sábado, junho 23, 2007



profundo
na calma brisa
a palavra que guia
segue no silêncio do coração
aparece imaginada
cresce aventurada
é o profundo azul
o fundo do sonho
o mundo que se forma nas palavras
na voz do chamamento
sonoro silêncio
do amor profundo
*
Marraquexe - Marrocos
Nota 1:
Le Messager d'Allah a dit : " Lorsque vous entendez l'Appel du Muezzin, dites à sa suite comme il dit " [ Hadith authentique ]
in

Recomendo esta página para quem sentir e ouvir parte do que é alma do sul: o chamamento dos muezzins, à oração, no alto das mesquitas, no mundo árabe.


*


Nota 2:
Olha a estrela de Alba
Chama da manhã
Ó manhã, o teu abraço
Oxalá
Me não apague
A paixão da minha alma
Ó paixão
Nem a manhã
Apaga a luz que tem a chama do teu belo olhar
Já é hora da chamada
Alto cantei.

Pregão, de Francisco Ribeiro
In Espírito da Paz (Madredeus)


A edição do mês de Junho de 2007 da CAIS debruça-se sobre o estado da poesia em Portugal e reflecte sobre os desafios deste género literário num novo século.

Sob o lema "Poesia - filha de um Deus menor" são entrevistados Gonçalo M. Tavares e Daniel Costa-Lourenço, sendo apresentados poemas dos entrevistados e de Fernando Pinto do Amaral.

A não perder.

http://www.cais.pt/

terça-feira, junho 12, 2007


Poeta ínfimo

A memória queima-se e renasce
Em vagarosas linhas tímidas,
Escapando nos fugidios alicerces do momento,
Escondidas em frases ínfimas insuspeitas,
Estremecendo,
Abrindo as cicatrizes contorcidas no chão...

E a cabeça que se encosta a medo,
Ferida de prazer e insónia,
Amarga,

Desvanece o tempo, finge sobreviver
Aos suspiros e à mágoa de outra noite em branco,
Debruçada em risos polidos,
Sem réstia de pensamento.


“(...)e no terror da insónia,

onde o obsessivo corpo substituiu a suave cocaína (...)”

Al berto in “A noite progride puxada à sirga”: Três poemas esquecidos”

sábado, junho 09, 2007


Eu

Não tenhas medo,
Podes voltar
Num mar eterno para chegar a qualquer lado,
Estou só e oiço-me
De coração aberto,
Que só guardo em mim
O que de mim desconheço,
Nem sempre em cantos escondidos,
E o mundo termina mesmo no vazio.


Sou eu em liberdade
Pouca coisa evidente,
Aceita-se sem depois,
Querer tem a marca do silêncio,
E a dois ou a todos,
Somos o que o outro é,
Sem mais nada de complicado.

Não tenhas medo,
Olha-me como eu me vejo,
Como nós somos em liberdade.

quinta-feira, maio 31, 2007


Ás vezes

Espero que o azul cubra de fogos o céu,
Em outro dia de ninguém,
De anunciada redenção,
A ti.

Navegam os desejos que espalho na superfície,
Ás vezes subindo contra a corrente,
Ás vezes o mar nascendo no horizonte.

São minhas as palavras que anunciam o Verão,
Quando me lembro
Quantas vezes desci todas as colinas
Ensopadas em febre e água.

É somente a euforia,
O medo de gritar sem ouvir
Os pálidos toques em pele.

Ás vezes amo-te,
Ás vezes tudo se cala.

terça-feira, maio 29, 2007


Tempo adiado

Os salpicos no terraço confundem outra manhã insuspeita
Que o tempo não é este,
E faz tempo que não adormeço lá fora,
No cálido embalo do burburinho das multidões errantes,
Lá em baixo, nas reuniões secretas das copas das árvores,
Somente estudando o desenrolar do tempo,
Apoiados nas pernas cruzadas sobre o fresco da calçada.

A cadeira permanece recolhida
Sobre o jornal de há tempos, ensopando,
Diliuindo tinta e memórias de outros dias.

Sobra-me tempo para seguir o caminho das gotas,
As luzes seguindo ordenadas, piscando na ponte,
Para outra vez olhar a esplanada triste, na praça vazia.

É o tempo adiado, o verão que tarda,
A porta que demoro abrir, sem pressas
No silêncio cheio de palavras indecifráveis,
Adivinhando a insconstância do tempo que foge.

terça-feira, maio 22, 2007


Primavera


A limpidez do dia passava
Medida no tempo das coisas,
Das pessoas misturadas
Nas cores frias dos telhados,
Confudidas nos desenhos das sombras.

