terça-feira, março 29, 2005


Furor das noites cheias

As luzes que tremem ao fundo definem o horizonte,
Um esplendor acetinado em perpétuo furor,
Intermitente, entre a cadência da chuva e da poeira,
Como um latejo quebrado de emoção.

Um ofegante e voraz quarto crescente desvenda,
Revela, em contemplação ferida
O pontão desafiador,
Outrora escondido no rebentamento furioso, avassalador,
Agora em doce calma aportada, esquecendo a deriva
Como o vagar das marés baixas,
Deambulando em exíguas memórias, onde ardem suspiros.

No sufoco do turbilhão,
Fulminante e fulgurante,
A euforia lancinante de amar,
Que não acaba nem morre como um instante,
Foge à corrosão avassaladora do tempo.

A brisa lambe em arrepio a pele descoberta pela Lua,
Tocando as margens e os estilhaços de luz flutuantes,
Voando em euforia, nos risos soltos das noites cheias.

segunda-feira, março 28, 2005


O perfume e o incenso

Deixo de morder...
O áspero mordido dos lábios,
Fio de sangue escurecendo este remoto canto,
Lavando, sem enganos,
O espanto do vermelho faustoso do amor,
Baixando guardas aos meus medos,
Receios esconsos e soturnos, escapando-se,
Atordoados com o sopro do oceano,
Entornados com a luminosa manhã,
Clareando a lucidez perdida
Amargada pela borrasca.

O perfume e o incenso,
Descendo as cordas soltas do barco que parte,
Como aridez efémera brotando
Do firmamento que se completa,
Embrenha-se, dilui-se sem tempo
Em nós e nós no mundo.


*

"E eu tinha, finalmente, todo o tempo do mundo - talvez seja isso o amor."
António Mega Ferreira in “Amor”

quarta-feira, março 23, 2005


Almas Guerreiras

Uma chuva silenciosa de folhas outonais
Agita bailados guerreiros suspensos no ar,
Polvilhando a floresta cintilante,
Reacendendo a nossa errância,
Numa cadência pulsional,
Clarividente,
Vagabundeando nas mudanças que o mar desenha na cidade.

Cicatriz

O desafio maior...
Descobrir o rasto da dor,
A impressão em carne viva, de sangue e tatuagens,
De cicatrizes que as pontas dos dedos desenham no teu rosto...
Afectuosas preciosidades...
Que te mutilam e escondem,
Que fingem ser o que não são
E que se mostram,
Como caracteres vermelhos em papel branco,
Um sortilégio, uma inevitável condenação,
Difícil de esquecer.

Mas tudo se ilumina e renasce.
A água gira e corre, moldando o mundo,
Criando e inventando o nosso riso,
Esperando o suceder dos dias,
Expectantes,
Pela memória que ainda não temos,
Pelas margens que o rio ainda não tocou.

segunda-feira, março 21, 2005


Todas as tardes são inúteis.


Diluídos na intimidade da multidão,
Antes de respirar, suspirar as palavras,
Últimas, derradeiras,
Sorrindo...

Os inebriantes enganos que já conhecíamos,
Elevados, em olhos fechados, à memória,
Entregue e convocada em delírios,
Dos corpos reféns de volúpia,
Desmaiando de prazer, serenos,
Incandescentes e transbordantes,
Arrancados ao suor salgado da pele,
Somente respirando, no minuto seguinte à insensatez,
Em todas as horas que não me recordo,
Esperando-te no extremo do mundo,
Com hora marcada,
Na secreta esperança de naufragar,
Passo a passo, estremecendo,
Arrepiando caminho.

Mas, a sinceridade perdeu-se
Nas minhas palavras,
Julgando-as minhas e sinceras.

Invasores


A tempestade, única,
Conduz ao promontório,
Veloz e impaciente.

Todos os enganos são previsíveis,
Irresistíveis,
Quais mãos que nos conduzem,
Quentes e melosas,
Envolvendo, entorpecendo.

A anestesia da calma,
Canto de sereia magicamente administrado,
A atracção da tormenta,
O medo do naufrágio,
Lento afogamento nas águas revoltas, em fúria,
Na culpa, censura.

E o mundo das sombras,
Incontrolável,
Selvajaria da alegria despoletada,
Ebulição estonteante ,
Fustiga-nos
De risos bárbaros implacáveis,
Invasores, taciturnos
Vertendo memórias...


A terra treme debaixo dos pés,
Esbatendo a respiração,
Sem alma, consciente.

O inferno são os outros...

sexta-feira, março 18, 2005


Sopro da quietude

Nesta noite, escrevo e esqueço, na areia que suja o terraço, as palavras que quero ver escritas na vida que se extingue ao fundo e, nos teus olhos, sem chama ou marca brilhante, distinguindo a ressonância dos risos distantes no tempo, lambendo as feridas de unhas e mãos tenazes no braço na hora de sair, a culpa que se agarra às desculpas e ao arrependimento de te ter aqui e perder-te sem nada dizer.
O silêncio acompanha-te, intencionalmente, disfarçando o eco das escadas de mármore, abrindo-se a mim o espanto e o flanco à tua ignorância quanto à minha existência.
Apenas o silêncio ensurdece a ausência de ímpeto, soçobrando a raiva perante o crepúsculo, rasgando o céu, daqui ao horizonte.
No silêncio compreendi que já não te ouvia e já ria da raiva e pouco nexo com que subias as escadas. Já fazia sentido a tua falta de sentidos.
Ai, o mundo lá fora... Jaz amarelecido no canto dos livros, onde o gato se aninha, rasgando os periódicos sem hesitar. A cidade continua indiferente a nós. É apenas silêncio, rápido e avassalador, tortuoso e frio, ferindo-me fundo, gritando, magoado e soprando a calma de antes e que não voltaria mais.
Já nem sei se Lisboa ainda tem telhados, porque não me dizes, nem o que eu quero ouvir. Tiraste-me a voz, como o sol deixou de aquecer o meu pátio, tapado por um silo branco e devorador.
*
Nem me apercebi de que entretanto saíras. Em surdina, não bateste a porta. Não tinhas moedas no bolso nem saltos altos e ninguém te cumprimentou.
No mais puro dos silêncios deixaste-me à demente e lacónica ausência de nada saber. Vil e perversa, não me disseste como vai o mundo lá fora.

*
“Noites em que tuas mãos aliadas,
Como que em prece
Far-me-ão cerrar os olhos
Por um breve instante...
E eu deixarei sair de meus pulmões
O sopro da quietude.”
Carlos Feitosa Tesch in “Nesta noite...em todas as noites”.

Profecia

A loucura escreve melhor,
Insinua-se suavemente na alma,
Em travos de surpresa a cada esquina,
Sem pompa embasbacada,
Ensaiando irreverentes coreografias
Em fúria e solidão tumultuosa,
Povoando a penumbra onde a luz se condensa num rumor,
Como um piano dissimulado num canto recôndito,
Onde a tragédia é mais indiferente e fascinante,
Onde cheira a ausência e demência
E a obsessão que se entranha,
Condenam-se,
Num incestuoso medo de se amar a si própria.

quinta-feira, março 17, 2005


Manhã de Veludo

Carmin e seda
Cai como veludo
Na chuva da manhã
Inesperada
Pronunciando as formas
As curvas da calçada
Ocultas com embaraço
Velado
Mas com espanto
Do Carmo e a Trindade
Caindo a seus pés
Corando
Como maçãs flutuantes
Que não trinco
Não quero desfazer o modelo
Nem apagar os holofotes
Que iluminam teu andar
Flamejante e incandescente
Tal fogo de Agosto
Consumindo o mundo
À sua passagem.

sexta-feira, março 04, 2005


Ouvi-te, à noite

dar sentido ao imenso vazio
lá dentro, fico à espera de nós
oportunidade rara e audácia
repousar nos cambiantes da voz

não evito um trago de desilusão
de nascer à flor da pele
ausentando-se um suspiro no escuro
como um piano na escuridão

falar do meu mundo, respirar
voo rasante de melancolia
delírio febril alimentando-se de si próprio
transgredir, sentir a tua voz descarnar

errância e desacerto dos passos
as árvores que fogem na janela
esbanjamento e desvarío
tu falas, preversa, da consciência dos teus traços

arrojada e vil proeza
a vassalagem ao momento
a sonoridade livre e consciente de ouvir
que me amas, mas sem certeza.
que me prendes e lapidas
com crueza.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005


Dream on

Já não há azul como o teu
as luzes que cintilam e riem como tu,
as pernas insidiosas, o ombro esculpido pelo mar,

inocentes os dias em que te vejo assim,
sem querer, sem desejar parar, sem ti...
Sem ti é que não é nada, o vazio que me assusta
o desamparo de não ter mar.

