segunda-feira, abril 23, 2007
sexta-feira, abril 20, 2007
As velas soltam palavras em combustão,
Fricção de pés brancos no lençol mordido,
Lambendo, gotas de tédio e paixão,
O Outono, adornando e caindo nas mãos,
Os ramos dobrados, em choro, quebrando,
Resina, sumindo de seguida, seguindo
Os pássaros migrando, diluído nos enganos,
O rio e o mar, mistura fina,
Interminável templo de sal raro,
A chuva no horizonte, lama, terra,
Subindo no vento, a poeira,
Pousando no silêncio manso, dos soluços escondidos,
Prisioneiros,
Os zumbidos, borboletas,
Dois gritos, o deleite,
A resina nas curvas da boca.
quinta-feira, abril 05, 2007

A que soam os acenos e nevoeiro,
A cidade, o risos da multidão,
Os pensamentos sós, os segredos,
Os prazeres proibidos na escuridão,
A tristeza, a voz inesperada
Dos desencontros.
A que soa o ouro,
Caindo sobre a pele,
A face preciosa do mundo,
O canto da memória, o coração,
A areia, o sal,
A que soam a línguas e as lágrimas,
Os fantasmas e o deslumbramento.
Ouvir falar de amor...?
terça-feira, abril 03, 2007
São traçados a tédio, sincopados,
Os encontros e as ilusões,
Pequenos mundos devorados a cinzento
Que as breves horas apressadas nos deixam.
De ip’s e ic’s forma-se a anatomia do que já fizémos,
Os itinerários que se complementam, as certezas do fim
Afundam-se no cimêncio dos beijos,
A um ritmo pendular,
Frios e mudos,
Roubados às canções pálidas que ofereci,
Perdidas,
Nas peregrinações encenadas de todos os dias.
Tudo é um grande momento único,
Na contigência geométrica da calma suburbana,
No sono profundo dos arredores,
Entorpecendo lábios que se tocam
Escondidos.
cimêncio, s.m. (do lat. coementu por aglutinação com do lat. silentiu). Estado calcário de pessoa ou cidade que revela uma calma fortísssima. Mistura de cal, segredo e mistério, impenetrável ao tempo. União íntima; pausa fundamental. Suspensão de base ou fundamento. Sono profundo dos arredores. Construção imaginária; matéria-prima do espírito.
luís gouveia monteiro
após Diogo Lopes e Nuno Cera in"Cimêncio" (Ed. Fenda, Lisboa)
quarta-feira, março 28, 2007
O céu, afinal
Alcançarei o céu, ainda,
No voo silencioso do vento,
Que vagamente flutua
Entre o poente e o levante
Num beijo fundo e intenso.
O céu, afinal
Permanece incólume,
Indiferente aos tombos dos fugitivos,
Marinheiros solitários
Amantes das mil certezas,
Procurando cair noutros braços.
Ne cherche pas les limites de la mer.
Tu les détiens.
Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée.
René Char in “Poèmes des Deux Années”
quarta-feira, março 21, 2007

Sul
Sacode-se a terra no mar
Na fina poeira do nosso encantamento
Um súbito sopro cardeal
Entre a mansidão da cor inflamada.
É quente, a noite,
Enche-se a Lua nas sombras,
Mergulhado o sono
Em prantos dispersos de cigarras.
(...)imagina-nos
na aragem cuja face se distende
ao sol que lentamente se afunda.(...)
Ibn Sara in “o meu coração é árabe” de Adalberto Alves
A cinza perdeu-se (voo sem ruído)
Cai-me a boca sobre o peito dorido,
A saliva apaga o ardor,
São de cinza os receios que se perdem sobre o mar.
Na vigia das árvores despidas da colina,
Adormecidas,
Sacudindo folhas e coração,
O sabor escancarado da cidade tomada sem luta,
Perpetua-se em delicado voo sem ruído,
Sem marca,
Com a impressão da musica que se perde nos gestos vagos,
Cruzando o mar da Palha.
“(...)vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas.
Carlos Nogueira Fino in “mesmo que o silêncio...”
terça-feira, março 20, 2007