Não conheço ninguém nesta luz tão húmida,
Na música que flutua entre as torres,
Entre cada esquina que hiberna mais um ano.

Penso no que farei amanhã,
Fugir nas furiosas paixões das avenidas largas,
Dos mundos que se repetem em cada pessoa,
Guardadas em todas as grades que rodeiam os jardins.

Cheira a verde, a água e a árvores tombadas
A primavera no Norte.

quinta-feira, maio 10, 2007


Parece infinito

Parecem infinitos,
Os passos que se apagam na areia fina de Jürmala,
Misturando-se no vento de Maio,
No uivo dos pinheiros vigilantes.

Parece profundo,
O azul dos bancos pontuando a praia,
A espuma revolta perdida no mar frio e escuro,
A brisa forte embalando os pássaros.

Na madeira gasta das paredes,
Parece simples
Escrever um dia perfeito.

(Jürmala - Letónia)

sábado, maio 05, 2007


Riga

Agitadas pelo vento gelado do Báltico,
As águas correm escuras
Nas margens desertas de domingo.
As cúpulas desafiam a planura das nuvens,
Assinalam os desencontros da cidade adormecida.
Rimos e fugimos das esquinas geladas de Riga,
Sem adivinhar qualquer Primavera próxima.
Amigos rindo num café
Inventam os caminhos do mar próximo,
Sem pressa de voltar.
(Riga - Letónia)

segunda-feira, abril 23, 2007









Subitamente, no verão, apenas um zumbido. E o mel nos teus lábios.




sem título




No dia Mundial do Livro, associo-me à iniciativa do DN, contando uma história em apenas 10 palavras.










sexta-feira, abril 20, 2007


Resina


As velas soltam palavras em combustão,
Fricção de pés brancos no lençol mordido,
Lambendo, gotas de tédio e paixão,
O Outono, adornando e caindo nas mãos,
Os ramos dobrados, em choro, quebrando,
Resina, sumindo de seguida, seguindo
Os pássaros migrando, diluído nos enganos,
O rio e o mar, mistura fina,
Interminável templo de sal raro,
A chuva no horizonte, lama, terra,
Subindo no vento, a poeira,
Pousando no silêncio manso, dos soluços escondidos,
Prisioneiros,
Os zumbidos, borboletas,
Dois gritos, o deleite,
A resina nas curvas da boca.
*
"(...)Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado."
Vinicius de Moraes in Insensatez

quinta-feira, abril 05, 2007


O som da beleza

A que soam os acenos e nevoeiro,
A cidade, o risos da multidão,
Os pensamentos sós, os segredos,
Os prazeres proibidos na escuridão,
A tristeza, a voz inesperada
Dos desencontros.

A que soa o ouro,
Caindo sobre a pele,
A face preciosa do mundo,
O canto da memória, o coração,
A areia, o sal,
A que soam a línguas e as lágrimas,
Os fantasmas e o deslumbramento.
A que soam os ventos lusos
Ouvir falar de amor...?
Budapeste - Hungria

"O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.
Mário de Sá-Carneiro in "Amor"

terça-feira, abril 03, 2007


Beijos no cimento


São traçados a tédio, sincopados,
Os encontros e as ilusões,
Pequenos mundos devorados a cinzento
Que as breves horas apressadas nos deixam.

De ip’s e ic’s forma-se a anatomia do que já fizémos,
Os itinerários que se complementam, as certezas do fim
Afundam-se no cimêncio dos beijos,
A um ritmo pendular,
Frios e mudos,
Roubados às canções pálidas que ofereci,
Perdidas,
Nas peregrinações encenadas de todos os dias.

Tudo é um grande momento único,
Na contigência geométrica da calma suburbana,
No sono profundo dos arredores,
Entorpecendo lábios que se tocam
Escondidos.


cimêncio, s.m. (do lat. coementu por aglutinação com do lat. silentiu). Estado calcário de pessoa ou cidade que revela uma calma fortísssima. Mistura de cal, segredo e mistério, impenetrável ao tempo. União íntima; pausa fundamental. Suspensão de base ou fundamento. Sono profundo dos arredores. Construção imaginária; matéria-prima do espírito.
luís gouveia monteiro
após Diogo Lopes e Nuno Cera in"Cimêncio" (Ed. Fenda, Lisboa)

quarta-feira, março 28, 2007


O céu, afinal



Alcançarei o céu, ainda,

No voo silencioso do vento,

Que vagamente flutua

Entre o poente e o levante

Num beijo fundo e intenso.