Mesmo tremendo, no frio que me afronta,
e eu não desisto, espero assim mesmo que saias da loja.

Não fosse Dezembro e seria diferente,
escolhia as palavras que tens escritas nos olhos,
minuciosamente escolhidas e ditas,

que a Rua Augusta é o S. Carlos da tua ópera
e o Natal é tão bom para me declarar como o Verão.

Que palavras?

Aquelas,
aquelas com que sonho e não te vejo,
mas sei que estás lá.

Esquinas

Pelas esquinas de lioz passam os mundos em contemplação,
Nas noites longas de alívio pelo fim do inverno,
Desenhando pegadas nas paredes pintadas ainda ontem,
Como que escamando as capas da cidade,
Tão ínsitas como a alegria que trazemos dentro,
Que se dilui na monotonia do suceder das estações,
Cada vez menos previsível e aliciante,
Como se já não fosse excitante roubar um beijo,
Em surdina, nas escadas do teu prédio sem luz.

Nas margens da nossa esquina
Onde confluem e se separam o negro das tuas palavras
Tão amargas quanto doces são os olhos como ainda te vejo,
Não há brisa de verão nem chuva de inverno,
Nem voltam as noites em que ríamos “porque sim”,
Sem gostarmos ainda mais de sermos químicos como nunca,
Como se o riso tivesse de ser omnipresente na nossa alegria,
Como se não notássemos que o riso sempre presente nos sufocava,
Que nos tornámos dormentes ao nascer do sol,
Que nos tornámos ausentes das manhãs junto ao rio,
Que nos amamos sem termos noção um do outro,
Que, sabendo isso, já não sabíamos rir de outra forma.

E tudo porque te apaixonaste pela madrugada,
Esquecendo que eu voltara para trás,
Numa manhã em que não esperei pela manhã,
E não dobrei a esquina contigo.

sexta-feira, novembro 19, 2004


Abandono

“Não há neste céu enegrecido
a quem entrego a alma perdida
vestígios do teu olhar
sereno farol gotejando de luz”


Sérgio Freitas in Inquitude

Seduz-me a saudade insana
de à primeira vista
morrer por uma canção,
intensamente, rapidamente.

Ela mesma,
num abandono sensual
de falsa leveza e candura,
como um fado qualquer,
chorando a arte do desencanto
numa carta tardia.

Dois momentos coincidem na mesma noite
sozinhos como eu, deslizando a colina
ao fundo do aborrecimento
em grande estardalhaço,
sem disponibilidade para surpresa e o desvio...
Como dantes,
fingindo amar, cantando às cegas sem escutar,
e sem pressas de ver que há mais barcos que já não chegam a Lisboa.

Tudo se resume a pouco...
À câmara muito lenta do teu adeus,
Espreitando o mundo que começava
Entre duas silhuetas na madrugada,
A dois golpes certeiros dos dias seguintes...

Em puro afastamento....

Ouve a cidade



I
Escutar o som, o murmúrio do silêncio da água, o rio acariciando a pele de pedra branca, em vela, ao vento. Os gritos de calma na multidão, sobre as árvores, de ferro e vidro, que reluzem, adornadas em reflexos opacos como silhuetas de cidadelas iluminando a água, tremendo, cantando, aceitando o fado, o inverno esperando o verão. Descer a calçada com a manhã, escondendo o cansaço e a luxúria, proibida, pecado originalmente inventado entre o caos do rumor e movimento nas avenidas, correndo para abraçar as risos ao alto, crescendo como fogo de artifício, zunindo em carris de ferro feitos teias

II
Cheira a mar. Respiras suavemente, ondulando a pele ao mínimo toque. Atiro uma pedra e os meus dedos tocam-te três vezes no corpo, até caírem na tua boca, depois de outra onda. Salpicos de poesia murmurados ao ouvido, indo e vindo, enchendo a maré, transbordando amor ou outra coisa tão boa como esta, de estar aqui, contigo. Sinto o cheiro do cais subir a rua, do horizonte até aqui, onde está o teu perfume, o aroma dos teus olhos. Uma investida sobre ti e as gaivotas voam rasando a água, ameaçando pousar, insinuando, finjo beijar-te desinteressadamente.
Do mar aqui, de ti a mim, uma avenida marginal, tapada por casas, por roupa que queremos arrancar, que impede o vento de circular, a nós de respirar. O sol aquece-te, junto a mim, enrolados numa manta, na névoa que se levanta, no ecoar dos passos, das batidas do coração incontidas e descontroladas, lançando sangue na rua como alma nas veias..
Assim como um estranho, vindo do outro lado da rua, cheguei à tua margem convidando-me a entrar, sem saber o teu nome. A tua casa, branca, cheira a mar, a tua alma ocre, pele ousada, colou-me aos olhos tristes por nada. Enrolados na cama, nos ferros da tua varanda, esperando que me perdesse, deixei-me dominar. Entreguei-me para que fosses minha. Nem com a manhã deixaria de ser teu.

Aguaceiros



O empedrado gasto da rua reflecte os primeiros aguaceiros deste Inverno,
fechamos os olhos e corremos a rua sem ver os semáforos, como se por um acaso, a chuva já não nos tocasse.
O correr lento da avenida muito pouco marginal, onde o rio já não se vê entre o amontoado de contentores, de dormência inultrapassável, adia mais um dia que não pode ser adiado.
E tu, como o mar que não vejo há meses, um verão que para mim há muito passou, desenhas a tua ausência na condensação do vidro, refazendo a imagem do mundo longínquo que ainda há pouco tive na mão.
Um longo Inverno de Agosto, implacavelmente segurando-me por dentro, conduzindo-me ao que insisto não aceitar e ao que tu insistes em procurar.
A inevitabilidade de todos os dias cortar a crueza das ondas, tentando adiar um dia que não pode ser adiado e pisar esta cidade que apenas vejo de longe, à distância de uma janela aberta sobre um dia de sol.
Vem comigo, vamos sair agora, aqui, para lugar nenhum, finalmente entrar na cidade dos dias que têm de acontecer todos os dias e traçar a nossa rota de pretensa rebeldia, entre as pedras soltas do passeio e os destroços da beira-rio.
*
A maré baixa da doca deserta escondia o rumor da avenida atrás dos armazéns e o dia sempre adiado abriu-se com os primeiros raios de sol de que me lembrava.

