sexta-feira, outubro 06, 2006


Medos

A vida corre com o vento de feição, apenas onde se desenrola devagar a emoção,

Desconhecendo a saudade de outras marés, que não somente aquela que agora sobe

Com mais um anoitecer, sem espantos nem medos,

Apenas o tremor do abandono, da distância intolerável do mar,

Como se escondessem o mundo para não mais o revelar.

segunda-feira, outubro 02, 2006


Dias (Noites) de Furor

Quando nos ouvimos nos murmúrios da cidade,
Crescendo com a manhã, explodindo no fogo de um encontro iluminado,
A euforia que se perde nos pecados da noite,
Poros libertando o furor e a loucura de corpos á deriva,
Indefesos.......

quinta-feira, agosto 31, 2006


Desassossego

O mundo é sempre tão breve,
Esvai-se em fulgurantes gestos,
Imperceptível, dissimulado,
Sem travo, amargo,
Em sílabas perfeitamente ditas
E perfeitamente ardendo no vazio.

quarta-feira, agosto 30, 2006


Desejo incerto

No ínfimo compasso de um aceno,
Uma mudez amarga que se escreve e apaga
Como uma lenta e vagarosa repetição dos dias,
A tristeza dormitando
Nos hábitos de corpos juntos com hora marcada,
Teimosamente acordando
O febril instinto da unificação de sujeitos,
Numa infernal repetição de adjectivos
E estilhaços de suspiros liquefeitos.

Rastejamos na corrosão de desejos agudos,
O prazer angustiante de inventar outra rua,
Outro aceno que nos chame,
Outro mundo que nos ignore e liberte.

Colam-se os corpos,
No ínfimo repetir de um aceno.

terça-feira, agosto 29, 2006



Amor cadente

As chaminés lançam negros gritos
Na irreconhecível memória da tempestade,
Escavando memórias
Em pleno estrondo de trovoada,
Murmurando os nomes de águas enfurecidas
Que infiltram a nossa cama.

Dançam amores cadentes, sorrisos breves
Sobre as cinzas dos teus pensamentos,
Lamentos tardios cuspidos no mundo,
Sobre nós, corpos magoados com gosto a desdém,
Que ecoam no fim das coisas,
No limite das últimas palavras que não se repetem,
Depois da ressaca de outro abandono.

Em ti nasce o meu dia sem rumo.

segunda-feira, agosto 28, 2006


Embriaguez


O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.

É tudo o que temos,
Quando nos temos…

sexta-feira, agosto 25, 2006


Escuro distante

A nudez da solidão,
Esmagando corpos vagos,
Decifrando ecos de tinta escorrida
Lenta, demorada, ácida,
Precipitando-se na desolação desta cidade,
Questionando o escuro distante
De olhos apagados, imóveis,
Chegando com a maresia.

Há muito que nada vejo.

quinta-feira, agosto 24, 2006


Breve chama

A lenta lucidez da paixão maligna que me vigia,
Sem cessar, vaga,
Vigiando a dança das folhas na vastidão do silêncio
Encerrado no pequeno canto que guardamos vazio,
Pernoitando nos sentimentos porosos que nos separam,
Indiferentes ao latejar das palavras na chuva espessa
Apagando os breves chamas que nos consomem,
Esquecendo os tempos em que não tínhamos horas,
Nem tormentas ou amarras a nada que não fosse desejo.


A pele definha ferida, na surdina do gelo de outro copo,
Num maior engano, nós,
Que nos amachucamos como fantasmas de turva existência,
Lamentando o que nada mais será dito,
Soprando a poeira que insiste em cair sobre nós.

quarta-feira, agosto 23, 2006


De partida

As vezes que esqueço de voltar,
Simulando que o dia não começa nunca mais,
Devassando quem dorme,
conspirando segredos nocturnos,
Procurando nomes que se afastam
Sem rasto, sem passos na relva pisada,
Escondidos no pó da cidade,
Amarrados às horas,
Ao verão deslizando na transpiração,
Aos vícios da respiração, dos espaços,
Dos sorrisos no meio das palavras guardadas
Em caixas, como segredos para o mundo
Saboreados com o gosto sombrio do mar.