O céu, afinal

Permanece incólume,

Indiferente aos tombos dos fugitivos,

Marinheiros solitários

Amantes das mil certezas,

Procurando cair noutros braços.





Ne cherche pas les limites de la mer.

Tu les détiens.

Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée.

René Char in “Poèmes des Deux Années”

quarta-feira, março 21, 2007







Sul






Sacode-se a terra no mar
Na fina poeira do nosso encantamento
Um súbito sopro cardeal
Entre a mansidão da cor inflamada.

É quente, a noite,
Enche-se a Lua nas sombras,
Mergulhado o sono
Em prantos dispersos de cigarras.






(...)imagina-nos
na aragem cuja face se distende
ao sol que lentamente se afunda.(...)

Ibn Sara in “o meu coração é árabe” de Adalberto Alves


(Marraquexe - Marrocos)


A cinza perdeu-se (voo sem ruído)


Cai-me a boca sobre o peito dorido,
A saliva apaga o ardor,
São de cinza os receios que se perdem sobre o mar.
Na vigia das árvores despidas da colina,
Adormecidas,
Sacudindo folhas e coração,
O sabor escancarado da cidade tomada sem luta,
Perpetua-se em delicado voo sem ruído,
Sem marca,
Com a impressão da musica que se perde nos gestos vagos,
Cruzando o mar da Palha.




“(...)vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas.


Carlos Nogueira Fino in “mesmo que o silêncio...”

terça-feira, março 20, 2007


Podia saber mais de tudo


Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.
Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a lágrimas como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.

É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, sangrar,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.



“Que importa o gesto não ser bem

o gesto grácil que terias?

Importa amar, sem ver a quem...

Ser mau ou bom, conforme os dias. (...)”

David Mourão-Ferreira in “Canção Amarga”

quinta-feira, março 15, 2007


Prazer


Palavra insensata
Que não se acha nunca,
Divide-se por nada e por mais se perde,
Lânguida promessa que esmorece,
Rio que seca e cresce imparável
Como se de meu sangue se tratasse.
Palavra falada que entontece
Cuspida como merece,
Insinua-se nos sulcos da língua,
Escondida na curvas da saliva,
Noutro corpo que é meu,
Recente, ausente, futuro.
Palavra indingente, silenciosa,
Caminha nas linhas de branca depravação,
Sem inspiração, arde
No sonho breve e mudo de só querer
Alguma coisa,
Apenas experimentar o meu prazer.

quarta-feira, março 14, 2007


Breve

Ouvir-te já, de olhos fechados num luto de poucos dias,
Lembrar-te da ânsia do horizonte que não chega nem se alcança,
Tocar-te devagar, na sombra da chuva miudinha que agora cai,
Seguir-te, quando a pressa de chegar já é vontade de ficar,
Descer-te à brevidade dos desejos incertos,
Gritar-te em desvario, queimando a garganta calada de promessas,
Estranho-te agora, perante o medo lascivo de querer mais,
Matar-te afinal, no tempo que foge e acorda em alucinação.

terça-feira, março 13, 2007


O que escreveste afinal?

Tu consegues, digo-te,
Escalar o céu,
Divagar nas profundezas do tédio, incólume,
Fintar a curva esguia dos vagos sons diluídos na sombra dos teus medos,
Baloiçar diante do abismo, hábito doentio,
Suspirar de fastio perante os sustos dos incautos.

Repara, dizes-me,
As manhãs desaparecem nas noites anteriores,
Os sentidos sangram e cegam,
E mesmo com volteios nas palavras que inventas,
Escudas-te opulência da decadência,
No luxo desmedido de não te preocupares.

Desejos errados, olha bem,
Corpos arfam em angústia,
Padecendo de nada sofrer,
Quanto a coisas que nunca fizeram,
Mas insistem,

A terra segue girando,
Nao faz mal, dizes,
A mim faz-me, digo eu,
Porque ninguém se lembra de nos ver passar, nunca,
Nem agora.

Fundimo-nos afinal, com outra manhã que matámos.
O que escrevemos afinal?
Na tua colina



Entrega-me a minha metade do teu nome escrito na cidade,
O corpo dividido em muitas margens,
Impossíveis de alcançar,
Irremediavelmente perdidas na dança eterna das ondas,
No perfume suave do poente,
Acendendo o burburinho da noite.


Demora-se quem passa nesta colina,
Enebria o odor as corpos escondidos
A túmulos e promessas de lábios gelados,
Dormindo sobre o mármore que esfria por baixo,
Na sombra do fim do dia,
No mundo sem vida que nada aquece
Em promessas de nada dizer.

