Quando sabemos que isto não vai mudar,
Sempre que nos lembrarmos de nos questionar,
Se somos dois ou um.

Conta-me, quanto falta para não faltar mais nada,
Para sermos deuses e enquanto quisermos,
Para termos a eternidade até que caíamos mortos,
Como heróis,
Repletos de tédio ou de excesso de nós.

sábado, janeiro 12, 2008


Gozo caprichoso

És,
Caprichoso gozo atormentado,
Prazer obsceno encoberto,
Palavra que não existe,
Segredo cansado, decifrado,
Inferno,
Sangue ardendo profundamente,
Eco do riso que arranha o relento,
No paraíso,
Veneno de bem-querer,
Sombra que esconde, finge, vicia,
Crua verdade, maldade fugidia
Que tropeça,
Em mim.

sexta-feira, janeiro 11, 2008


Argonauta

Vens de feição, tempestade solta,
Amor cavado e de ondas altas
De correntes escuras fustigando os antípodas,
Afogando de desejo, pressa, medo e engano,
Perdida, perdendo, afundando-me, em mar sem sentido.

Não vás sem que eu saiba porque vens,
Perde-te, acha-me nas dúvidas revoltas,
Nas notas libertas de um obscuro fado,
Na chuva que não pára
E te obriga a ficar,
A olhar para dentro do que deito para fora,
Decifrando verbos claros e adjectivos proibidos.

As sombras que assomam na rua
Abrem-me o coração a cinzel,
Destemidas, sem medos, com força e inspiração,
Tágides caladas, em voz funda e firme,
Indicando-me as amarras trocadas
Nas nossas duas margens.

Sopras-me o mundo que se perde no embaraço,
Deitas-me fora, choras
Renegas as escolhas sonolentas dos tempos, do passado,
Sou eu, barco perdido, destemido Argonauta
Que não descansa.
Tu, Adamastor ferido,
Arriscando matar de tanto amar.

sábado, janeiro 05, 2008


Segredo

Uma voz esplêndida viajando,
Uma orquídea selvagem
De modos extravagantes,
Vagueando nos ouvidos do mundo,
Brotando de uma nua e virtuosa cidade
De ruas e musica cheias de tempo e pressa,
De calma e de dias a menos para outros dias,
Subindo e descendo nos elevadores rabugentos
Mas de cheios corações rendilhados,
De braços abertos respirando
Os risos nocturnos,
Olhando a encosta que se estende incólume e teimosa
Como a felicidade agora decifrada
Perante nós,
Confessores clandestinos sorrindo,
Saboreando os segredos que se revelam em surdina.

terça-feira, dezembro 18, 2007


Carrasco (prece)

Não consintas que eu seja
Carrasco que te sangra,
Que te minta para te ganhar e perder,
Que te aplauda ,
Que te aprecie no agora e no depois,
Que te lembre a ilusão e a glória,
A verdade,
Que te rogue preces, pregões, pragas e insensatez.


Faz-me sentir que a força é fraca e beijo conforta.

segunda-feira, dezembro 17, 2007


Estrelas (sem rasto)

Assombradas por mais um dia,
Cruzando dias de confissões incompletas
Desfalecem estrelas incautas nas altas fragas escarpadas da cidade
Perdidas do céu profundo da noite que se acomoda,
Sós, sem rasto.

quinta-feira, novembro 15, 2007


Desconsolo

Talvez nunca mais

O teu olhar fugitivo perderá passos no meu alcance,

Deixará destroços no meu porto

Onde nada existia e tudo acontecia,

Na sombra mascarada dos desejos ocultos,

Mergulhados nos baixios que ninguém conhece.


Talvez, outra vez,

Nos diluamos no desconsolo e na solidão

Como margens abandonadas sem brilho

Esperando consolo e absolvição.


O canto do muezim

No mais puro encantamento,

Nem o silêncio quebra o despertar do horizonte

Ressoando nos pensamentos adormecidos

Dos mundos que se abrem todos os dias

E se fecham, incógnitos,

Indiferentes e insuspeitos ao dançar das sombras.

É da paz, a virtude de se poder amar as coisas divinas,

E do crepúsculo, o renascer do impulso de mais querer,

Sentir as palavras suspiradas pelo acordar da cidade,

Quase imperceptíveis, quase irremediavelmente distantes.

Só os pássaros ousam rasgar os restos da madrugada,

Como se nada fosse senão o mais belo dia que se respirou,

Mesmo que de olhos e alma descansando,

Escondidos de si e da sinuosa tarefa de inventar palavras e línguas,

Que se justifiquem descrevendo o agora.