Podia saber mais de tudo,
Deixar-me enredar nesses enganos,
Confiar na incerteza de outros dias.
Podia renegar-me, talvez nunca como agora,
Podia saber quem eras tu e os demais,
Fintar o futuro e o passado,
Que o acaso fosse concreto e determinado.
Podia não estar aqui,
Ser material de outra estrutura,
Escolher a chuva que me ensopa,
Queimar-me ao vento, ao sul,
Onde o sal soubesse tanto a lágrimas como eu,
Para que me esqueça delas, enfim.
É melhor assim...
O peito aberto, sem condições e tratados,
Morder o presente, sangrar,
Querer o mais difícil dos prazeres,
Esquecer o amargo das canções,
Enfim.
“Que importa o gesto não ser bem
David Mourão-Ferreira in “Canção Amarga”
quinta-feira, março 15, 2007

Palavra insensata
Que não se acha nunca,
Divide-se por nada e por mais se perde,
Lânguida promessa que esmorece,
Rio que seca e cresce imparável
Como se de meu sangue se tratasse.
Palavra falada que entontece
Cuspida como merece,
Insinua-se nos sulcos da língua,
Escondida na curvas da saliva,
Noutro corpo que é meu,
Recente, ausente, futuro.
Caminha nas linhas de branca depravação,
Sem inspiração, arde
No sonho breve e mudo de só querer
Alguma coisa,
Apenas experimentar o meu prazer.
quarta-feira, março 14, 2007

Ouvir-te já, de olhos fechados num luto de poucos dias,
Lembrar-te da ânsia do horizonte que não chega nem se alcança,
Tocar-te devagar, na sombra da chuva miudinha que agora cai,
Seguir-te, quando a pressa de chegar já é vontade de ficar,
Descer-te à brevidade dos desejos incertos,
Gritar-te em desvario, queimando a garganta calada de promessas,
Estranho-te agora, perante o medo lascivo de querer mais,
Matar-te afinal, no tempo que foge e acorda em alucinação.
terça-feira, março 13, 2007

Escalar o céu,
Divagar nas profundezas do tédio, incólume,
Fintar a curva esguia dos vagos sons diluídos na sombra dos teus medos,
Baloiçar diante do abismo, hábito doentio,
Suspirar de fastio perante os sustos dos incautos.
Repara, dizes-me,
As manhãs desaparecem nas noites anteriores,
Os sentidos sangram e cegam,
E mesmo com volteios nas palavras que inventas,
Escudas-te opulência da decadência,
No luxo desmedido de não te preocupares.
Desejos errados, olha bem,
Corpos arfam em angústia,
Padecendo de nada sofrer,
Quanto a coisas que nunca fizeram,
Mas insistem,
A terra segue girando,
Nao faz mal, dizes,
A mim faz-me, digo eu,
Porque ninguém se lembra de nos ver passar, nunca,
Nem agora.
Fundimo-nos afinal, com outra manhã que matámos.
O que escrevemos afinal?
Na tua colinaEntrega-me a minha metade do teu nome escrito na cidade,
O corpo dividido em muitas margens,
Impossíveis de alcançar,
Irremediavelmente perdidas na dança eterna das ondas,
No perfume suave do poente,
Acendendo o burburinho da noite.
Enebria o odor as corpos escondidos
A túmulos e promessas de lábios gelados,
Dormindo sobre o mármore que esfria por baixo,
Na sombra do fim do dia,
No mundo sem vida que nada aquece
Em promessas de nada dizer.
Agitam-se as vozes subindo a encosta,
Tropeçando nos acasos,
Nos rios que alastram com a chuva
Como o negro da paixão
Como o vinho que já não enche nem preenche e se entorna,
Dolorosamente embriagando,
Esquecendo-me de procurar alguém
Entre aqueles que passam por aqui,
Esperando que me devolvam o meu lugar na cidade.
Entretanto, sem remédio, perco-me.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Há espaços interditos
Onde o deslumbre penetra como gume aguçado,
Nos feitiços desse ínfimo universo,
Sedento de fantasias mudas e perversas,
De medo irresístivel, de querer ainda mais.
É o vinho que embala a cintura,
Um travo rouco a poesia brava
Desenterra a raiz escondida do desejo,
Mostrando-se na última claridade do passado,
Desmascarando certezas.
És batalha vencida,
Ardendo devagar com os estandartes,
Entregando-me prisioneiro,
Saqueando-me o sentido deixado pelo tempo perdido,
Uivando sobre a nudez de corpos amargos.
Renego-me, enveneno-me,
Por tudo o que penso e não quero,
E o que quero sem pensar, em furiosa demência
Transpirando em contenção,
Fugindo dos pesadelos de noites repetidas,
De sexos furiosos ao desbarato.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Nas insondáveis partidas da solidão
Os reclusos desejos
Escorrendo nas mãos da chuva fria,
São meus.
Arrastam-se as memórias de cada rua,
Feridas descobertas por outra fuga,
Escondidas nos sítios perfeitos
Para morrer outra vez,
Para despir os rostos que não se vergam,
Para penetrar os corpos que se abandonam.
Se calei os que ontem foram outros,
Os que ficaram para trás
Perdidos, sem passos no chão
Que se despeçam e se esqueçam
Da Primavera.
Outro prisioneiro arde na lua que enche o rio,
Perdem-se os monstros nas vagas de Janeiro,
Inundam a cidade de solidão,
Afoga-se uma tristeza tão simples numa dormência vagabunda.