Gato e rato


Em cubos, o açúcar desfaz-se como água ráz violeta no céu e ao fundo do corredor, vermelho - sem intenções óbvias – a divina cumplicidade de Deus e o Diabo num corpo só, rindo e corando, sem nesgas de penas ou provações, rebola-se numa aparente simplicidade e inocência da minha cama.
Do sofá de veludo azul apenas vejo uma nesga de pecado, aquela que me concedeste, afastando censuras por patente gozo depravado e voyer, que não me permitirias ter.
Por mim gatinharia pelo chão de madeira envernizada, duplicando no reflexo o meu divertimento, partindo para conquistar, novamente, esses domínios que insistes reclamar como inexplorados.
Dizes, sem levantar a voz, que não devo sair de onde estou. Aceno que sim, concordando, apesar de não me veres e continuo a beber o meu café, adivinhando o que não irás fazer.
A luz já não entra na janela, o relógio marca a mesma hora há cinco horas, numa em que arrancaste a ficha da parede, em cada dia desta semana, ultrapassando os limites do cansaço e da agonia do excesso do prazer, como casas de veludo e talha dourada, em cada ínfimo ponto que pudesse ser preenchido.
A chávena de café já transbordava, como eu, preenchido de antecipação, estupidamente, ou inteligentemente, como um jogo. Sabia perfeitamente onde tudo iria acabar, e lembrando como era, fazia por esquecer, extasiado por surpresas melhoradas, sempre que as mesmas aconteciam.
A musica apareceu, sem que desse por isso, mas encostou-se a mim como um gato, ronronando. “Quiereme” da Núria Fergó não era bem o que eu queria, mas nada como salero de fim de tarde num quinto andar da Sétima Colina.
“Quiereme, como se quiere por primeira vez, quiéreme, quiéreme para lo resto de la vida.......” e por aí adiante, percorrendo o corredor, sem parar, pisando tudo o que atiraste pelos curtos intervalos em que abrias a porta, rindo, sorrindo, provocando, com saídas esporádicas e rápidas, como um jogo de gato e rato que sempre gostei de jogar contigo, desprevenido, à mercê da tua militante loucura, nada virginal, sem tremores de primeira vez, onde eu podia ser rato e gato, conforme o momento e a disposição. Mas gostavas de ser gato de vestido curto, fosse em Paris, Praga ou Atenas, nunca em Nápoles, Nice ou Barcelona. O teu estranho e excitante fetiche da proximidade ao poder não nos deixava dormir numa cidade que não fosse capital, num quarto com janela com vista para o poder.
Fechada no quarto, matando-me de antecipação, sabias que esperaria o tempo eu fosse preciso, sabias que não eram perdidas as horas de preliminares, em que, invariavelmente, chegarias sem que eu ouvisse, tirando-me o cigarro da boca, fechando a janela sobre o Palácio de S. Bento, já iluminado.

Perfurando a tua ausência


A casa há muito que está fechada. Os passos há muito deixaram de se ouvir e gastar o soalho do alpendre, vestido de folhas secas e ramos abandonados do velho castanheiro que teima em crescer no jardim.
Encostado ao carro, espero uns momentos para admirar a ausência de vida no penhasco, para ganhar coragem e atravessar o o caminho de ciprestes até à clareira defronte da porta, que sei que não tentar sequer abrir.
Pedi-te para ficar e esperar fora dos domínios do que queria esquecer. Compreendeste, como sempre. E aceitaste.
O barulho da porta do carro assusta os pássaros nas árvores e ecoa pelas falésias até ao meu peito, batendo ao ritmo dos sapatos esmagando tufos de erva seca, da chave rodando na ferrugem do portão, denunciando que há muito teria sido deixado aberto.
O barulho do mar tornava-se perceptível e presente, ao fundo do pinhal frio atravessando a fina camisola de malha que trazia, não sei bem porquê e agora não me lembro, porque me esqueci que saberia que assim seria.
Desde há umas semanas que não conseguia dormir e a tua presença era demasiado constante para que pudesse levar uma vida normal, sem suores frios, sem ataques de ansiedade, sem pressa para saborear o meu café ao fim da tarde lá na avenida. Pensava que tudo tinha sido enterrado aqui, que aqui tudo tinha sido discutido e resolvido, que fechando a porta da nossa casa, deixava as minhas inseguranças seguramente presas longe do meu precário equilíbrio, continuamente devassado.
Passei ao largo alpendre, dos canteiros de rosas dominados por ervas e mato e procurei as escadas da falésia no meio das silvas, tentando lembrar-me do sítio onde nos vimos pela última vez, algumas semanas, meses atrás, já não sei.
Descobri a velha passadeira de madeira que nos levava ao miradouro e à casa de inverno, onde observávamos e admirávamos o forte mar de inverno, comendo a areia, deformando a praia. È o lugar que melhor me recordo de estar contigo, os dois a sós, a última, onde me pediste em casamento, eliminado de vez a minha vontade de amar em liberdade.
O cheiro a abandono era intenso e insuportável, mas garantia-me que ainda poderias lá estar, que permaneceste presa ao que era nosso, libertando-me para construir o que era meu, talvez obrigando-me a fugir para outra prisão, não sei. Queria apenas assegurar que a tua presença não me teria seguido para onde fui.
A porta estava aberta, mas ao fundo da sala, junto à lareira, estavas lá. Ainda estavas lá. Apesar de tudo sempre altiva e arrogante, mas continuavas como quando te deixei. Sofrendo, clamando perdão, aceitando os fracassos e a inglória luta para me destruir. Nada que que não se resolvesse perfurando o teu orgulho até à ausência de coração, o que, curiosamente, também sangra, dói e mata.
E matou na perfeição, sem falhar, como uma ciência exacta, embora de variáveis incertas e muito indeterminadas, quase improváveis, como o facto de continuares imóvel, na mesma posição, mãos sobre o peito, de camisa tingida, entre a lareira e o sofá, rodeada de bichos e decomposta sem tréguas. Provocaria enjoos, não fosse a satisfação de ver que o meu passado estava morto e decomposto, como que por magia.
A gasolina ainda estava ao teu lado, mas na altura não julguei mereceres a purificação da chama nem pretendia alertar os espíritos à solta na praia nesse Verão.
Receando ter de te ver aqui, ou todos os dias quando acordava ou dormia, lancei-te o fogo, não para te purificar mas para te castigar, para queimar qualquer possibilidade de dignidade que pudesse ainda residir em ti. Assim mesmo, sem perdão, tão facilmente como ignorar o que não sabemos.
Muito devagar, mãos nos bolsos, subi as escadas, atravessei o jardim sem olhar para a casa, fitando o carro ao fundo da alameda descuidada e vazia.
Ainda esperavas por mim, embora ja cá fora, fumando compulsivamente. Se bem te conhecia, não era o primeiro cigarro.
Beijei-te sofregamente, inesperadamente, mas gostaste. Sem medos, sem estigmas, apenas amando, abri-te a camisa, as calças, exibi-te a minha excitação, a minha vontade e encostei-te ao carro, amando-te, rindo, libertando gritos em liberdade, por longos momentos sem tempo.
Abriste-te os olhos e a tua boca desenhou as palavras que me voltariam a matar, a morrer por dentro, a desejar nunca ter amado.
- Queres casar comigo? Disseste chorando de alegria.
Foram as últimas palavras que ouvi da tua boca, antes de te ver desaparecer e soçobrar diante mim, horrorizada com o mal que me infligiste, com a tua crueldade fria e com a faca que perfurei a tua ausência de coração.

sexta-feira, agosto 06, 2004


O fogo onde todo o vento sopra





Mal ouvia o ruído da fogueira
Crescendo na meia noite do areal
Consumindo memórias do inverno em Agosto
Em sons esparsos e sem barreiras

Tu na praia
Em todas as cores
Como um relicário admirável
De desalinhada sabedoria e devoção
Fingindo minúcias
Sem vincos nem loucura
De movimentos contidos, odores intrínsecos e carnais

O meu fetiche do fogo querendo fugir
A curiosidade infantil de querer queimar-se
E rir-me da paixão
Inflamada e descontrolada
Como um incêndio de verão sem remédio
Onde todo o vento sopra.

quarta-feira, agosto 04, 2004


Tocando-me nos lábios

“A vida em certos dias não tinha a forma daquele objecto antigo
Tocando-me nos lábios com calor excessivo”
Gastão Cruz in Repercussão


Vamos fazê-lo...