E por outra vez,

Antes do irromper do rumor das ruas,

Ouve-se no mais simples vocalizo,

O calmo renascer da consciência do mundo.

terça-feira, outubro 23, 2007


Disseste que não anoitecia sem nós

Disseste enquanto não te ouvia,
Perdido nas coisas que pressentia e esquecia,
Seguindo o rumo das folhas empurradas pelo vento,
Caindo da secretária, procurando caminhos pela casa.
A janela aberta dizia que o dia fugia, mas tu não,
A cidade só adormecia depois,
Depois de nós
Lançarmos suspiros por três meios e meio de pé direito até lá fora,
Soltando-se de um abraço que anoitece e dilui-se
Nas luzes que tremem sobre a água.

quinta-feira, setembro 20, 2007


Fina corda

Flutua no arrepio da porta entreaberta,
Um grito rouco e velado
Que se cala para não se ouvir,
Sustido nas bocas límpidas
Que se tocam devagar e com firmeza,
Dedilhando uma fina corda
Ténue, invisível, insinuante.

São pássaros da solidão,
Fumando deitados,
Com memórias dispersas afundando-se
Com os pés descalços sobre pele macia,
Alongando um fim de tarde pontuado por ciprestes.

quarta-feira, setembro 12, 2007


Corpos ávidos

O espanto da cidade desfaz-se,
Lá no alto,
Num imenso e leviano desperdiçar
da luz da tarde.

Nós, rindo
Do coração batendo, a cada passo
Do corpo tomado pelo perfume
Ávido do poente, imperceptível,
Quebrando como ondas na muralha,
Em silêncio, exaltante,
Gemendo baixinho,
Escondido do vento,
Adormecendo longe do mundo.


Punição

Tal como eu sabia,
A última árvore rendeu-se ontem,
Desfeita em ínfimos pedaços,
Vozes desaparecendo num enorme marulhar pela cidade fora,
Saltando e dançando ao acaso, sobre o asfalto,
Sobre o ombro, o pressentimento.

Tal como disseste,
Procurei, em vão, sombras naquela avenida,
Na nudez do passeio vazio e sujo,
Interminável, definhando ao sol,
Os olhos cedendo a um ardor afinal sombrio,
Entre pó e vozes apressadas,
E o chão árido escondendo o trânsito submerso no túnel.

A cidade condena,
Talvez sem suspeita,
Quando nos desperta e nos queima.





“Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa”
in “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”
de Sophia de Melo Breyner

quinta-feira, setembro 06, 2007


Noite desmedida

Sem perder de vista o mar,
Outra noite desmedida
Cresceu com ímpeto da tempestade,
Indiferente ao cansaço,
Ao cheiro dos versos escritos a álcool.

Passeavam vagarosamente pelas ruas, cansados,
Indiferentes ao negrume das árvores velhas,
Os pés alisando o asfalto em tumulto, arrefecido,
Tremendo, os corpos com falta de outros corpos,
Sem sítio perto ou distante,
Sem tempo e com pressa de adormecer.

Outra noite e a cidade crescia para longe.



“(…) ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente (…)”
"To Helena", Nau dos Corvos, Transporte no Tempo,
in Obra Poética vol2
de Ruy Belo

quarta-feira, setembro 05, 2007



Estrada (à procura do fim)

O Outono nos teus lábios esmorece,
Deixa um rasto de cada momento
Em todas as estradas que prometemos abandonar,
Fugidos da luz enegrecida do fim.

Encontrámo-nos neste lugar ínfimo,
Morrendo no mesmo instante
Profundo,
Em furtiva descida à escuridão dos medos,
Quando os olhos se fecham,
Sabendo que por pouco tempo.

Caímos entristecidos.


“(…) a tua morte tem avançado para dentro de mim como uma doença a querer progredir.(…)“
José Luís Peixoto in Nenhum Olhar.

Náufrago

Lá fora é outra cidade,
Indiferente, triste,
Deixando-se observar,
Gasta, a medo amanhecendo,
Afundando-se sem brilho na água escura do cais,
Esquecendo o compasso das marés partidas
Que só a minha janela fechada deixa ver.

Lá fora
É uma e outra vontade que desiste,
Como eu,
Principiando a desaparecer,
Adormecendo, vagueando
Como um nómada,
Na minha casa,
Sem destino e sem caminho,
Perdido.