Agitam-se as vozes subindo a encosta,
Tropeçando nos acasos,
Nos rios que alastram com a chuva
Como o negro da paixão
Como o vinho que já não enche nem preenche e se entorna,
Dolorosamente embriagando,
Esquecendo-me de procurar alguém
Entre aqueles que passam por aqui,
Esperando que me devolvam o meu lugar na cidade.

Entretanto, sem remédio, perco-me.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007


Espaços interditos (renego-me)


Há espaços interditos
Onde o deslumbre penetra como gume aguçado,
Nos feitiços desse ínfimo universo,
Sedento de fantasias mudas e perversas,
De medo irresístivel, de querer ainda mais.

É o vinho que embala a cintura,
Um travo rouco a poesia brava
Desenterra a raiz escondida do desejo,
Mostrando-se na última claridade do passado,
Desmascarando certezas.


És batalha vencida,
Ardendo devagar com os estandartes,
Entregando-me prisioneiro,
Saqueando-me o sentido deixado pelo tempo perdido,
Uivando sobre a nudez de corpos amargos.

Renego-me, enveneno-me,
Por tudo o que penso e não quero,
E o que quero sem pensar, em furiosa demência
Transpirando em contenção,
Fugindo dos pesadelos de noites repetidas,
De sexos furiosos ao desbarato.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007




Lua que enche o rio


Nas insondáveis partidas da solidão
Os reclusos desejos
Escorrendo nas mãos da chuva fria,
São meus.


Arrastam-se as memórias de cada rua,
Feridas descobertas por outra fuga,
Escondidas nos sítios perfeitos
Para morrer outra vez,
Para despir os rostos que não se vergam,
Para penetrar os corpos que se abandonam.
Ignoro se mudei,
Se calei os que ontem foram outros,
Os que ficaram para trás
Perdidos, sem passos no chão
Que se despeçam e se esqueçam
Da Primavera.

Outro prisioneiro arde na lua que enche o rio,
Perdem-se os monstros nas vagas de Janeiro,
Inundam a cidade de solidão,
Afoga-se uma tristeza tão simples numa dormência vagabunda.



Estranhas revisitações

São equívocos eróticos, dizem-me...
Não precisamos de tanto amor,
Tanto amor, sempre igual
Sem espaço, muito tempo,
Entre os neons e o cimento
Suspensos do mundo, moribundos,
Como anjos perdendo a inocência,
Em infinita elegância
Sempre do lado do mar,
Em enganos,
Partindo em busca de peixes voadores
Mesmo, viajando para o interior da terra


São fluídas melodias
As que desenhas nos mínimos movimentos,
Em palavras puras, que se querem.


Não preciso de ti,


Só de alguém como tu.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Promontório (abismo)


Dei dois mares num suspiro

Fugindo o tempo num abraço

Aquecendo o corpo noutro beijo,

Afastado o silêncio nos ruídos

De portas e vozes abertas

Á respiração dos nomes das coisas,

Ressoando, quebrando a vastidão das almas desconhecidas,

Em ímpetos de paixão ofegante.


Dei o mar às palavras que me afogam

Vagas,

Tesouros naufragados, inacessíveis como os medos,

Esclipes no breu da cegueira,

Água lisa infinita da inspiração,

Mergulhada nas estrelas.


Abre-se o abismo no promontório despido

Pelo vento e fúria clamorosa do que já não se ouve,

O que se perde em cada momento de primavera,

Em cada dia maior de verão.

Juntam-se os mares da terra em outras vozes,

Deslizam os barcos no sossego límpido do estreito.


Respiro, enfim, livre.


sexta-feira, fevereiro 02, 2007


Farto

Nada tem tido o mesmo sabor
Tudo o que acontece com nada se parece
E tuas palavras, são as minhas de enfado,
E outros desígnios, os outros que falam,
Tudo e nada se ouve, esqueço.

Não sou o que era, nem o que queres, o outros esperam,
Não me dizem,
Não digo nem respeito, admito,
Perdi-me, procurei na multidão que se limita a estar,
Sem interesse, sem interesses,
Rotineira vontade de não mudar,
Falsa e estúpida vontade de muita pouca coisa ser,
Não ser eu, em mim ser mais, mudar.

Se mais qualquer coisa terei, a dar, a mostrar,
Fugiu contigo, com todos, contido,
Os que amo e odeio, sempre, às vezes, poucas,
Desencanto, voltando, surgindo,
Fogo fátuo perdendo-se outra vez,
E outra folha que não se escreve.