Um desafio nocturno inconformado,
Qual insurreição anárquica e indomável
Soprada em palavras incoerentes, não depuradas
Suando cada riso,
Cada cabelo desgrenhado,
Blasfemando as cicatrizes assombradas
Afastando inquietação e ruído
Numa imparável calma singular
Deixar pairar o tempo como uma tragédia suspirada,
Deixar acirrar a nossa veia incendiária

E depois, rir...

Isso seria estranho,
Ser feliz em quase choro,
Adorar as nossas coisas,
Depreciá-las e ansiá-las, como antes
As coisas indeléveis capazes de mudar o mundo.

O amor mora ao lado,
De cristal imutável, valioso
Sempre esperando ser empurrado
Desajustado na razão,
Inflamado na emoção.


Sem palavras

“E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção”
Álvaro de Campos

Ainda sangra e espanta
A vida tornou-se só e mais simples
Como a casa, sem quadros
As cicatrizes que eu mesmo abri
Esquecendo-me que te esqueci
No momento que passámos a ecos
E as palavras também
Que nunca mais se ouviram
Deixaram de voar com as gaivotas até ao rio
Ao fundo
Perdidas na monotonia do giro lento dos guindastes.

O Canto da água (eterno)

(a Carlos Paredes)


O abandono é difícil
como um convite ao amor e à poesia
numa súbita tarde de verão.

Sobre o fundo dançam as palavras
de pessoas que não se encontram mais
num desejo de que nada acabe nunca
experimentando memórias e a perversidade dos limites.

Uma espécie de queixume que se calou
num jardim perto de casa
num cantar lancinante de palavras difíceis
indecifrável e difícil
como a pureza da tempestade.

A aparente leveza de viver
desde sempre empoleirado na eternidade
vivendo na claridade da água
e da música que ela faz

quarta-feira, julho 07, 2004


A calma de antes

Solto frágil e insano.
Sobre as cinzas do silêncio e do embraraço.
A cobiça de vários pecados
De mitos e ideias escritos à mão.

Encontro sobre a chuva torrencial
Os últimos degraus de sombra entediante
De luz escoando-se no cansaço:
De te ver e te querer
De te querer e não te ter
De mais desejar...além de ti.

Antes da porta que se fecha com força,
Tocando seguro o ímpeto de amar no último dia do mundo
Bocejo...

A calma de antes...

Cantado em italiano

Passou a rápida busca de caminhos,
Os dias e as deambulações são outros:
Refúgio e abandono
Sem luminosas errâncias
Tentando voar com uma só asa
Sobre um jardim de urtigas
Sem a grandeza do mar aberto...

Último dia do mediterrâneo

Só à primeira vista estranha,
A lucidez demente de um elogio funebre,
Ecoando na nudez do espaço vazio
Do meu corpo desamparado,
Onde tudo o resto é silêncio

A dor arpoada no peito,
Um Dó menor do mundo que acaba,
Esperando um pôr do sol eterno que incendeie por dentro.

É um acto de fé aceitar a morte,
Como que uma redenção preversa à crueldade:
De desaparecer num dia como este, sem brilho, sem luz,
Sem nada para fazer, admirando a tristeza do verão,
As águas estivais descendo pela janela,
Acordando o inverno.

Adormecer,
Sem a ansiedade de ser poeta.

Sem pressas

“O momento perfeito para Deus é aquele em que cada pessoa compreende que não precisa de Deus”
Donald Walsch


O beco não tem saída
mas a mão solta inabalável o incenso
em redor da memória
como notas de música tibuteantes
a alquimia em slow motion de eucalipto
misturando-se no ar das colinas suspensas
em paz.
O silêncio do instinto para amar
como o inquietante redizer de uma palavra
estranhando e entranhando a intimidade
suspensa com a respiração
junto ao mar.

O mar que se adivinha

“(..)és o corpo a que voltar
será talvez como morrer no mar”
Gastão Cruz, “Repercussão”


Fogem as sombras e os risos no estio interminável do sul
O suor e as curvas que luz desenha
Em finas e intermitentes linhas de horizonte
O mar que se adivinha na aridez de palavras
No reflexo dos lábios humedecidos outra vez
O testemunho silencioso de um tronco solitário
Marcando a diferença da ausência dela
De súbito avistada como um beijo roubado
E gralhas rasando as rochas e as searas
Olhos desamparados no rompante de botões saltando
Pele sobre pele
As marcas da terra no corpo que descansa atordoado
O vento que toca como água
Lavando o embaraço dos calores
Escorrendo e logo secando
Na estepe alentejana.

A noite que foge encontra abrigo em ti

A noite que foge em silêncio encontra abrigo em ti
Aninhada nas ténues esperanças de regressar
Ao mundo das vozes e mentiras que teimo em não ignorar
Neste dia que nunca acabou
Mesmo quando tudo havia terminado ao arrepio do acordado
O sabor da laranja amarga que trazes nos lábios
Recorda a acidez que havíamos esquecido
De cada vez que falávamos
De nós
No calor das intermináveis noites de Verão
Que já não era o mesmo
Porque mais intenso
Sem risos de água corrente
Esquecida a limpidez dos sentimentos
A sinceridade das palavras fulgurantes inventadas
Preenchendo silêncios e venenos sem antídoto
Nesta separação que inventámos e desejámos
Apagando os dias transformados em noites
Adivinhando as tuas horas e as minhas
Debruçados na varanda dos dois lados da rua
Olhando um para o outro.

sexta-feira, abril 16, 2004


Puro como a mortalidade



Um pouco por todo o lado
Um catálogo suculento de ácidos e lúcidos
De mau sexo e boa bebida
Onde os sóbrios ocultam a perplexibilidade
Dos risos embebidos em pequenos instantes
Cheirando rastos de estima
Crescendo da escuridão para luz
A memória dos dias e o pavor da noite
Ouvindo vozes murmuradas de amores em luz difusa
Rugindo puras como a mortalidade...


“(...)Há em cada instante uma noite sacrificada ao pavor e à alegria(...)”
in Lugar de Herberto Hélder

O eco dos teus passos



A caligrafia estampada em folhas encarquilhadas,
Riscando o mar como cal desfeita na parede esboroada,
Abrindo cicatrizes, salivando,
É poesia que não se contende numa prosa de dias.

Num riso cortado, sem pressa nem lâmina,
Perdendo sangue que alastra e escorre
no esplendor dormente do meio dia de Marraquexe
Que permanece e sucumbe ao fogo da tarde
Escondendo, comendo a tinta do papel.

A sangria tempestuosa e ribombante dos teus passos,
Num furor desonesto e erótico,
Correndo sem escutar o eco da medina,
Deixando-me ao escuro sono da solidão,
Decepando sem misericórdia as cores que nos cobriam,

Mais uma vez ofuscado pela imensa luz transbordante do deserto...

Ao fundo da rua, desde sempre,
como uma promessa

Gotas suspensas sobre a água


O fulcro da harmonia está em cada miligrama de música,
Num ruído telefónico desde Buenos Aires
Ou na inércia aflitiva de uma gota suspensa
Movendo-se como o Inverno,
Errática, cristalina e suja.

Estranho é o mundo da solidão habitada,
Completo de fantasmas escondidos,
Esperando cumprir tarefas
Em tempo lento, esboroando-se rarefeito,
Perto da alucinação.

Esperava algo mais explícito,
Existir para sempre sem mostrar o que está escondido
Como um pesadelo de loucos
Numa enervada disputa pelo nome das coisas
Coleccionando rasuras, resíduos e ruídos de melodias lunares.

E o tempo demorava a revelar-se para nós,
Que nos olhávamos haviam não sei quantas horas,
Lutando e vacilando pela primeira desistência e derrota,
Pelo saque dos sentimentos que teimávamos em defender deste cerco.