A cidade esconde-se em nada e a luz esmorece,
Nada existindo além dos corpos que se esvaziam
Na confusão da sucessão dos dias,
Perdidos nas fugas dos barcos,
Cúmplices de quem se esconde longe,
Mesmo aqui ao lado.

Do escuro emergimos.
A noite não acabou.

sexta-feira, agosto 11, 2006


Onde o mar desapareceu


Onde o mar desapareceu
adormeceu o dia,
cansado,
entre desejos adiados,
tremores e excitação.
O corpo treme e acende
fissurando a escuridão,
num lusco fusco de traição
e vento derramado,
adivinhando rastos de errância,
de coração sangrado, sangrando,
rasgando fina pele de tempestade,
súbita, sibilante,
despoduradamente.

A beira-mar confunde-se
com o abandono.

sexta-feira, junho 30, 2006


Ícaro

O primeiro momento
Onde tudo se define e se apaga,
Voa e faz-se,
De pó e pesadelos,
Num apuro melódico
De um piano quebrado.
A melancolia oceânica
Presa no ruído das ondas
Sarando feridas esquecidas
De gente que se esquece.
És tu, deambulando
E eu, voando entre nevoeiro espesso
Poluído de dúvidas,
Chamando-me outra vez
Outro nome que não o meu.

quinta-feira, junho 29, 2006


Outros verões

Abraçar o mundo nas
Nas faces que se mostram,
Nos dias que se sucedem,
Como nós, olhando o vazio,
Nada mais que o céu e mais nada que
Espuma, escuro, sombras
Eternas, de luz
Em euforia, esperando, o encanto
Do estio nas avenidas
Perseguindo o vento pelas sombras
Em silêncio que bate, inaudível
No infinito sobre as árvores,
E o céu, imenso.

sexta-feira, junho 09, 2006


Mais

Mais do que tudo,
As palavras que fogem
Corações fingidos que batem, mentindo
Ansiando veneno e saliva
Escrevendo corpos estendidos, despidos
Numa interminável insónia dolorosa,
Saborosa, viciante
A tua ausência
Que me ocupo em preencher, sem mais
Por mais e por nada,
Pelo que não consigo inventar
Para além disto,
Do que somos.

sexta-feira, abril 07, 2006















Naquela cidade

Somente num sonho, acordo em novas incertezas, à procura
de alguém que não eu.
Estás em todo lado,
vejo-te perdida,
levando-me ao mundo, naquela cidade,
rindo, iluminando mais que tudo.

Naquela cidade, sonhas,
voas sobre o mar,
lavas a alma, como chuva,
perdes-te comigo,
vendo lá de cima quem somos
e mergulhar no vazio, que nos embriaga,
juntos,
como num sonho, com água transparente.

quarta-feira, abril 05, 2006


Adágios nocturnos (fuga apressada sobre a neve)

Debaixo da noite
Adormece a manhã,
Admiram-se as profundezas do sonho,
Quando o dia acaba lá fora,
De ferro, as minhas pernas (seguras, na escada)
Forjado, no coração (o amor ao divino)
Branco, o meu corpo
Extinguindo-se na luz ténue de uma ópera
Na envolvência do calor da música.


Em fuga apressada sobre a neve,
Descobre-se a grandeza das cidades
De domingo à tarde
Feitas de café com piano,
Misturando-se nas últimas corridas do dia,
Saboreando o gosto pelos desfechos perfeitos.

escrito entre Praga, Viena e Budapeste, Março de 2006

segunda-feira, março 06, 2006

















Minutos antes


Minutos antes de o céu abrir
Queria eu ser
Apenas fumo na avenida
Cegar-me nos sinais deixados na ferrugem da alma
Corroendo, trilhando, com riscos a mais
Do que aqueles que já tinha lamentado
Reinventar-me surdo
Às sombras estridentes de outras vozes
Estendendo-se nas escadas
Irregulares
Indiferentes à geometria da minha dor.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006