Perde-se tempo farto num segundo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007


Sem resguardo

Nem tudo demora como este Janeiro
E na chuva tudo dura eternamente
Sem um resguardo para a falta que sinto.

Neva um ano depois,
E os olhos fecham-se,
Indiferentes aos vultos sobre o asfalto
E folhas rasgadas, molhadas,
As frases abandonadas,
Sem o conforto da minha cabeceira,
Em sossego,
Saborando o pó do tempo.

As memórias secretas dos beijos,
Desamparadas, empalidecem,
Desvanecem-se nas horas cinzentas,
Nos fantasmas que ainda me acompanham.

Já não me confesso, nem oiço, nem falo,
E as raízes já se aventuram em qualquer rua,
Em qualquer estação,
Como anjo caído, pecador.

E tudo demora, e a rua esfria,
Cala-se, sem passos que se oiçam na escada,
Esvaindo-se a vontade, nua,
De voltar.

quinta-feira, janeiro 18, 2007


Mesmo que de novo acordes


Oiço um toque que escorre, desejo,
Uma boca que socorre a vontade,
Tirando do escuro o quente silêncio em que se adivinha,
Uma sede premente, pulsando, nos movimentos que tomam forma,
No sobressalto de gemidos em fuga, furtivos,
Sem acordes, mesmo que de novo acordes, durmas,
Desarmada, a luz irrompendo em estilhaços, sumindo-se,
Nos repentinos movimentos que nos tomam,
Pulsando, encadeados, instintivos.

Oiço batidas, bate o coração do mundo em feroz inocência,
Nós em sobressalto, ouvimo-nos brilhar,
Esperando tréguas de olhares inadiáveis, inevitáveis,
Tombando, rendemo-nos ao que nos prende
E nos solta, em fúria.

Não precisas acordar, oiço o que não dizes.

segunda-feira, janeiro 15, 2007


Queimei o dia de ontem

Queimei o dia de ontem
Porque tudo se passa com atraso
E apenas guardo o que já nao há,
Nos sítios que perdi,
Tantos passos atrás.

Lancei fogo às tuas notas,
Riscos e livros rasgados pelo meio,
E ainda não eram duas da tarde,
Mas os dias não se fazem de esperas inúteis,
E nem tudo gira à nossa volta,
Acontecem sozinhas sempre que as empurramos,
Nos sopros de fumo, subindo até ao tecto dos nossos humores.

Ontem não sabia o que dizer,
Hoje não disse nada.

Ardemos no fundo de um caixote.

quarta-feira, janeiro 10, 2007


Espreitam

Espreitam-me o peito muralhado,
Que o esquecimento disfarça com acalmia,
Coberto o desejo em neblina espessa,
Onde nada germina, onde nada se ouve,
Só eu,
Num campo guerreiro aguardando as trombetas,
T tu, insistentemente lá fora,
Desfraldando as bandeiras há muito recolhidas,
Sem tempo nem pressas á vista,
Pisando as cinzas e pedras de campos onde fogo insiste em passar,
Mas que ora se apaga,
No espanto de um amor inevitável.

sábado, dezembro 30, 2006


Faz-me (tempo)

Falta-me escrever outra linha,
Abrir outro vinho, mais um minuto,
Sentir outras vozes, ouvir notas batidas,
Sem parar,
Falta-me ter ilusões vezes sem conta,
Na tua cama,
Brincar com as palavras, ao café,
Dizer tudo, mais, muito, sempre,
Cansar-me, esgotar-se, matar-me,
Vezes sem conta,
As que percorro o alfabeto,
Procurar aquela letra que me falta,
Aquele riso último, derradeiro.

Faz-me falta tempo para mais, para menos, para tudo.

Sem tudo saber

Tenho-te só para mim, sem saber quem és,
Incondicionalmente, mesmo que nada acordado,
Mesmo que só agora, assim que te conheci,
Como queres, como pedes, como eu quero, como gemes,
Como esqueces e insinuas um outro “nós”, que não este,
Queimando etapas, preliminares, pressupostos,
Gozando cada subversão, cada dogma, cada proibição,
Subindo, descendo, percorrendo letras, palavras, frases,
Entrando, percorrendo a tua invisível satisfação no escuro,
Agarrando, observando, segurando, possuindo, latejando
Como se o mundo estivesse nestas mãos,
O desejo libertando-se, brilhando, claro como a lucidez de todos os momentos,
Mesmo com a tua imensa vertigem ácida
Que te faz esquecer a desolação de amanhã,
Queimando-se nos estilhaços esquecidos que fizeram esta noite.