São equívocos eróticos, dizem-me...
Não precisamos de tanto amor,
Tanto amor, sempre igual
Sem espaço, muito tempo,
Entre os neons e o cimento
Suspensos do mundo, moribundos,
Como anjos perdendo a inocência,
Em infinita elegância
Sempre do lado do mar,
Em enganos,
Partindo em busca de peixes voadores
Mesmo, viajando para o interior da terra
São fluídas melodias
As que desenhas nos mínimos movimentos,
Em palavras puras, que se querem.
Não preciso de ti,
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Promontório (abismo)Dei dois mares num suspiro
Fugindo o tempo num abraço
Aquecendo o corpo noutro beijo,
Afastado o silêncio nos ruídos
De portas e vozes abertas
Á respiração dos nomes das coisas,
Ressoando, quebrando a vastidão das almas desconhecidas,
Em ímpetos de paixão ofegante.
Dei o mar às palavras que me afogam
Vagas,
Tesouros naufragados, inacessíveis como os medos,
Esclipes no breu da cegueira,
Água lisa infinita da inspiração,
Mergulhada nas estrelas.
Abre-se o abismo no promontório despido
Pelo vento e fúria clamorosa do que já não se ouve,
O que se perde em cada momento de primavera,
Em cada dia maior de verão.
Juntam-se os mares da terra em outras vozes,
Deslizam os barcos no sossego límpido do estreito.
Respiro, enfim, livre.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Nada tem tido o mesmo sabor
Tudo o que acontece com nada se parece
E tuas palavras, são as minhas de enfado,
E outros desígnios, os outros que falam,
Tudo e nada se ouve, esqueço.
Não sou o que era, nem o que queres, o outros esperam,
Não me dizem,
Não digo nem respeito, admito,
Perdi-me, procurei na multidão que se limita a estar,
Sem interesse, sem interesses,
Rotineira vontade de não mudar,
Falsa e estúpida vontade de muita pouca coisa ser,
Não ser eu, em mim ser mais, mudar.
Se mais qualquer coisa terei, a dar, a mostrar,
Fugiu contigo, com todos, contido,
Os que amo e odeio, sempre, às vezes, poucas,
Desencanto, voltando, surgindo,
Fogo fátuo perdendo-se outra vez,
E outra folha que não se escreve.
Perde-se tempo farto num segundo.
segunda-feira, janeiro 29, 2007

Nem tudo demora como este Janeiro
E na chuva tudo dura eternamente
Sem um resguardo para a falta que sinto.
Neva um ano depois,
E os olhos fecham-se,
Indiferentes aos vultos sobre o asfalto
E folhas rasgadas, molhadas,
As frases abandonadas,
Sem o conforto da minha cabeceira,
Em sossego,
Saborando o pó do tempo.
As memórias secretas dos beijos,
Desamparadas, empalidecem,
Desvanecem-se nas horas cinzentas,
Nos fantasmas que ainda me acompanham.
Já não me confesso, nem oiço, nem falo,
E as raízes já se aventuram em qualquer rua,
Em qualquer estação,
Como anjo caído, pecador.
E tudo demora, e a rua esfria,
Cala-se, sem passos que se oiçam na escada,
Esvaindo-se a vontade, nua,
De voltar.
quinta-feira, janeiro 18, 2007