“(…)eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis(…)”
Al Berto in “Roulottes da noite de Lisboa”

terça-feira, setembro 04, 2007

Torrente

A multidão desagua em todas as esquinas,
Devora o silêncio com sofreguidão,
Com ímpeto esmagador
De tempestade impiedosa,
Afasta-me da superfície
Uma e outra vez,
Sem surpresas ou descuidos,
Afinal.

A torrente passa longe,
Mas ouve-se aqui.

quinta-feira, agosto 23, 2007


Refúgio

Vive em ti outro ano mais quente que antes
Refúgio infinito do sul interminável
O encanto de sonhar para diante
A rendição ansiosa ao perfume que nos liga e nos quebra.

Permanece em ti o esconderijo
Do vento que há muito não desfralda bandeiras
Da folhagem solta no descanso
Do bramido das vozes que povoam o horizonte,
Rugindo intemporais.

Procuro em ti
A serena frescura das manhãs marítimas
Os sombrios recantos dos poemas sem sono
Onde não se dorme sem sonhar.

A terra e o céu calam-se e riem em ti.
Vejer de La Frontera - Espanha

“(...)Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua (...).
In “O jardim e a noite”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”

terça-feira, agosto 21, 2007


Escuridão do quarto

Escondes-te de forma a que te veja,
Na camuflagem das flores nocturnas,
Com as cambiantes da luz reflectindo no lado esquerdo da parede,
Assomando à janela, com o ruído das estrelas
E dos amantes perdendo-se,
Sem olhar ao tempo que pára e acaba naqueles momentos.

Continuo acordado,
Alheio à tua interferência na cadência do universo,
Reacendendo feridas,
Indiferente aos rasgos na pele às entranhas,
Que se abrem em ferro quente,
O sangue em fios, enforcando-me,
A asfixia, o prazer de poder acabar agora mesmo,
Contigo.

Ainda te procuro no sono que volta e desaparece.
Naufragando no mundo que nos pertence e nos atormenta,
Perdido, seguindo o último cigarro que se apaga,
Testemunhando o fim dos medos,
Das imagens que devoro e apago,
Na dormência que chamo para me anestesiar.

Talvez sejas tu,
O desejo que procuro na escuridão intacta do quarto.


“Quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos...”
In “A Morte de Rimbaud” de Al Berto.

sábado, agosto 18, 2007


Disseste em belo português


Disseste em belo português,
Curto e simples,
Palavras de carne e osso,
Tacteando até encontrar um olhar.

Viajámos para trás,
Resolvemos os mistérios
Das formas fílmicas do adeus,
Entorpecidas, arrebatadas
Presas à liberdade da imaginação.

Rompe-se uma fina camada de cal,
Inocente,
O tumulto do medo ao querer
Um pouco de ti em tudo o mais.

Disseste, nada mais do que isso.

terça-feira, julho 31, 2007


Ainda não me rendi

Todas as dúvidas acordam pontuais,
Às meias horas nocturnas,
Deslizando em gotas perfeitas de suor,
Decorando a ponta dos dedos,
Ao som da música incessante dos sonhos.

Ainda não me rendi,
Não parei de lutar, nem de falar
De punhos cerrados e sorriso aberto,
Decifrando olhos semi cerrados,
Corações disfarçados de gente.

Mais um movimento certeiro
E mais um fio de sangue,
Traçando na cara as linhas das minhas certezas,
Marcando os passos incertos dos meus ideais,
Moldando a feições das palavras.

Ainda assim, não me rendi.

segunda-feira, julho 30, 2007


O dia mais quente do ano

O dia mais quente do ano
Começava em sufocos de calendário
Há mais luas do que aquelas que nós víamos
Á medida que o amor arrefecia
Enquanto a amizade se pintava de matizes desconhecidas.

Naquele dia,
A esplanada estava vazia
E o passeio escaldava-nos as pernas,
Espreitando a sombra das escadas,
Descobertas,
Em preto mediterrânico e gelado de morango
Cruzadas a 45 graus,
Aquecendo os risos impacientes.

A brisa perdera-se nas esquinas da calçada,
E não eram ainda nem onze horas,
Nem tempo de fugirmos ao estio,
Apenas aos braços um do outro,
Reanimando o que nós insiste em não morrer.