Uso-te, sabendo que me usas, mesmo sem saber quem és.

quinta-feira, dezembro 28, 2006


Perder

Adivinho-te o ínfimo termer dos dedos junto ao peito,
O medo que se insinua num sorriso sem luz,
A atenção presa nas poucas folhas que já restam
Do Outono, lá fora,
Os teus sentidos lambendo cada nesga de movimento,
Adormecendo-me a tristeza,
E quase tudo o que me lembre, agora.

É-me difícil sentir mais qualquer coisa,
Nada dizer,
A exaustão fecha-nos qualquer livro,
Arrefece e mata as intrigas e histórias de qualquer dia
Como pinturas fortivas sem movimento.


Perdi-me a meio do dia

No fundo da rua, no fim da cidade

No dia em que enlouqueceste

quarta-feira, dezembro 27, 2006


Fecha o dia (outro)


Abre-se a janela mais uma vez
E outra, boca que fecha o dia,
Quando mais uma noite magoa ainda mais,
Sempre que mais um copo te possuía,
Mais forte, com mais prazer
Que eu, desfeito
Insuportável, irremediável,
Batendo com estrondo, o coração
Que sabe estar perdido,
Lentamente, convencido
De outro corpo que não se toca, não se mexe,
Não se sente, a morte
Em aveludado perfume envolvendo,
De mansinho, leve, fácil, previsível
Canto de sereia, inquieto, escondido,
Alucinando.

Abro a porta pela última vez.

terça-feira, dezembro 26, 2006


Sangrando

O sangue já ferve, como se brotasse fulgurante
Correndo ordenado nos limites invisíveis da estrada,
Entre palavras que adivinham a respiração
Suspensa, nas sílabas ofegantes do lusco fusco,
Adivinhando o peito dorido, massacrado,
Rasgado de separação abrupta,
Contudo cirúrgica, calculada e cruel.

O sangue já escorre,
Em rubro medo, incendiando-se,
Secando vestígios húmidos de sal,
Na boca que se calou,
Em triste uivo, cuspido.


E a estrada alonga-se num fio,
Espalhando-te pelo sossego do meio dia,
Agora que nos sangrámos sem remédio.


E o céu enche-se de nuvens em debandada.

quinta-feira, dezembro 21, 2006


E se eu não quiser esperar.

E se eu quiser não esperar,
Nem mais cinco minutos, nem a hora acordada,
Nem atrasos, onde olhássemos na ansiedade que nos espera,
No manto escuro que agora se sente,
Onde deixássemos a imaginação para outra conversa,
Onde perdêssemos todo o tempo,
Para ouvir-te comandar o meu sonho, e eu o teu,
Rasgar o meu coração de dúvidas, de fugas e ódios,
Esquecer o protocolo,
Qualquer um que agora se aplique,
que agora se exija,
E nos beijássemos, sem limites,
Tal como nos apetece, tal como nos treme debaixo da pele,
Esquecendo a vergonha que não temos, perdida.

E se eu não quiser esperar,
Nem mais um suspiro de tédio, pela relógio parado, e correr,
Atravessar a cidade em hora de ponta, enorme, instransponível,
Só para chegar mais cedo, agora mesmo,
Para poder ver-te descer as escadas, tão devagar quanto possível,
Para poder não perder o mesmo brilho que trazes nos olhos, irreal,
Que já não vejo, e beijo,
Sem esperar.

quinta-feira, dezembro 07, 2006



Depois de "As Vozes em ti", foi apresentado no passado dia 13 de Dezembro, "Furor das Noites Cheias", de Daniel Costa-Lourenço, o seu segundo livro de poesia.

A obra conta com a colaboração fotográfica de Paulo César e com prefácio de António Garcia Pereira e Possidónio Cachapa.

"À segunda incursão pelo texto poético, Daniel Costa-Lourenço aprofunda as ideias lançadas em “As Vozes em ti”, percorrendo, com um sentimento mais maduro, as interrogações e as visões do mundo urbano, dos desencontros, das dores e euforias da sucessão dos dias, tendo sempre o mar e a cidade como pontos de partida para o que começa e acaba.
Sem nunca conceptualizar ou definir dos sentimentos que explora, assume a constante interrogação sobre o ser urbano, sobre a luta constante do indivíduo em manter-se único na sua apreensão do que o rodeia e do que o une aos demais, importem eles ou não.
Marcam as impressões eufóricas de amar, tristes, desiludidas e prementes, como se fossem as últimas, não porque acabem, mas porque nunca bastam a quem vive intensamente." EDIÇÕES ESCRITA CRIATIVA