Oiço um toque que escorre, desejo,
Uma boca que socorre a vontade,
Tirando do escuro o quente silêncio em que se adivinha,
Uma sede premente, pulsando, nos movimentos que tomam forma,
No sobressalto de gemidos em fuga, furtivos,
Sem acordes, mesmo que de novo acordes, durmas,
Desarmada, a luz irrompendo em estilhaços, sumindo-se,
Nos repentinos movimentos que nos tomam,
Pulsando, encadeados, instintivos.
Oiço batidas, bate o coração do mundo em feroz inocência,
Nós em sobressalto, ouvimo-nos brilhar,
Esperando tréguas de olhares inadiáveis, inevitáveis,
Tombando, rendemo-nos ao que nos prende
E nos solta, em fúria.
Não precisas acordar, oiço o que não dizes.
segunda-feira, janeiro 15, 2007

Queimei o dia de ontem
Porque tudo se passa com atraso
E apenas guardo o que já nao há,
Nos sítios que perdi,
Tantos passos atrás.
Lancei fogo às tuas notas,
Riscos e livros rasgados pelo meio,
E ainda não eram duas da tarde,
Mas os dias não se fazem de esperas inúteis,
E nem tudo gira à nossa volta,
Acontecem sozinhas sempre que as empurramos,
Nos sopros de fumo, subindo até ao tecto dos nossos humores.
Ontem não sabia o que dizer,
Hoje não disse nada.
Ardemos no fundo de um caixote.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Espreitam-me o peito muralhado,
Que o esquecimento disfarça com acalmia,
Coberto o desejo em neblina espessa,
Onde nada germina, onde nada se ouve,
Só eu,
Num campo guerreiro aguardando as trombetas,
T tu, insistentemente lá fora,
Desfraldando as bandeiras há muito recolhidas,
Sem tempo nem pressas á vista,
Pisando as cinzas e pedras de campos onde fogo insiste em passar,
Mas que ora se apaga,
No espanto de um amor inevitável.
sábado, dezembro 30, 2006

Falta-me escrever outra linha,
Abrir outro vinho, mais um minuto,
Sentir outras vozes, ouvir notas batidas,
Sem parar,
Falta-me ter ilusões vezes sem conta,
Na tua cama,
Brincar com as palavras, ao café,
Dizer tudo, mais, muito, sempre,
Cansar-me, esgotar-se, matar-me,
Vezes sem conta,
As que percorro o alfabeto,
Procurar aquela letra que me falta,
Aquele riso último, derradeiro.
Faz-me falta tempo para mais, para menos, para tudo.
Tenho-te só para mim, sem saber quem és,
Incondicionalmente, mesmo que nada acordado,
Mesmo que só agora, assim que te conheci,
Como queres, como pedes, como eu quero, como gemes,
Como esqueces e insinuas um outro “nós”, que não este,
Queimando etapas, preliminares, pressupostos,
Gozando cada subversão, cada dogma, cada proibição,
Subindo, descendo, percorrendo letras, palavras, frases,
Entrando, percorrendo a tua invisível satisfação no escuro,
Agarrando, observando, segurando, possuindo, latejando
Como se o mundo estivesse nestas mãos,
O desejo libertando-se, brilhando, claro como a lucidez de todos os momentos,
Mesmo com a tua imensa vertigem ácida
Que te faz esquecer a desolação de amanhã,
Queimando-se nos estilhaços esquecidos que fizeram esta noite.
Uso-te, sabendo que me usas, mesmo sem saber quem és.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Adivinho-te o ínfimo termer dos dedos junto ao peito,
O medo que se insinua num sorriso sem luz,
A atenção presa nas poucas folhas que já restam
Do Outono, lá fora,
Os teus sentidos lambendo cada nesga de movimento,
Adormecendo-me a tristeza,
E quase tudo o que me lembre, agora.
É-me difícil sentir mais qualquer coisa,
Nada dizer,
A exaustão fecha-nos qualquer livro,
Arrefece e mata as intrigas e histórias de qualquer dia
Como pinturas fortivas sem movimento.
Perdi-me a meio do dia
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Abre-se a janela mais uma vez
E outra, boca que fecha o dia,
Quando mais uma noite magoa ainda mais,
Sempre que mais um copo te possuía,
Mais forte, com mais prazer
Que eu, desfeito
Insuportável, irremediável,
Batendo com estrondo, o coração
Que sabe estar perdido,
Lentamente, convencido
De outro corpo que não se toca, não se mexe,
Não se sente, a morte
Em aveludado perfume envolvendo,
De mansinho, leve, fácil, previsível
Canto de sereia, inquieto, escondido,
Alucinando.
Abro a porta pela última vez.
terça-feira, dezembro 26, 2006