Dizia-se ser o dia mais quente do ano,
Mas naquele mármore fresco do pátio,
Borbulhava o sangue e os lábios.
Atenas - Grécia

sexta-feira, julho 20, 2007


Castigo

O mundo trespassado pelo tempo,
O ódio e o amor flutuando no movimento dos passos,
Dizendo, devagar, o que acontece muito depressa,
Nos ínfimos segundos de atenção
Esquecidos,
Seguindo o norte,
Procurando os cantos à esfera das palavras,
Misturadas na terra que se levanta
E se inunda na falta de chuva e cor,
Esperando o castigo de nada se esperar,
De tudo acontecer.




“(...)Ninguém disse nada. Fomos dormir. Essa noite foi como as noites de muitos meses que se seguiram. Havia um peso fundo dentro de nós a puxar-nos para o nosso interior mais negro(...)”
In “Cemitério de Pianos” de José Luis Peixoto.

segunda-feira, julho 16, 2007


Uns segundos na marginal


A longínqua lucidez das sombras
No clamor da noite, cresce
Adiada, sumida, perdida
Pela transparência das luzes ténues
Tremendo até à infíma dispersão
Como astros viajantes
Crisálidas suspirando entre metamorfoses
Descobrindo a espessura das cores e dos sonhos
Percorrendo pomares de perfume tropical
Num caminhar de bossa nova.

Agosto é já amanhã,
Na marginal.

sexta-feira, julho 13, 2007


Travessia

A travessia perde-se nas correntes e vagas,
Nos equívocos dos ventos e sopros em sal marinho
Cruzam-se os nós, os laços,
Os beijos firmemente seguros
Desprendidos, soltos, submersos
Voando sobre o imenso azul,
Precipitando-se nas profudenzas das palavras,
Purificando imperfeições,
Escrevendo o futuro nas auroras que despontam,
Que derramam a luz sobre a pele,
Emudecem o mundo...

quinta-feira, julho 05, 2007


Tudo se torna mais claro

Cai enfim,
Tudo o que disseste, balouçando sobre o vazio
Corda esgaçada, silenciosamente parte
Nos instantes velozes
Em que uma boca fugitiva
Fere, engana, desmascara,
Olhos feridos, abertos
Volteando, em euforia,
A verdade afogando-se em álcool
Perfidamente ministrado
Na ausência e no engano.

Tudo se torna mais claro
Quando nada é desmedido,
Quando a bruma e as trevas
Brilham mais que todas as manhãs.
Amsterdão - Holanda



Nem ópio nem morfina.
O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante...
Manhã tão forte que me anoiteceu.
Mário de Sá-Carneiro in “Alcool”

terça-feira, julho 03, 2007


Náuseas


Na subtil poeira de outros enganos
Vejo-me nos destroços deixados
Dos bandos de quimeras perdidas ao longe.

Dou-me no horizonte que arde,
Escavadas as cinzas e o desencanto,
Resvalamos nos precipícios iluminados
Em ânsias ancoradas em ruínas e vertigens.


Amantes inconscientes
E distantes,
Como dois desconhecidos.

sábado, junho 23, 2007



profundo
na calma brisa
a palavra que guia
segue no silêncio do coração
aparece imaginada
cresce aventurada
é o profundo azul
o fundo do sonho
o mundo que se forma nas palavras
na voz do chamamento
sonoro silêncio
do amor profundo
*
Marraquexe - Marrocos
Nota 1:
Le Messager d'Allah a dit : " Lorsque vous entendez l'Appel du Muezzin, dites à sa suite comme il dit " [ Hadith authentique ]
in

Recomendo esta página para quem sentir e ouvir parte do que é alma do sul: o chamamento dos muezzins, à oração, no alto das mesquitas, no mundo árabe.


*


Nota 2:
Olha a estrela de Alba
Chama da manhã
Ó manhã, o teu abraço
Oxalá
Me não apague
A paixão da minha alma
Ó paixão
Nem a manhã
Apaga a luz que tem a chama do teu belo olhar
Já é hora da chamada
Alto cantei.

Pregão, de Francisco Ribeiro
In Espírito da Paz (Madredeus)


A edição do mês de Junho de 2007 da CAIS debruça-se sobre o estado da poesia em Portugal e reflecte sobre os desafios deste género literário num novo século.

Sob o lema "Poesia - filha de um Deus menor" são entrevistados Gonçalo M. Tavares e Daniel Costa-Lourenço, sendo apresentados poemas dos entrevistados e de Fernando Pinto do Amaral.