Toques imperfeitos

Corpos povoados de vagos gemidos
acesos na penumbra fingida da exaustão
de uma noite, por um beijo que se
deixou inacabado no fogo nocturno
de cigarros extintos, na humidade
da beira mar, suspirando nomes
de cidades e toques imperfeitos,
desfazendo nós apertados de corações migrando,
peitos entreabertos ao amor,
irrompendo em águas enfurecidas,
paredes que derrubam e abrigam
ausências, instantes invisíveis, desenhos
de feridas atravessando as horas do cais,
voes pressentindo-se como rádios pirata
enxameando as ondas sonoras do teu riso,
o medo de nada e tudo acontecer
contigo.

terça-feira, dezembro 13, 2005


O mundo das canções

Riscar o céu aberto,
Abrir a porta a silêncios ágeis
Repescando o cheiro a mar
E amores esboroados em lagrimas alterosas,
Em batidas lentas de sussurros
E imagens vagas.


Marcar o vazio com linhas e pensamentos
Criar a desordem, errar em vinhedos perdidos
Degustá-los,
Imaginar impérios que misturam sangue, voz e palavras.

Amar, sem mais,
Como no mundo perfeito das canções.

terça-feira, novembro 22, 2005



Avenida marginal

A dormência salpicada da marginal
Sonolenta, espiando invernias
A penumbra de um dia de Novembro findando
Alastrando no asfalto cintilando de chuva fria
Por quem esperei, lento vagar de um estio interminável
Espantando vagas de silêncio no passeio marítimo
Crescendo em ecoar dos passos, corrida
Compassada e atordoando sentidos
Sufocando, amarrando, soluços teimando jorrar
A agonia das palavras querendo soltar-se
Fugir dos remotos cantos do esquecimento...

A luz entorna-se pelo dia.

Espero não te ver quando chegar.

sexta-feira, outubro 28, 2005



A noite segue adiante

A noite segue adiante
Numa voz quebrada,
Singrando nomes esquecidos
Em vão desespero,
Demorando-se no vício do tempo,
Vagabundeando,
Passos adormecidos que se apagam devagar,
Sentidos que se ocultam
Pressentindo sossegos e excessos.

Ficam as sombras das travessias, devassadas,
Rastos de travo a sal,
Rotinas amarradas ao cais,
Como alicerces da cidade.

Já não faz sentido o que deixou de fazer sentido.

quinta-feira, outubro 27, 2005



Segunda circular


É quase pecaminoso
Vestir e despir em voz baixa
Como um corpo que se desloca e cai
Numa expiação despudorada, acordar
Ontem e hoje e todos os dias
Sofrendo garganta abaixo
Impressões vagas de confusão
A cidade correndo frente à minha janela
Corroendo-se em movimentos sujos
De uma segunda circular sem ruídos de paixão
Esquecidas as rectas que devorámos
Como criaturas à solta, electricidade fulgurante
Demónios,
Em balanços viciantes
Desordem pura.

A manhã é a prova do delito
Como uma imensa espiritualidade
Um prova diária de auto flagelação
Esquecimento inflingido do meu prazer
Um ritual carmim, purpura, escarlate
De palavras resgatadas e sexo carnal
Esquecidas as pulsações dos corpos
Largadas as amarras dos gemidos e do silêncio

Já amanheceu e já não existes.
Não mintas.
Fui mais um conhecido amante
Bolor na escuridão
Entregando-se à realidade.