O sangue já ferve, como se brotasse fulgurante
Correndo ordenado nos limites invisíveis da estrada,
Entre palavras que adivinham a respiração
Suspensa, nas sílabas ofegantes do lusco fusco,
Adivinhando o peito dorido, massacrado,
Rasgado de separação abrupta,
Contudo cirúrgica, calculada e cruel.
O sangue já escorre,
Em rubro medo, incendiando-se,
Secando vestígios húmidos de sal,
Na boca que se calou,
Em triste uivo, cuspido.
E a estrada alonga-se num fio,
Espalhando-te pelo sossego do meio dia,
Agora que nos sangrámos sem remédio.
E o céu enche-se de nuvens em debandada.
quinta-feira, dezembro 21, 2006

E se eu quiser não esperar,
Nem mais cinco minutos, nem a hora acordada,
Nem atrasos, onde olhássemos na ansiedade que nos espera,
No manto escuro que agora se sente,
Onde deixássemos a imaginação para outra conversa,
Onde perdêssemos todo o tempo,
Para ouvir-te comandar o meu sonho, e eu o teu,
Rasgar o meu coração de dúvidas, de fugas e ódios,
Esquecer o protocolo,
Qualquer um que agora se aplique,
E nos beijássemos, sem limites,
Tal como nos apetece, tal como nos treme debaixo da pele,
Esquecendo a vergonha que não temos, perdida.
E se eu não quiser esperar,
Nem mais um suspiro de tédio, pela relógio parado, e correr,
Atravessar a cidade em hora de ponta, enorme, instransponível,
Só para chegar mais cedo, agora mesmo,
Para poder ver-te descer as escadas, tão devagar quanto possível,
Para poder não perder o mesmo brilho que trazes nos olhos, irreal,
Que já não vejo, e beijo,
Sem esperar.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Depois de "As Vozes em ti", foi apresentado no passado dia 13 de Dezembro, "Furor das Noites Cheias", de Daniel Costa-Lourenço, o seu segundo livro de poesia.
A obra conta com a colaboração fotográfica de Paulo César e com prefácio de António Garcia Pereira e Possidónio Cachapa.
"À segunda incursão pelo texto poético, Daniel Costa-Lourenço aprofunda as ideias lançadas em “As Vozes em ti”, percorrendo, com um sentimento mais maduro, as interrogações e as visões do mundo urbano, dos desencontros, das dores e euforias da sucessão dos dias, tendo sempre o mar e a cidade como pontos de partida para o que começa e acaba.
Sem nunca conceptualizar ou definir dos sentimentos que explora, assume a constante interrogação sobre o ser urbano, sobre a luta constante do indivíduo em manter-se único na sua apreensão do que o rodeia e do que o une aos demais, importem eles ou não.
Marcam as impressões eufóricas de amar, tristes, desiludidas e prementes, como se fossem as últimas, não porque acabem, mas porque nunca bastam a quem vive intensamente." EDIÇÕES ESCRITA CRIATIVA
Prefácio por Possidónio Cachapa
Este será um prefácio curto sobre um livro de poesia. O que é uma maneira redundante de dizer as coisas, porque a boa poesia tende a ser curta. Dá-se bem com a síntese, parte-se quando a tentam estender pela folha fora. É por isso que os poemas parecem estar sempre em fila. Fragmentaram-se em grãos de areia, porque não são as palavras mais do que isso: grãos de areia que alguns tentam unir, molhados com água do mar, ou com lágrimas que é a mesma coisa mas em ponto pequeno. Seguram a ideia com dedos finos, e retiram-nos cautelosamente esperando que a forma que antes só existia na cabeça, se sustente ali ao menos por um instante.