Chovia copiosamente e era Verão em Buenos Aires.
Outros tempos os nossos.

terça-feira, abril 06, 2004

OUTROS AUTORES

Música numas escadas
por Pedro Rapoula



Sento-me numa qualquer rua do Chiado.
À volta
as pessoas passam indiferentes à minha presença
à minha solidão.
Sentei-me porque um músico toca guitarra
sem perceber
que me atinge fundo,
muito fundo.
A música penetra-me
e eu fico sem saber exactamente onde estou,
se em Lisboa,
se numa qualquer rua
de uma qualquer cidade…

Agora parou.

Fuma um charro
com dois miúdos que também já o escutam
há algum tempo.
O silêncio de volta à rua devolve-me alguma lucidez.
Volto a perceber que estou em Lisboa,
que estou sozinho,
que tu partiste
e que a vida se reorganizará na tua ausência.
Conversam agora animadamente
enquanto partilham o tal charro.
Tenho vontade de me juntar a eles,
a fumar algo que me faça esquecer a minha dor.
O vinho que bebi ao almoço começa a perder o seu efeito
e eu não quero estar sóbrio.
Há demasiado sol e
é demasiado cedo
para ficar consciente.
É na minha consciência que me torturas.
É na minha consciência que a tua falta dói mais,
a segurares-me,
a compores-me,
a insistires para que fosse sério ,
adulto,
bem comportado.

Recomeçaram a tocar.

Quero voar nesta música.
Quero sentir que não estou de facto aqui,
que posso estar em qualquer lugar.
Quero fugir de ti,
de mim,
de tudo o que me prende ao nosso mundo.
Quero estar só,
ficar só,
dormir só,
mas morro de medo da minha solidão.
Morro de medo da tua saudade…
Quero viver sem ti
e não sei.
Quero respirar fundo
e serenar
por te saber ausente,
como se esta tua ausência não me fosse destruindo por dentro.

A música continua a percorrer-me.

Sinto-me assustado.
São ritmos quentes,
que me atiram à cara as recordações de ti,
que me transportam aos teus pés.
Ouço o rio a correr,
lá longe,
e de súbito,
os minutos passam por mim
com indiferença,
como se o meu sofrimento pouco importasse.

Estou cansado.
Quero viver sem ti e não posso.
Quero possuir-te e odeio-te.
Quero tocar-te e não suporto ver-te.




e o mundo acabou
por Pedro Peralta



E o mundo acabou. Sobram as páginas pisadas, as páginas escritas, as páginas deixadas, as páginas em branco. E o mundo acabou, e sobrou um pouco dessa poesia moribunda na praia do teu olhar, ficaram essas palavras errantes que soletras e vives sem pensar, sem sentir.

Quando o fim acontece o começar rejuvenesce. As cinzas, as cinzas e o caos, as sílabas perdidas, os amores deixados, a saudade que virá nos amores deixados.
Ao começar, em cada novo começar, o fim não existe. Começar é ser criança, é ter a infância em cada gesto, na brandura de cada movimento, é ter tudo de tudo, é despertar, despertar e sentir como bom é com o paladar adornar a aurora, é tomar a brisa fresca pela mão e dançar até o sol nunca se pôr, é saber que o fim não existe. O fim não existe, sussurrei eu de mim para mim ao saber-me não criança. E fim não existe, o começar é que rejuvenesce... Ah... O começar é que apetece!

Estas linhas,
O rio que nelas corre, o rio que delas corre e desagua num rio que é a paisagem dele mesmo, um rio que corre e é maior que o mar que o faz, que o mundo que o é.
As palavras e os barquinhos, as palavras como barquinhos a flutuarem no pensamento e a naufragarem na Poesia, nos poemas onde nasce o nascer, as afundarem-se eternamente nas páginas destas linhas.

Que o fim não traga as lágrimas por o ser, que reste uma melodia de sempre nesse teu sorriso de Outono e primavera, e primavera.
As pétalas das flores dos campos que se perdem no longe do horizonte infinito a voarem e a florirem novos campos e novas flores, e flores, e flores; As palavras que teço a marcarem o compasso de uma canção que compus para te olhar pela ultima vez e gritar-te até amanhã, para te olhar PELA ULTÍMA VEZ E GITAR-TE ATÉ AMANHÃ.

Este sorriso que me invade
E inunda os olhos: que ele me possua para sempre, para eternamente sempre.
Adormece nas linhas que te ofereço mar/caderno/paixão. Vive, Voa,
Até amanhã, ATÉ MANHÃ!
As tuas asas: o infinito, o infinito, O INFINITO: és eterno.


Filho
por Pedro Guilherme-Moreira




A mão dele ainda cabe aberta
Na minha mão fechada.
No dia em que não couber,
vou em busca do abraço
que encerre em mim uma volta.
O olhos dele ainda brilham
nas frestas do olhar do pai.
No dia em que não brilharem,
buscarei em mim o véu
que lhe devolva o horizonte.
E os seus ouvidos vibram,
desaguando os meus passos.
No dia em que não vibrarem,
vou em busca do silêncio
que me deixe ouvir os seus.
Enfim, um dia, o meu filho,
não vai querer um beijo meu
à porta da sua escola.
Nesse dia, a ternura
que docemente traduz
a violência pura
do amor,
vai sentar-se na mão,
a mesma mão
que em si lhe fechava a sua,
e descansar
sobre o seu ombro,
calada.
Se ao menos nesse dia ele deixasse
fechar sobre si o abraço...



sexta-feira, março 26, 2004


A noite ardendo

Hoje já não posso ser assim.
Demasiado avesso à melancolia,
Nunca dizer nunca,
Sentir o que de nós se espera.

Outras memórias vêm à tona,
Perdidas em movimentos redundantes
Resplandecendo na obscuridade intensa:

O jazz polido da tua voz,
Uma comédia de algo que se intromete e arrebata
A noite ardendo só, deflagrando risos
Celebrando euforia.

Magnífica respiração ofegante,
A invejável simplicidade da respiração
Cruzar sopros inconciliáveis.

As diferenças dissimuladas.

A insistente atenção a nada mais que a estrada.

Hoje, pela noite, passam apenas uivos de revolta,
Poesia abandonada
Vadiando como música excelsa na expressão dorida da escrita,
Decantando a depressão como redenção perversa,
A tinta feita ácido ecoando como badaladas.

Não sei se posso ser assim
Mesmo amanhã quando acordar exactamente igual.


“ Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão”
in Um Adeus Português
Alexandre O’Neill”

última gota




amanhece
a cidade dorme e desperta
aos poucos, primeiros, os silêncios e suspiros da manhã
nas margens do inverno desfeito suavemente
passos ecoam e desgastam as esquinas onde curvam os dias sempre iguais,
as pessoas, as nossas, das mesmas ruas e minaretes enclausurados

(pausa)

lágrimas
gotas confundem-se em pólen libertado no vento
repousando em tapetes e relva escura, alcatrão
sepultando a última terra
a que não respira
que envolve em dura prisão eterna
libertadora

- onde estou?

(ao fundo)

- chorando a última gota de paz...



(Escrito em Madrid, no dia 11 de Março de 2004. Para quem insiste em viver)

sexta-feira, março 12, 2004


Quando ninguém olhava

Passava os dias iluminado por uma janela
Esperando os dias seguintes
Escoando memórias inquietas
Esvaziando contornos de feridas
Abertas, sem horas nem promessas
No sossego
Quando ninguém estava a olhar.

Custava viver emparedado no teu silêncio
Devassado de ambições e chama
De olhos abertos, adormecidos sem lágrimas
Com as mãos mordidas, em sangue
Presas violentamente na parede.

Percorrer a vida no meu rasto
Pisando as minhas pegadas
Respirando os mesmos minutos
Sem trabalhos de monta
Que tudo o mais daria muito trabalho
Como falar
Como sonhar
Como inventar
Como vivermos com pressa de viver.