Prefácio por Possidónio Cachapa

Este será um prefácio curto sobre um livro de poesia. O que é uma maneira redundante de dizer as coisas, porque a boa poesia tende a ser curta. Dá-se bem com a síntese, parte-se quando a tentam estender pela folha fora. É por isso que os poemas parecem estar sempre em fila. Fragmentaram-se em grãos de areia, porque não são as palavras mais do que isso: grãos de areia que alguns tentam unir, molhados com água do mar, ou com lágrimas que é a mesma coisa mas em ponto pequeno. Seguram a ideia com dedos finos, e retiram-nos cautelosamente esperando que a forma que antes só existia na cabeça, se sustente ali ao menos por um instante.
A poesia de Daniel Costa Lourenço fala destas coisas todas: do cheiro do mar que é o cheiro de um corpo, da necessidade de juntar palavras, de as dizer sem parar antes que a memória-onda as leve. “Uma investida sobre ti e as gaivotas voam rasando a água…” Fala à sua maneira, como consegue. Como todos nós. Parte a rocha dura para que a poesia se extraia. E às vezes extrai-se. E as outras, mesmo se cascalho ou suor, são fruto de esforço honesto que o tempo se encarregará de cobrir. Sempre foi assim com a poesia e há coisas que nunca mudam, como a mineração ou a pesca. Na essência, pelo menos.
Há uma ideia de água que percorre todo o livro. “Maré”, “rio”, “manhã” (cedo). Ou não estivéssemos rodeados dela em Portugal por todos os lados: pelo mar, pela chuva, pelo interior líquido que nos percorre. E há também a partida. Há sempre quem parta. Porque tudo se parte. Mesmo a gente quando se levanta cedo e deixa na cama outro corpo quente.
“A tempestade, única/Conduz ao promontório, /Veloz e impaciente (…) Todos os enganos são previsíveis…”.

Possidónio Cachapa, Lisboa, Outubro de 2006
Prefácio por António Garcia Pereira
Surpresa e Admiração, eis as palavras certas para definir a minha relação com este livro e com o prefácio que me concederam o privilégio de convidar a escrever.
Surpresa, e profunda, antes de mais por tal convite. Pública e notoriamente amante do mar e admirador desse eterno frémito de emoção que são os nascentes e poentes que ele sempre nos propicia, vibrando cada vez que revejo, uma vez mais, a célebre cena do cantar da Marselhesa no filme “Casablanca”, é sabido que não sou propriamente um cultor, muito menos um conhecedor qualificado, de Poesia.
Surpresa, depois, pela impressão, por vezes triste e mesmo desesperada, de outras vezes forte e intensa, quase vulcânica, que a leitura do livro nos vai causando e que, sinceramente, não esperava que fosse tão marcante. E, na verdade, pode eventualmente discordar-se ou desgostar-se de quase tudo nesta obra, dos temas, ou da semântica, ou da métrica, ou até do próprio estilo, Mas que ela nos toca em cordas sensíveis, nalguns casos muito vibrantes, isso creio ser inegável.
Por fim admiração, uma marcada admiração. É que numa sociedade em que todos os dias e em todas as horas se pretendem impor, como valores supremos, o dinheiro, o Poder, a capacidade de enganar ou esmagar o próximo, revela-se absolutamente admirável – para mais num país por vezes imposto como demasiado “pequenino” para nele poder haver lugar à arte, à cultura, à poesia, à sensibilidade, à emoção, ao sentimento e à paixão – que um jovem se decida atirar-se a esse seu sonho que foi, e é, o de fazer um livro de Poesia.
E é por tudo isto que, tendo logo acedido ao honroso convite para escrever estas simples e despretensiosas palavras, acho o autor da obra merecedor de bem mais do que o bastante pouco que tais palavras serão alguma vez capazes de significar.

Lisboa, 9 de Outubro de 2006

sexta-feira, novembro 24, 2006


A voz das palavras


“Cada dia que passa escrevo menos, e o pouco que escrevo exige todo o meu tempo disponível. requer paixão sem partilha. (...)”

Al Berto, Livro Sétimo, 1984


O vazio esconde-se lá em cima,
Nos momento infinitos de claridade,
Dos dias de sol, alguns à tarde
Outros nunca, perdidos por esquinas e sombras,
Desconhecidos, na multidão,
Nas pequenas coisas raras, em todos os portos de qualquer voz,
De alguém que espera as cores, os sopros leves das palavras,
Em silêncio,
Desejando mudar.