A poesia de Daniel Costa Lourenço fala destas coisas todas: do cheiro do mar que é o cheiro de um corpo, da necessidade de juntar palavras, de as dizer sem parar antes que a memória-onda as leve. “Uma investida sobre ti e as gaivotas voam rasando a água…” Fala à sua maneira, como consegue. Como todos nós. Parte a rocha dura para que a poesia se extraia. E às vezes extrai-se. E as outras, mesmo se cascalho ou suor, são fruto de esforço honesto que o tempo se encarregará de cobrir. Sempre foi assim com a poesia e há coisas que nunca mudam, como a mineração ou a pesca. Na essência, pelo menos.
Há uma ideia de água que percorre todo o livro. “Maré”, “rio”, “manhã” (cedo). Ou não estivéssemos rodeados dela em Portugal por todos os lados: pelo mar, pela chuva, pelo interior líquido que nos percorre. E há também a partida. Há sempre quem parta. Porque tudo se parte. Mesmo a gente quando se levanta cedo e deixa na cama outro corpo quente.
“A tempestade, única/Conduz ao promontório, /Veloz e impaciente (…) Todos os enganos são previsíveis…”.
Possidónio Cachapa, Lisboa, Outubro de 2006
Surpresa, e profunda, antes de mais por tal convite. Pública e notoriamente amante do mar e admirador desse eterno frémito de emoção que são os nascentes e poentes que ele sempre nos propicia, vibrando cada vez que revejo, uma vez mais, a célebre cena do cantar da Marselhesa no filme “Casablanca”, é sabido que não sou propriamente um cultor, muito menos um conhecedor qualificado, de Poesia.
Surpresa, depois, pela impressão, por vezes triste e mesmo desesperada, de outras vezes forte e intensa, quase vulcânica, que a leitura do livro nos vai causando e que, sinceramente, não esperava que fosse tão marcante. E, na verdade, pode eventualmente discordar-se ou desgostar-se de quase tudo nesta obra, dos temas, ou da semântica, ou da métrica, ou até do próprio estilo, Mas que ela nos toca em cordas sensíveis, nalguns casos muito vibrantes, isso creio ser inegável.
Por fim admiração, uma marcada admiração. É que numa sociedade em que todos os dias e em todas as horas se pretendem impor, como valores supremos, o dinheiro, o Poder, a capacidade de enganar ou esmagar o próximo, revela-se absolutamente admirável – para mais num país por vezes imposto como demasiado “pequenino” para nele poder haver lugar à arte, à cultura, à poesia, à sensibilidade, à emoção, ao sentimento e à paixão – que um jovem se decida atirar-se a esse seu sonho que foi, e é, o de fazer um livro de Poesia.
E é por tudo isto que, tendo logo acedido ao honroso convite para escrever estas simples e despretensiosas palavras, acho o autor da obra merecedor de bem mais do que o bastante pouco que tais palavras serão alguma vez capazes de significar.
Lisboa, 9 de Outubro de 2006
sexta-feira, novembro 24, 2006

A voz das palavras
“Cada dia que passa escrevo menos, e o pouco que escrevo exige todo o meu tempo disponível. requer paixão sem partilha. (...)”
Al Berto, Livro Sétimo, 1984
O vazio esconde-se lá em cima,
Nos momento infinitos de claridade,
Dos dias de sol, alguns à tarde
Outros nunca, perdidos por esquinas e sombras,
Desconhecidos, na multidão,
Nas pequenas coisas raras, em todos os portos de qualquer voz,
De alguém que espera as cores, os sopros leves das palavras,
Em silêncio,
Desejando mudar.
A vida não chega para as tormentas do mundo,
Do canto iluminado onde a beleza se refugia,
Onde nos embalam, com a fúria de amar.
terça-feira, novembro 21, 2006