Chove como há muito não acontecia.
Já esperava que não doesse tanto.

sexta-feira, outubro 21, 2005



Azul Sonoro
por Pedro Peralta

Para o meu amigo daniel costa-lourenço



azul sonoro (celeste)
paladar marítimo:
sal pele toque (brandura)
também o céu
a escuridão luzidia
denominada céu
desce à terra que o sustêm
e irrompe
pela mais fina fissura do dia
o cidadão comum : a luz inteira (suspensa)
a vertigem do crepúsculo
a deambular em todas as horas
e em todas as vozes (e é silêncio
o ruído que se ouve.
e houve, e há
rostos olvidando
uma cidade por rasgar
corpos velozes
e há, o azul depois)


Cidade escura

A minha bagagem vai sempre cheia
De gaivotas expulsas pelo vento
Presenças que se empurram borda fora,
À beira da cidade escondida na tempestade
Regurgitando tirania, de me prender onde não quero
Apagando todos os cigarros que acendo
Retirando-me com ousadia os prazeres que me restam.

Tudo o que tenho é inútil,
Espalha-se no rasto do lixo das ruas mais estreitas,
Soturno coração que insiste em não morrer,
Eterniza-se nos escritos que deixas
Quando amanhece,
Quando a mar cresce sobre as silhuetas adormecidas da noite,
Também as nossas, brisas
Que se cruzam aleatoriamente no mesmo local,
Insistem em despertar juntas, no mesmo impulso.

Tu és, a minha...
Ousadia dos meus vícios,
A luz que guardo no peito,
A luz que me entra no peito,
A fuga apressada das horas,
A minha babel de afectos...

Tu és, a minha cidade escura
Que me expulsa e me prende, com o mesmo encanto,
A luxúria de desejar nada mais do que isso,
Do que te ter,
Mesmo em todas as coisas que não tenho nem vejo,
Escondidas,
Como néon reanimando-se na noite.

terça-feira, outubro 11, 2005


Amor amargo sabor

Acendo um fogo nos dedos,
Sobre papeis amarrotados e alisados,
No silêncio
Gravado na pele,
Segredos abertos nas feridas
Riscadas em néon,
Odiando quem deveria amar.
Mas,
Há muito que a luz que as palavras têm
O sabor que derramas,
Que transportas agora,
Como travo a pó, que se entranha
E ainda não pousou,
Mas rodeia-me
Como vento torneando o corpo,
Deixando incólume o fogo que acendi.

E segue ardendo
Como nenhuma paixão.

sexta-feira, setembro 23, 2005


Céu nocturno

Curioso céu nocturno
Pontos de luz em fogo preso
Que se escapam de fornalhas em movimento
Em fugaz rompante de silêncio eterno

Vagando no ocaso, por acasos sem descrição e ritmo
Sem a música que se mistura, veste a pele nua
Os gritos e os risos que rasgam as colinas
Sem horas que nos exilem os momentos que guardamos

Curioso céu nocturno
Torrente que se acalma, perdida na imensidão da nossa mão
Medo que nos consome, como dia soçobra todas as tardes
O beijo que já não larga e resiste, ante tudo

Curioso céu nocturno
Pontos de luz em fogo preso.

sexta-feira, agosto 26, 2005



Cárcere (escondido da luz)

Esconder a pele e os ossos
num sitio só deles,
E depois a fúria
Arranhando qualquer coisa como a alma
Dorida, em sangue salpicado de cores indeléveis,
Recortando figuras e silhuetas nas sombras das palavras,
Indistintas, intransponíveis, inexplicáveis
Como acidentes felizes do acaso, à espera de acontecer,
Murmurando canções alheias, de sonora lascívia,
Decapitando as agulhas do vinil, trilhando mãos demasiado pequenas para este mundo,
Com êxtase inexplicável e sádico.

Não te podes esconder de mim.

quinta-feira, agosto 18, 2005


Deixa entrar o jazz


No passeio que acompanha o mar
O dia suspende-se em melancolia,
Perdido numa atmosfera de surdinas,
Uma sensação de eterno retorno,
Música de um tempo ausente
Cola-se à pele como o inevitável balançar das ondas,
Aspirando a um contacto leve com o mundo.

Oiço-te aqui e agora,
De olhos içados ao som profundo,
Voando centelhas de paixão e música de solstícios.

Deixa entrar o jazz,
Em sucessivas vagas,
Expondo as entranhas de um coração amordaçado,
Libertando os relicários de demónios que conservas
Como amuletos de má sorte.