A vida não chega para as tormentas do mundo,
Do canto iluminado onde a beleza se refugia,
Onde nos embalam, com a fúria de amar.

terça-feira, novembro 21, 2006


Gare do Oriente

Os risos,
Na claridade profunda daquele dia,
Estendendo-se até ao rio próximo,
Debruçando-se dentro das dúvidas de outras horas,
Presos ao que há-de ser,
Ao que já foi e ardeu lentamente no esquecimento,
Como o meu nome, o teu,
Devorado vezes sem conta,
Quando nos alimentámos de prazer,
Indiferentes à mudança das luzes,
Dia ou noite,
Vigiados pelos braços da estação,
Ao longe,
Mas abraçados, como nós,
Aqui,
Devagar,
Como o aproximar dos comboios.

segunda-feira, novembro 20, 2006


Sobressalto (nosso)

O mundo passa nos rios perfumados do silêncio,
(suave)
Olhando sítios onde a vida é dormente,
(devassa)
Acorda em ínfimos momentos,
(rara)
Paixão subtil em sobressalto,
(suspira)
Palavras atravessando a maresia,
(eterna),
Sorriso desenhando a palma da mão,
(adormecida)
Acorda desejo esquecido,
(tu)
Que tudo revela,
(em mim)
A tinta dos meus dedos no teu corpo,
(amando-te).

sábado, novembro 11, 2006


Dois segundos

Fantasmas esvoaçam na noite
Em movimentos sublimes e incertos
Peitos abertos em gritos sussurrantes
Fugas escondidas nas esquinas, nas entrelinhas
Das palavras que repousam e acordam
Nos corpos que se enchem de caminhos
De lábios rasgados a beijos e tremores incandescentes,
Na pele silenciosa,
Insónias de uma cidade que crepita vigilante,
Atrás de risos cadentes que chamam a rua
Em sublimes e esquivos sopros
Que só nós deciframos
Sem querer.

No fim, somos só dois momentos intermitentes.

sexta-feira, novembro 10, 2006


Tempo

O tempo demora a passar em todos os instantes,
Alonga-se em passadeiras devassadas por semáforo sem vida,
Indiferente, habituado a acordar tarde,
Em vagas lentas, abandonadas, preguiçosas,
Nos dias em que nada mais há do que eu e aquele dia.

E depois, o passar do mundo resplandece
A cada eco dos teus momentos,
Atordoa e fere todas as sombras que os ameçam,
Cresce, estreme, na medida da nossa procura,
Na avidez de corpos reencontrados,
Agitando-se,
Amando e odiando,
Cada réstea de tempo que nos une e vicia.

sábado, novembro 04, 2006


Luminoso

Luminoso coração à margem da minha cidade,
Silêncio claro, fio de história febril
Sem tempo, nem forma,
Sem palavra que dormite e nada ofusque
Encontros manchados de neblina fresca,
A imaginação cintilante de ter ver sempre,
Aqui,
Nos fulgurantes segredos da nossa tempestade,
Que nunca amaina, sempre amarga,
Sempre irresistível,
Como um errante sossego, sempre desfeito,
Sempre perfeitamente imperfeito.

sexta-feira, novembro 03, 2006


inesperado

Fugindo de presentimentos esquecidos
Com travos indecifráveis
Que tudo complicam e amarrar,
Transformam o doce dos momentos,
Em sabor a demência,
Escasseando na mesma proporção que a felicidade
Aquela que deixas nos lábios hemudecidos nos meus,
Consumindo-se
Mas intacta como fogo
Protegida da ilusão fugitiva de ter certezas.

Afundamo-nos no terror de um dia nada ser inesperado.

sexta-feira, outubro 06, 2006


Medos

A vida corre com o vento de feição, apenas onde se desenrola devagar a emoção,

Desconhecendo a saudade de outras marés, que não somente aquela que agora sobe

Com mais um anoitecer, sem espantos nem medos,

Apenas o tremor do abandono, da distância intolerável do mar,

Como se escondessem o mundo para não mais o revelar.

segunda-feira, outubro 02, 2006


Dias (Noites) de Furor

Quando nos ouvimos nos murmúrios da cidade,
Crescendo com a manhã, explodindo no fogo de um encontro iluminado,
A euforia que se perde nos pecados da noite,
Poros libertando o furor e a loucura de corpos á deriva,
Indefesos.......

quinta-feira, agosto 31, 2006


Desassossego

O mundo é sempre tão breve,
Esvai-se em fulgurantes gestos,
Imperceptível, dissimulado,
Sem travo, amargo,
Em sílabas perfeitamente ditas
E perfeitamente ardendo no vazio.