Gare do Oriente
Os risos,
Na claridade profunda daquele dia,
Estendendo-se até ao rio próximo,
Debruçando-se dentro das dúvidas de outras horas,
Presos ao que há-de ser,
Ao que já foi e ardeu lentamente no esquecimento,
Como o meu nome, o teu,
Devorado vezes sem conta,
Quando nos alimentámos de prazer,
Indiferentes à mudança das luzes,
Dia ou noite,
Vigiados pelos braços da estação,
Ao longe,
Mas abraçados, como nós,
Aqui,
Devagar,
Como o aproximar dos comboios.
segunda-feira, novembro 20, 2006

Sobressalto (nosso)
O mundo passa nos rios perfumados do silêncio,
(suave)
Olhando sítios onde a vida é dormente,
(devassa)
Acorda em ínfimos momentos,
(rara)
Paixão subtil em sobressalto,
(suspira)
Palavras atravessando a maresia,
(eterna),
Sorriso desenhando a palma da mão,
(adormecida)
Acorda desejo esquecido,
(tu)
Que tudo revela,
(em mim)
A tinta dos meus dedos no teu corpo,
(amando-te).
sábado, novembro 11, 2006

Dois segundos
Fantasmas esvoaçam na noite
Em movimentos sublimes e incertos
Peitos abertos em gritos sussurrantes
Fugas escondidas nas esquinas, nas entrelinhas
Das palavras que repousam e acordam
Nos corpos que se enchem de caminhos
De lábios rasgados a beijos e tremores incandescentes,
Na pele silenciosa,
Insónias de uma cidade que crepita vigilante,
Atrás de risos cadentes que chamam a rua
Em sublimes e esquivos sopros
Que só nós deciframos
Sem querer.
No fim, somos só dois momentos intermitentes.
sexta-feira, novembro 10, 2006

Tempo
O tempo demora a passar em todos os instantes,
Alonga-se em passadeiras devassadas por semáforo sem vida,
Indiferente, habituado a acordar tarde,
Em vagas lentas, abandonadas, preguiçosas,
Nos dias em que nada mais há do que eu e aquele dia.
E depois, o passar do mundo resplandece
A cada eco dos teus momentos,
Atordoa e fere todas as sombras que os ameçam,
Cresce, estreme, na medida da nossa procura,
Na avidez de corpos reencontrados,
Agitando-se,
Amando e odiando,
Cada réstea de tempo que nos une e vicia.
sábado, novembro 04, 2006

Luminoso
Luminoso coração à margem da minha cidade,
Silêncio claro, fio de história febril
Sem tempo, nem forma,
Sem palavra que dormite e nada ofusque
Encontros manchados de neblina fresca,
A imaginação cintilante de ter ver sempre,
Aqui,
Nos fulgurantes segredos da nossa tempestade,
Que nunca amaina, sempre amarga,
Sempre irresistível,
Como um errante sossego, sempre desfeito,
Sempre perfeitamente imperfeito.
sexta-feira, novembro 03, 2006

inesperado
Fugindo de presentimentos esquecidos
Com travos indecifráveis
Que tudo complicam e amarrar,
Transformam o doce dos momentos,
Em sabor a demência,
Escasseando na mesma proporção que a felicidade
Aquela que deixas nos lábios hemudecidos nos meus,
Consumindo-se
Mas intacta como fogo
Protegida da ilusão fugitiva de ter certezas.
Afundamo-nos no terror de um dia nada ser inesperado.
sexta-feira, outubro 06, 2006

Medos
A vida corre com o vento de feição, apenas onde se desenrola devagar a emoção,
Desconhecendo a saudade de outras marés, que não somente aquela que agora sobe
Com mais um anoitecer, sem espantos nem medos,
Apenas o tremor do abandono, da distância intolerável do mar,
Como se escondessem o mundo para não mais o revelar.
segunda-feira, outubro 02, 2006
quinta-feira, agosto 31, 2006
quarta-feira, agosto 30, 2006

Desejo incerto
No ínfimo compasso de um aceno,
Uma mudez amarga que se escreve e apaga
Como uma lenta e vagarosa repetição dos dias,
A tristeza dormitando
Nos hábitos de corpos juntos com hora marcada,
Teimosamente acordando
O febril instinto da unificação de sujeitos,
Numa infernal repetição de adjectivos
E estilhaços de suspiros liquefeitos.
Rastejamos na corrosão de desejos agudos,
O prazer angustiante de inventar outra rua,
Outro aceno que nos chame,
Outro mundo que nos ignore e liberte.
Colam-se os corpos,
No ínfimo repetir de um aceno.
terça-feira, agosto 29, 2006