Afinal, oiço-te aqui e agora.
Como sempre.

terça-feira, agosto 09, 2005


Je fais de toi mon desire

O desejo é cor dorida e noctívaga
Coisa de minúcias e murmúrios
Que se espreguiça no amainar da manhã,
Sorrindo das memórias longínquas de ontem
Assumindo formas invulgares e inesperadas
Reflectidas como sombras perdidas no escuro
Ouvindo-se como um grito arrancado de uma paixão furiosa
Afundar-se numa boca de metro qualquer,
Insinuando-se nas esquinas mal escondidas da penumbra.

Faço de ti o meu desejo egoísta de amar sem limites,
Amordaçar gemidos de prazer,
Guardá-los só para mim
E ardendo-me as asas, subir às nuvens.

quinta-feira, julho 21, 2005


Braços nus à janela


A noite vem morna e livre,
Jorrando versos e odor a água amansada.

Deixa-te ficar por aí,
Onde te veja, onde me oiças.

Não durmo...

A distância é um veneno alucinogénico,
Morte lenta e dissimulada,
Fulminando o coração que ainda vive,
Recuperando o que se perdeu, que se esvaiu em silêncio,
Aconchegando-se em papel amarelecido contorcido,
Ardendo.

sexta-feira, julho 01, 2005



As palavras (intransponíveis como a tempestade)

Nada mais toca do que as palavras que se acercam de ti,
Coloridas,
O azul com que a solidão desfeita nos pinta.
Não te importes que não me abracem,
Sou intransponível como a tempestade diluindo-se na cidade,
Sem horas, libertina.
Qualquer noite será melhor para nos afastarmos
E não pararmos de nos olhar a esta luz.
Quero-te sempre sem o peso da eternidade,
Mas podes rir enquanto a terra girar sem avareza ou falta de amparo
Na imensidão do vazio,
Á procura de quem faça amor em qualquer terraço de onde se possam ver as nuvens e o céu, como nós.
Nada está escrito que nos impeça de parar de escrever a nossa história,
De viver nas sombras que deixam marcas nos nossos olhos,
Fechados mas atentos.
Os braços de luz e beijos que nos recolhem na paz de uma casa aberta à manhã,
Humedecem-nos, como nunca se ouvira cantar...
E as palavras pousam, indeléveis na poeira das janelas.

sexta-feira, junho 17, 2005


Amantes

Na deserta manhã da cidade,
Abandono-me ao desejo que escorre sobre ti,
Gemidos expulsos no que não se disse
Por palavras,
Limpo o esquecimento da noite,
Agarrando o que parecia querer escapar .

A boca...

Frases e sentidos serenados no peito,
Sublimadas no desejo de possuir sem rodeios,
A carne que abraçamos, tremendo...

A tua boca...
O denso travo salgado do corpo húmido,
Erguendo-se entorpecido,
Tropeçando no cansaço espreitando tímido...


As janelas revelam a nossa nudez perfumada.
Rimos...


*


“Um dia, enfim, só mais um dia
Para que possamos fazer amor livres
De outros compromissos
Até mais tarde, muito tarde
Até sublimes nos dissolvermos”


J. C Jerónimo, in “Só mais um dia”

quinta-feira, junho 02, 2005


Evadido

Desejo amotinado que se evade
Sem ruído, anónimo
Soprando a caliça presa nas unhas,
O amor suspenso na fúria cravada na tua muralha intransponível,
Em sangue expulso de feridas abertas sempre que é possível,
E que tu queiras
E que tu abras,
A malícia de saber que me prendes
Para que eu me solte
Vezes sem conta, as que te faço minha, por não seres
Nem tua.

Vento invernoso fustigante
Perdendo-se na demência de nada saber
Soçobrando,
Esvaindo-se no mar.

*

“Amei-te como um demente imanente
Num pedaço de lua,
Com uma flor de pudor lasciva
Cravada no meu sonho;
Fantasiei vidas sobre nós,
Cantei prantos de logro sem voz.”