A não perder.

http://www.cais.pt/

terça-feira, junho 12, 2007


Poeta ínfimo

A memória queima-se e renasce
Em vagarosas linhas tímidas,
Escapando nos fugidios alicerces do momento,
Escondidas em frases ínfimas insuspeitas,
Estremecendo,
Abrindo as cicatrizes contorcidas no chão...

E a cabeça que se encosta a medo,
Ferida de prazer e insónia,
Amarga,

Desvanece o tempo, finge sobreviver
Aos suspiros e à mágoa de outra noite em branco,
Debruçada em risos polidos,
Sem réstia de pensamento.


“(...)e no terror da insónia,

onde o obsessivo corpo substituiu a suave cocaína (...)”

Al berto in “A noite progride puxada à sirga”: Três poemas esquecidos”

sábado, junho 09, 2007


Eu

Não tenhas medo,
Podes voltar
Num mar eterno para chegar a qualquer lado,
Estou só e oiço-me
De coração aberto,
Que só guardo em mim
O que de mim desconheço,
Nem sempre em cantos escondidos,
E o mundo termina mesmo no vazio.


Sou eu em liberdade
Pouca coisa evidente,
Aceita-se sem depois,
Querer tem a marca do silêncio,
E a dois ou a todos,
Somos o que o outro é,
Sem mais nada de complicado.

Não tenhas medo,
Olha-me como eu me vejo,
Como nós somos em liberdade.

quinta-feira, maio 31, 2007


Ás vezes

Espero que o azul cubra de fogos o céu,
Em outro dia de ninguém,
De anunciada redenção,
A ti.

Navegam os desejos que espalho na superfície,
Ás vezes subindo contra a corrente,
Ás vezes o mar nascendo no horizonte.

São minhas as palavras que anunciam o Verão,
Quando me lembro
Quantas vezes desci todas as colinas
Ensopadas em febre e água.

É somente a euforia,
O medo de gritar sem ouvir
Os pálidos toques em pele.

Ás vezes amo-te,
Ás vezes tudo se cala.

terça-feira, maio 29, 2007


Tempo adiado

Os salpicos no terraço confundem outra manhã insuspeita
Que o tempo não é este,
E faz tempo que não adormeço lá fora,
No cálido embalo do burburinho das multidões errantes,
Lá em baixo, nas reuniões secretas das copas das árvores,
Somente estudando o desenrolar do tempo,
Apoiados nas pernas cruzadas sobre o fresco da calçada.

A cadeira permanece recolhida
Sobre o jornal de há tempos, ensopando,
Diliuindo tinta e memórias de outros dias.

Sobra-me tempo para seguir o caminho das gotas,
As luzes seguindo ordenadas, piscando na ponte,
Para outra vez olhar a esplanada triste, na praça vazia.

É o tempo adiado, o verão que tarda,
A porta que demoro abrir, sem pressas
No silêncio cheio de palavras indecifráveis,
Adivinhando a insconstância do tempo que foge.

terça-feira, maio 22, 2007


Primavera


A limpidez do dia passava
Medida no tempo das coisas,
Das pessoas misturadas
Nas cores frias dos telhados,
Confudidas nos desenhos das sombras.

Não conheço ninguém nesta luz tão húmida,
Na música que flutua entre as torres,
Entre cada esquina que hiberna mais um ano.

Penso no que farei amanhã,
Fugir nas furiosas paixões das avenidas largas,
Dos mundos que se repetem em cada pessoa,
Guardadas em todas as grades que rodeiam os jardins.

Cheira a verde, a água e a árvores tombadas
A primavera no Norte.

quinta-feira, maio 10, 2007


Parece infinito

Parecem infinitos,
Os passos que se apagam na areia fina de Jürmala,
Misturando-se no vento de Maio,
No uivo dos pinheiros vigilantes.

Parece profundo,
O azul dos bancos pontuando a praia,
A espuma revolta perdida no mar frio e escuro,
A brisa forte embalando os pássaros.

Na madeira gasta das paredes,
Parece simples
Escrever um dia perfeito.

(Jürmala - Letónia)

sábado, maio 05, 2007


Riga

Agitadas pelo vento gelado do Báltico,
As águas correm escuras
Nas margens desertas de domingo.
As cúpulas desafiam a planura das nuvens,
Assinalam os desencontros da cidade adormecida.
Rimos e fugimos das esquinas geladas de Riga,
Sem adivinhar qualquer Primavera próxima.
Amigos rindo num café
Inventam os caminhos do mar próximo,
Sem pressa de voltar.
(Riga - Letónia)