Amor cadente
As chaminés lançam negros gritos
Na irreconhecível memória da tempestade,
Escavando memórias
Em pleno estrondo de trovoada,
Murmurando os nomes de águas enfurecidas
Que infiltram a nossa cama.
Dançam amores cadentes, sorrisos breves
Sobre as cinzas dos teus pensamentos,
Lamentos tardios cuspidos no mundo,
Sobre nós, corpos magoados com gosto a desdém,
Que ecoam no fim das coisas,
No limite das últimas palavras que não se repetem,
Depois da ressaca de outro abandono.
Em ti nasce o meu dia sem rumo.
segunda-feira, agosto 28, 2006

Embriaguez
O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.
É tudo o que temos,
Quando nos temos…
sexta-feira, agosto 25, 2006
quinta-feira, agosto 24, 2006

Breve chama
A lenta lucidez da paixão maligna que me vigia,
Sem cessar, vaga,
Vigiando a dança das folhas na vastidão do silêncio
Encerrado no pequeno canto que guardamos vazio,
Pernoitando nos sentimentos porosos que nos separam,
Indiferentes ao latejar das palavras na chuva espessa
Apagando os breves chamas que nos consomem,
Esquecendo os tempos em que não tínhamos horas,
Nem tormentas ou amarras a nada que não fosse desejo.
A pele definha ferida, na surdina do gelo de outro copo,
Num maior engano, nós,
Que nos amachucamos como fantasmas de turva existência,
Lamentando o que nada mais será dito,
Soprando a poeira que insiste em cair sobre nós.
quarta-feira, agosto 23, 2006

De partida
As vezes que esqueço de voltar,
Simulando que o dia não começa nunca mais,
Devassando quem dorme,
conspirando segredos nocturnos,
Procurando nomes que se afastam
Sem rasto, sem passos na relva pisada,
Escondidos no pó da cidade,
Amarrados às horas,
Ao verão deslizando na transpiração,
Aos vícios da respiração, dos espaços,
Dos sorrisos no meio das palavras guardadas
Em caixas, como segredos para o mundo
Saboreados com o gosto sombrio do mar.
A cidade esconde-se em nada e a luz esmorece,
Nada existindo além dos corpos que se esvaziam
Na confusão da sucessão dos dias,
Perdidos nas fugas dos barcos,
Cúmplices de quem se esconde longe,
Mesmo aqui ao lado.
Do escuro emergimos.
A noite não acabou.
sexta-feira, agosto 11, 2006

Onde o mar desapareceu
Onde o mar desapareceu
adormeceu o dia,
cansado,
entre desejos adiados,
tremores e excitação.
O corpo treme e acende
fissurando a escuridão,
num lusco fusco de traição
e vento derramado,
adivinhando rastos de errância,
de coração sangrado, sangrando,
rasgando fina pele de tempestade,
súbita, sibilante,
despoduradamente.
A beira-mar confunde-se
com o abandono.
sexta-feira, junho 30, 2006

Ícaro
O primeiro momento
Onde tudo se define e se apaga,
Voa e faz-se,
De pó e pesadelos,
Num apuro melódico
De um piano quebrado.
A melancolia oceânica
Presa no ruído das ondas
Sarando feridas esquecidas
De gente que se esquece.
És tu, deambulando
E eu, voando entre nevoeiro espesso
Poluído de dúvidas,
Chamando-me outra vez
Outro nome que não o meu.
quinta-feira, junho 29, 2006

Outros verões
Abraçar o mundo nas
Nas faces que se mostram,
Nos dias que se sucedem,
Como nós, olhando o vazio,
Nada mais que o céu e mais nada que
Espuma, escuro, sombras
Eternas, de luz
Em euforia, esperando, o encanto
Do estio nas avenidas
Perseguindo o vento pelas sombras
Em silêncio que bate, inaudível
No infinito sobre as árvores,
E o céu, imenso.