Pedro Peralta in “Os Amantes Convexos”

sexta-feira, maio 20, 2005

Velas (enfunar)

Alongam-se as tardes reflectidas em ocre derretido
nas velas junto ao rio, altivas,
que não mais se recolhem
nem se dobram a qualquer sopro divino,
pontuando como proas orgulhosas
a pouca luz que ainda nos toca,
agitando-se no veludo das águas que não sossegam,
indo e vindo,
torrente incansável demorando diluir-se no sal que se aproxima.

quarta-feira, maio 11, 2005


Non si muova...

Almas cúmplices descortinando-se ao entardecer,
Mostrando-se em recantos de intimidade infinita,
Num jogo opiáceo de perpétua vigília,
Em movimentos de silêncio como fio de prumo

Cores magníficas sublimando-se,
Meias palavras crepitando,
O fragor de um dia maior, irrompendo debaixo de fogo
Queimando,
Corpos feridos da travessia, um escrevendo o outro
Como demónios à solta.

Naquela noite de Nápoles ouviu-se a mesma ópera
Um amor insurrecto, carnalidade absoluta,
Num pendor trágico e febril de um tremendo desejo,
Sem queixumes ou lamentos,
Apenas movimentos libertários, cintilando na penumbra.

segunda-feira, maio 09, 2005


As feras

Queimo por dentro em grave doçura,
Escondido na fresca claridade da multidão
Rugindo, ouvindo
As feras que habitam os nossos passos
Os risos vastos de uma fuga apressada do medo,
Do escuro da barra na fúria do inverno,
A pele irritada da poeira que nos cega.

sexta-feira, abril 29, 2005


O escuro da maré

Manto de algas errantes
Viajam altaneiras na crista, riscada a giz,
Imitam desenhos erráticos em ardósia líquida.

Os gritos ressoando nas paredes marginais,
O silêncio ecoando
Ameaçador sobre os vultos contrastantes na rocha,
Deitados num embalo esboroado e velho.

A angústia fustiga, perfura abaixo da pele,
Amacia as arestas da dor, em valsa lenta e triste.
O aguçado engano de medir o tempo em eternidade,
Engenhosa mentira, disfarce
Da dor cravada em arpão e ferrugem,
Surpresa.

A chaga aberta, para sempre inquinando as manhãs
Sempre que adormeço e acordo
Ouvindo o lento e escuro sonoro da maré,
Extinguindo-se sem brilho nas pedras,
Lambendo os pés sujos da cidade
Sem ruas e sem gente.
O tempo acaba quando morre o mar.

terça-feira, abril 26, 2005


Estio

O estio cola-se ao corpo ao som da rembetica em mais um Agosto febril longe de casa,
correndo os recortes mediterrânicos do Egeu, as madrugadas na tua língua acendida na proa do nosso espanto, como um farol onde começamos e acabamos.
Transpiramos ouzo à sombra da colina, descortinando a cidade imensa diluindo-se no calor do asfalto, presos na pele, em sufoco.
Luzem os corpos queimados, em sopro quente de verão nas ascendentes e descendentes de Kolonaki. Ombros descobertos, emudecidos no relento, escorrendo dos poros travo a fogo ateado, nuvens ardentes esfumando-se nos parapeitos, fluídas como vagas, como um dia qualquer, como sempre.
O mar ainda é longe e o ferry não espera por nós, para cortar o vento e as águas até às ilhas. Donos dos caminhos que serpenteiam, em sangue, como veneno, esperamos a brisa da tarde e o silêncio das cigarras, voando até nós como pássaros extraviados na quente planura de Atenas.

sexta-feira, abril 22, 2005


Pássaros (migração)

Esta dormente e insidiosa febre compassada,
Um perfeito bater de coração semanal,
Ritmada ânsia acompanhando o lento desenrolar das horas...

São talvez às dez horas os prenúncios de todas as sextas feiras.