Quando ninguém olhava
Deixei de te ver
Respirei o meus minutos sozinho
Iluminado por uma janela
Á beira do mundo, começando outra vez.
Acorda-me

Um corpo caótico que se devora a si próprio
Numa descida arrojada e temente às profundezas
Abismos impossíveis sem tempo.
Odeias-te.

Nos lugares ermos ou desocupados
Até nas piores avenidas
Em deambulações estridentes
A tua encenação intermitente
Uma farsa ácida de volatibilidade inebriante
Agitando águas dos quotidianos sombrios.
Odeio-te.

Dois corpos à deriva
Expatriados do mundo
Sugando-se
Nas peculiaridades da essência
Num despertar incandescente
Todos os dias destes dias
Rindo e praguejando
Cinismos musicais soando de forma bizarra.
Amo-te, não sei porquê.

Acorda-me, não te esqueças!
Não me esqueças.

“Há sempre uma noite terrível para quem se despede do esquecimento”
Herberto Helder, in Poesia Toda – 1996


sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Lixo


Se a noite enganou
A manhã veio desvanecer de qualquer dúvida.
Em tinta escura, sujando os dedos
Ou ao sabor de uma estranha melancolia
Uma banda sonora dissonante de sussurros e zumbidos
Mostrando um espólio de luminárias
Capaz de incomodar.
E num instante que é breve,
Num franzir de sobrolho,
Uma narração insólita de sombras,
De tudo aquilo que vem à cabeça...
Queima como gelo um desprezo tão determinado.
Ironia da ironia,
Inteligência de quem mexe ao sabor da inquietação,
Tudo é apenas uma coisa:
Doce morfina derramada que nos sacia
Em pequenos espasmos
Cuidadosamente administrados,
Como intrigantes viagens sem amplitude no tempo.

*

"Há dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima”
Eugénio de Andrade, in Lugares do Lume


quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Exuberâncias dos infernos ao crepúsculo



Um sorriso amargo, esboçado sem convicção,
Perante a infinita tristeza das fotografias de pontes sensíveis,
Testemunhos cegos de um universo tortuoso,
Abordagens retorcidas e estilhaços
Cravados, sem aviso, nos meus pesadelos.

Um sorriso amargo, escondido,
Perante os desejos sublimados,
Os devaneios febris da vida sem sentido,
Perdidas em desertos nocturnos de aridez profunda,
Em páginas de cinzento escuro nas mãos.

Um sorriso amargo, fingido,
Esvaindo-se em cansaço e abandono,
Cedendo à morbidez fluida e aberta de respirar o mundo dos suicídios,
Perder o sono com estranhos, sem os ver,
Sem ter coisas para dizer,
Prolongando o absurdo,
Forçosamente divagando sobre as nuvens negras destes dias.


Esquecendo-se...

No rio,
A madeira apodrecia ao sabor das vagas
sem queixumes ou alaridos de nota,
presa às margens por cordas que já não estavam.
O barco jazia sozinho,
descobrindo-se ao ritmo das marés,
esquecido, esquecendo-se.

Chovia e o frio era o mesmo,
o arrepio de Janeiro que não cessava,
fustigando a varanda, batendo furiosamente na janela,
os algerozes lançando esguichos de água e folhas,
inconsoláveis precipitando-se no passeio.


Em mim,
no desespero,
perdi os sentidos gritando,
por não ter movimento nem autonomia,
por ser em mim a minha prisão,
o meu carcereiro escondendo a luz,
fechando as portas.
Os passos na escada,
distantes, cada vez mais,
aliviados e temerosamente mudos.

Calaram-se as vozes, receando
a tempestade próxima que se avizinhava,
o céu, escuro e ruidoso, ameaçando cair sobre nós,
sobre os que desprezam quem é livre,
sobre os que não sendo, desprezam poder ser.

Não se ouviram mais palavras.

Na avenida sobre o mar,
os prédios ofuscando a manhã,
escondendo-se nos vidros, o reflexo.
pintando o rio perdido nas esquinas,
ondulando nas paredes em pedra,
dizendo-me para seguir,
para continuar a caminhar.

Ao longe o barco definha nas águas turvas do tempo,
como eu,
escondido atrás dos reflexos, intransigente,
esquecendo-me que ainda o vejo.
como água



Descobri que te amava num qualquer dia,
Num jardim de ondas
A sós com a nossa visão,
Procurando as palavras que não criam raízes, não escavam feridas,
Pressentindo a nudez acústica da voz,
Nas palavras saltando esquinas de luz,
Hesitando sobre o futuro de descoberta do outro,
O irremediável desencadeando antecipações.

Nas águas turbulentas das emoções,
Imaginação faz-nos esconder atrás das coisas,
Da presença de espírito para partilhar os riscos do desequilíbrio,
Os estragos em águas turvas,
A insolência, ironia, renúncia,
A excitação desconcertante de nos deixarmos assombrar,
Observando o movimento do tempo em surdina,
Desvirginando em segredo a rebeldia embalada pela música,
A paixão atravessando a complacência com risos pirotécnicos,
Cada dia como o anterior, sempre,
Sempre que sejamos nós,
Juntos, como água


segunda-feira, fevereiro 02, 2004

a natureza da acção


O Aeroporto de Lisboa já me permite respirar, suspirar as palavras, as ultimas e derradeiras.
Sorrir perante os inebriantes enganos que já conheço, reencontrados e entregues em delírios obsessivos, outras vezes traçados pela casa, em cada divisão, em cada parte
Um corpo inteiro de volúpia, desmaios, serenos de prazer, sorrisos incandescentes e transbordantes arrancados ao suor salgado da pele, naufragando em sonhos de sémen derramado, elevando os olhos fechados ao cúmulo da abstracção, tentando não pensar, apenas respirar, esquecer o mundo por baixo, lá fora.

Sozinho na multidão de Agosto no porto de Piraeus, em Atenas, esperava-te no mundo, na secreta esperança de naufragar, desaparecer por um instante sem marcas nem gotas do mar que nos salpicaram de sal, morrer com hora marcada, antes de percebermos a realidade, o minuto seguinte à insensatez orgásmica, o único momento de sinceridade antes de acordar para a verdade que pensámos ter perdido, diluída no azul do Mar Egeu, à deriva em ilhas que descobrimos o prazer.
A tua inabilidade para perceber a genética masculina igualava o desconhecimento americano de outras culturas, mas desculpa-se, esquecia-se, esquecemos, nos inúmeros momentos quase contínuos de sexo sem limites às nossas reservas, começando sempre inesperadamente, mas acabando irremediavelmente da mesma forma. “Amo-te” , não como normal palavra soletrada, mas como suspiro aliviando-me da dor do prazer, mais forte do que eu, entranhado na minha genética.
E magoa, magoa-nos a nossa incapacidade de aceitarmos que somos diferentes.

terça-feira, janeiro 27, 2004

fim de festa


Em atmosfera de fim de festa
Suspiros voam já saturados,
Mergulhando em águas menos límpidas,
Expulsando a manhã na varanda do lux.
Assobia-se para o lado, a sensualidade,
Observando dissonâncias de pureza e
Vestidos translúcidos brilhantes,
Soprando, sentindo,
A temperatura porno chique exalada de dentro,
Em gestos operáticos propensos ao horror,
Sem depurações nocivas ao ambiente irreal
De ligeira demência pecadora e carnal,
Instigada, embalada,
Amargo limão que se estranha e entranha,
Como a música.

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Ciúme conduz ao homicídio...
...por interposta pessoa.

O piano ficou por aí
Procurando sobreviver sozinho na aridez da minha sala,
Num imenso silêncio entre a música,
Choro de abandono e desamor,
De volúpia predestinada a um frenesim sufocante
E descobertas revolucionárias.
Mas sobre nós desceu uma certa tristeza,
E todos os dias ao telefone
Um apetite voraz pelas outras coisas lá fora,
Um calvário a caminho da purificação,
Mea culpa pelos equívocos que esqueci
E o apetite voraz por tudo,
Que se perdeu na calma sulforosa da minha prisão.
E pela tua mão, a minha,
Já esquecida do toque da música,
Engelhada pela clausura e sedenta de vida,
Levou à minha boca muda
Todas as substâncias proibidas que não sabia pronunciar.

Abriu-se a janela...










sexta-feira, janeiro 16, 2004

Adormecido

Calado como ausente,
Ouvindo, de longe, a voz,
Os olhos cerrando-se com a boca,
Dormente, adormecendo,
Submergindo-se com as coisas da alma
No silêncio que oiço distante,
Escondido nas brumas torpes e poluídas do horizonte citadino,
Confuso mas simples e subtil
como noites de lua cheia entre recortes de betão,
Morrendo e vivendo nas palavras que se perdem e inventam
Quando chamo por alguém na multidão.

terça-feira, dezembro 30, 2003

Fazia tarde


Fazia a tarde, horas a mais,
Escapando-se pelos dedos, a areia presa ao teu rasto,
Em linha com o céu, sem estrelas, desaparecidas,
Numa calmaria diluída em maresia e espuma,
Bocejando, perdido à deriva no pontão,
Deixando o último sol aquecer o ar.
De olhos fechados, ouvindo os insectos no vazio,
Desconhecemos juntos o fim do dia,
Nada perguntando e consentindo,
Soltando fingimento, sorrindo,
Aquecendo, sem chama, a alma já fria.
Inadaptado

Sempre inadaptado.
Sem medo das palavras e da solidão
Pulsando nas ruas, longe da vista,
Acossadas, sobre um manto de ópio
Resistindo ao deslumbramento intemporal e cosmopolita,
Da inércia claustrofóbica e ofegante das cidades.
A experimentação e o sonho são permitidos por Deus,
Como tertúlias intimas e melancólicas,
Nunca como pactos fausticos e juramentos causticos,
Antes coniventes com os dias futuros da criação.
A solidão recusa explicar-se a uma só pessoa.
As ideias não se diluem na rotina porque imperceptíveis,
Obedecem a impulsos dissonantes,
A olhares fulgurantes,
Nunca esperando que por elas se espere.
Igualmente diferentes, as cidades.
Vibrando as vozes presas dos rótulos,
De diferentes formas assinaladas e escondidas,
Em latitudes geográficas de bolso.
As cidades, como tinta da china,
Sopradas numa folha de papel
Espalhando em distâncias fulgurantes subúrbios detestáveis,
Adubando violentamente as ideias,
Elevando-as à diferença.

Sempre inadaptado, enquanto pensar.
Nocturnos Suburbanos


Tudo se reconhece e nada se conhece,
Entre equívocos de betão e ferro,
Inoculando o espectador viajante
Em tons uniformes e ausência de cor,
Atordoando sentidos,
Mecanizando a inexistência de rituais.
A aparente esquizofrenia impera no mundo natural,
Este de dormir tranquilamente
Em seis carruagens hitlerianas,
Expurgadas de manifestações de vida,
Inventado o misticismo e a alquimia
Da melancolia a caminho do trabalho
De criaturas híbridas à deriva na vida moderna de segunda geração.
A idade maior do global e uniforme,
Das caricaturas exportáveis de gatos com o cio
De lá do oceano a cidades abraçadas e confundíveis
Vampirizando-se,
Sugando vida e respiração ao longo dos carris.
O amor feito em subliminações libidinosas,
Glacial e indiferente,
Fornecido e vendido via contacto seguro e higiénico,
Em dias tardios e lentos,
Ritmado por calendários semanais,
Sem forças nem forcas de nylon para apressar a mudança.
Todos, inconscientes, recusando ver
A tenebrosa fantasia da realidade.
Ouve a cidade

I
Escutar o som, o murmúrio do silêncio da água, o rio acariciando a pele de pedra branca, em vela, ao vento. Os gritos de calma na multidão, sobre as árvores, de ferro e vidro, que reluzem, adornadas em reflexos opacos como silhuetas de cidadelas iluminando a água, tremendo, cantando, aceitando o fado, o inverno esperando o verão. Descer a calçada com a manhã, escondendo o cansaço e a luxúria, proibida, pecado originalmente inventado entre o caos do rumor e movimento nas avenidas, correndo para abraçar as risos ao alto, crescendo como fogo de artifício, zunindo em carris de ferro feitos teias

II
Cheira a mar. Respiras suavemente, ondulando a pele ao mínimo toque. Atiro uma pedra e os meus dedos tocam-te três vezes no corpo, até caírem na tua boca, depois de outra onda. Salpicos de poesia murmurados ao ouvido, indo e vindo, enchendo a maré, transbordando amor ou outra coisa tão boa como esta, de estar aqui, contigo. Sinto o cheiro do cais subir a rua, do horizonte até aqui, onde está o teu perfume, o aroma dos teus olhos. Uma investida sobre ti e as gaivotas voam rasando a água, ameaçando pousar, insinuando, finjo beijar-te desinteressadamente.
Do mar aqui, de ti a mim, uma avenida marginal, tapada por casas, por roupa que queremos arrancar, que impede o vento de circular, a nós de respirar. O sol aquece-te, junto a mim, enrolados numa manta, na névoa que se levanta, no ecoar dos passos, das batidas do coração incontidas e descontroladas, lançando sangue na rua como alma nas veias..
Assim como um estranho, vindo do outro lado da rua, cheguei à tua margem convidando-me a entrar, sem saber o teu nome. A tua casa, branca, cheira a mar, a tua alma ocre, pele ousada, colou-me aos olhos tristes por nada. Enrolados na cama, nos ferros da tua varanda, esperando que me perdesse, deixei-me dominar. Entreguei-me para que fosses minha. Nem com a manhã deixaria de ser teu.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Saudade

Suspensos por sílabas e palavras, apenas,
Subimos ao mastro, almas vigilantes
Temendo não ver, chorando, jurando, segredando não ter medo
Da madrugada uivando nas cordas
E o marulhar soturno na amurada,
Murmurando promessas salgadas,
Juras de bem querer eterno,
A conversão e a redenção
Ante o céu e o mar que nele se prolonga.

O universo é um ruído a converter-se em harmonia,
um corpo a mostrar a alma. (Teixeira de Pascoaes, Aforismos)

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Equinócio

Ao cair da tarde,
A mudança de estação,
Reflecte-se na cidade,
Percorrendo escadarias,
Agitando a folhagem e
E os gemidos das árvores,
Na luz e no ar,
Crescendo como um rio,
Detendo-se por algum tempo,
Nos primeiros passos de uma risada prestes a começar,
Observando,
Que numa fina linha poderá estar todo o mundo,
Que não se contém nem se domina,
Que cresce solto e determinado,
De forma subjectiva como a análise de uma paixão.
E noite desperta, fresca,
Quando finalmente dança o tempo no mundo.

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Inspiração de poder mentir (o meu jazz)

Espíritos inquietos interrompem alguma música,
Reflectem-se, anunciam os perigos e a morte flagrante,
Atiram para o fundo de si próprios canções obscuras,
O som quente das vozes elevadas acima dos risos,
Irreais e ofegantes,
Deslizando no brilho negro do vinil.
No negro abafado do fascínio obsessivo pela incursão e fluidez,
Ocasião para um lamento.
Depois do vazio, um céu inteiro dentro do peito,
Como uma metáfora aprisionada,
Da sonoridade dos gestos e a carnalidade das vozes.