Despida a pele dos medos e inseguranças,
Cumplicidades e mentiras tão narcóticas como os outros,
Pássaros sem lucidez
Migrando sem pouso do rio à cidade alta,
Sorvendo corpos em descoberta nudez citadina,
Na vertigem e delírio da exaustão nada acidental,
Breve fascinação furtiva.

Aproxima-se as manhãs arremessadas de véspera
E estamos já sem tempo antes delas.

segunda-feira, abril 18, 2005


Fotografia (música na casa)

Descobri a fotografia,
Imaginada,
deitada sobre a mesa,
esquecida a vontade que não me assiste,
adivinhando o tacto perdido, insensível,
a anca, a perna, esquecidas,
varrendo e mostrando as formas,
a tua boca húmida, prometendo
a travessia de um deserto no teu encalço.

A sala de água imensa,
amar em pele sobre a pedra,
em breve vertigem,
saliva e sal em desejo animal, cobrindo-te
em amarras fortes,
a voz atada num gemido fundo
sumindo-se na luz que nos atravessa sem pudor,
de vigia ao Porto dormente que desperta
no veludo do azulejo azul e branco,
quando finalmente a noite se recorta em foguetório,
acesos os corpos como um corpo qualquer,
flamejando com a música.

terça-feira, abril 12, 2005


Coisas da alma

Pássaros dormem ao vento
Ao som das águas costeiras,
Sussurrando palavras lúcidas, coisas da alma,
Nas alturas em que nos calamos como fantasmas
Com tempo para a solidão,
Sem silêncios incómodos,
Esperando apenas o fim da tarde.

Olhares outonais, seguem as voltas de um barco, sobre si mesmo,
Pensando e respirando como poucos,
Embriagados,
Ouvindo o deslumbramento, a cada nota cantada,
O som flutuante da maré subindo o cais,
Cobrindo a areia escura da margem.

A leve e insidiosa brisa do norte
Volteia e desfaz, em riscos, a planura do rio,
Mistura e espalha, cores e borboletas extraviadas,
Assinala a espuma que se esvai com a corrente,
Prega-nos as mãos, uma com outra, fixas
Na madeira podre e húmida do varandim,
De coração apertado, ansiando rebentar em fogo de fim de ano.

A luz escapa-se para as margens, renascendo,
Deixando-nos suspensos sobre a torrente que não se vê,
Acalmando, refreando a vontade de mais um beijo,
Olhos encontrando-se, brilhando...

As luzes na ponte dizem-nos que já escureceu.

Estranha manhã

(lá longe)

Estranha manhã aquela,
Quando o tempo mudou e as torres caíram
Sem o fascínio dos gestos teatrais
Numa vulnerável representação da aridez,
Uma alucinação promíscua,
Sem prefácio nem epílogo,
Subversão bizarra, sem sentido.

(aqui, tão perto)

A leveza grave da palavras, em desvario,
Perdendo-se nos jardins esquecidos
Abrem-se escancaradas, oferecendo-se,
Devorando-te sem quartel
Dedos de pó branco marcando os passos,
Implodindo, viscerais,
Escrita de seda, envolta em ti.

segunda-feira, abril 04, 2005


Alquimia

Amantes, abrigados debaixo do assombro,
Em surdina,
Acreditando em mais nada
Que o tempo esculpe-se no deslizar dos corpos,
Mármore alisado pelo toque, almejando
A poesia contaminada, subvertida
Em combustão lenta, deliciada, reinventando-se,
Alquimia de limalhas de ouro, soltando-se,
Libertando trechos de uma melodia,
De matizes escorreitas e ténues,
Risos feitos de bocados de céu,
Sem espaço às palavras.

Amantes, escondidos do medo,
Em silêncio,
Acreditando sobretudo na perda,
Que o arrepio seja ilusão, descuido,
Parando o tempo, mostrando a crueza,
A dureza fria da revelação, sentida,
O ouro mostrando-se pedra escura,
A paixão consumida, consumindo-se, apagando-se
A cinza espalhada com um sopro, desfeita
Sem rasto ou memória infame,
Esquecida.

Amantes, querendo,
Temendo o esquecimento.