Como se escolheria olhar em Nova Iorque,
A forma ávida de boémia que os ausentes manifestam,
A presunção da certeza e a expiação de pecados?
Aqui, no meu lugar,
Desvio de um mapa paralelo às linhas traçadas,
Para onde vai a raiva e o medo,
Sufoca-se em delírios rarefeitos pela experimentação dos dias,
Queimam-se compêndios e interlúdios fingidos,
Movimentos perpétuos de recusa da nostalgia e da tristeza,
Dos quais cansei-me.
No mundo de incertezas é inspirador poder mentir,
Sorrir sobre a estupidez como acto de agitação,
Tais virtuosos arrependidos de vícios recuperados,
Sem hesitações de rumo.

No brilho negro do vinil,
A música não mais se interrompe,
Libertando letras fluidas,
Sentidamente fingidas.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Descanso à noite


Sem guia ou vigília, sem estribos
Porém taciturna, a noite chega,
Sem horizonte nem horas para deixar de morrer aos poucos,
Na evidência abrupta e genética de ignorar as evidências,
O óbvio que é a distância daqui à morte
Observando a rua do alto de vinte andares, sem luz,
Fugindo aos cantos indeterminados dos meus ébrios suspiros,
De tédio e apatia.
À noite, no silêncio infinito e escuro da minha janela,
A água quieta vibra no vidro, lenta, dilatória
Como sangue passando abaixo da minha pele,
O suor pingando sobre as pestanas, ardendo nos olhos,
Fazendo-me querer arrancar esta pele de impotência e frustração.
Tenho medo das dúvidas e da certeza,
De sair e atravessar a cidade, evadir-me sem suspeita
E descobrir apenas as alegrias que me são permitidas,
Fetiches tão vazios e sem sentido
Como este open space claustrofóbico,
Ordenado, limpo e sufocante.

*
Beijo o vidro e o meu reflexo foge da janela.
*
A distância daqui à rua desaparece,
Inexplicavelmente,
De uma forma indolor.

Instantes

Soltas um suspiro pela minha dor,
uma oração murmurada e ausente
em doce canto,
o adeus sem a amargura das palavras,
sem gratidão pelas almas que choram,
as nossas,
a minha, sem te esqueça,
sem um só minuto que não te adore,
porque as almas que se amam não se esquecem,
não se ausentam, não dizem adeus.
A eternidade não é o instante de um suspiro,
passa o tempo
e a vida segue de outras formas,
palpitante
exuberante como o sangue e a chama
que existe sem ti.
Mas permaneces,
muito para além das horas.

*

No silêncio, enfim, debruça-se sobre o corpo inerte e beija-lhe a testa. As mãos enroladas num pano, limpam-se de culpas, lavam a consciência. Veste o casaco, demoradamente, e abandona a arma em descanso sobre a mesa, antes de sair pela porta já aberta. Sorriu. Guardei-a só para mim.



Daniel Bayesha
Vento Fugitivo

Move-se em café arrefecido
Uma certa tristeza de ser urbano,
Em cativeiro,
Um vento fugitivo, em vermelho vivo,
Sem o sabor da manhã ,
Apenas com a luz que atravessa o ar,
Morta há muito tempo, no abismo
Das tardes de outono sem cor,
Invernos de silêncio à noite.

E o café evapora-se sem deixar cheiro
Consumindo-se no escuro cinzento e sujo.
Onde não chove,
O céu, espelho da cidade que não termina
Chora água de ferro, dura,
Apenas transparente na minha mão
Estendida, saindo das arcadas.


Daniel Bayesha


sexta-feira, novembro 21, 2003

Perdidos

A maresia de Setembro faz-me bem. Arrefece o espírito, quente e inquieto, muito subtilmente, sem molhar. O mar no início do Outono, revolto e furioso, escuro e misterioso, faz-me arrepiar perante tamanha demonstração de poder e magnitude de uma beleza serena. Se existisse um lugar de refúgio que pudesse chamar meu, seria um qualquer junto do mar.

Ao fundo, sem distinção, mar, céu e chuva recortados por raios e ecos que racham o silêncio do horizonte. As nuvens passam depressa, espalham-se à passagem, unem o este e o oeste, anunciam que não tardará a pingar. Não tenho abrigo.
Não sei há quanto tempo venho a esta praia, escondida, batida pela tempestade, agreste e selvagem, nem quanto tempo levo a perceber este sabor, a entender este ruído. Poderia ter nascido aqui, ter sido outra coisa em outra vida, um grão de areia, uma concha, ou uma duna feita grãos de areia unidos na solidão de nada serem uns aos outros, além de serem todos iguais na forma. Uma duna movendo-se lentamente ao longo da costa, ora crescendo, ora alongando, vendo as plantas crescendo e morrendo, acostumando-me à ausência de eternidade. Facilmente compreenderia que quem não se desilude é porque não ama e não ama para não se desiludir. Tudo o que fizesse perder-se-ia no ar, como se pertencesse a uma qualquer e pretensa ordem natural das coisas.

Sigo o caminho, olhando os carris, evitando a madeira podre, os ramos secos. O vento corre na areia, levanta as folhas secas. De um lado o mar, do outro as arribas, o sol não tarda a desaparecer, para lá da vista, depois do horizonte. O barulho das ondas diminui, distancia-se, as gaivotas deixam marcas pequenas na beira-mar. Pescadores contemplam o mar, já cansados, enquanto crianças brincam com os peixes deixados na beira da rede. Deixo que anoiteça, que o sol se consuma, lindo, sentir o frio da noite, o arrepio do vento, a areia fresca.

Trouxe-te aqui uma vez. Se debaixo daquela lua, as sombras me podiam enganar, o sentido que o horizonte tinha não podia esconder a simplicidade de uma emoção. Se no escuro, apenas o medo se mostrava, foi na penumbra que me alheei, sem pensar ou a pensar que não o deveria fazer, em que a única referência é o barulho do mar, um eco desconcertante, reconfortante, assustador. Tão assustador como deixar a areia correr entre os dedos, que acaba por se perder no mar. Como se tu, estivesses na minha frente, não por acaso, não por medo, mas porque assim seria.
E isso agora dá-me medo. A praia está deserta, e eu…. Eu, estou aqui, deixando areia escapar-se por entre os dedos. E porque, não só tu, mas outros também não estão.

Perder-se alguém é muito triste. Pior do que se tivesse morrido. Somos obrigados a ver todos os dias, nos mesmos sítios que eram nossos, a alma viva de quem já não nos diz nada. Perder amigos é penoso, mas vários no mesmo dia tem algo de tão dilacerante que chega quase a ser indolor. Perdem-se e não se trocam como outros elementos do nosso plano emocional.
Pior ainda é termos consciência de que se entra num caminho sem retorno, por nossa própria imposição e voltar atrás não é alternativa, embora, no fundo, nos apetecesse. Mas não queremos, e eu, irritado porque tenha a plena consciência que luto contra caminhos que outros escolheram conscientemente, demasiados ofuscados com o seu horizonte. ..

Fico só na praia, esperando os relâmpagos que o céu escuro prenuncia.
Perfurando a tua ausência

A casa há muito que está fechada. Os passos há muito deixaram de se ouvir e gastar o soalho do alpendre, vestido de folhas secas e ramos abandonados do velho castanheiro que teima em crescer no jardim.
Encostado ao carro, espero uns momentos para admirar a ausência de vida no penhasco, para ganhar coragem e atravessar o o caminho de ciprestes até à clareira defronte da porta, que sei que não tentar sequer abrir.
Pedi-te para ficar e esperar fora dos domínios do que queria esquecer. Compreendeste, como sempre. E aceitaste.
O barulho da porta do carro assusta os pássaros nas árvores e ecoa pelas falésias até ao meu peito, batendo ao ritmo dos sapatos esmagando tufos de erva seca, da chave rodando na ferrugem do portão, denunciando que há muito teria sido deixado aberto.
O barulho do mar tornava-se perceptível e presente, ao fundo do pinhal frio atravessando a fina camisola de malha que trazia, não sei bem porquê e agora não me lembro, porque me esqueci que saberia que assim seria.
Desde há umas semanas que não conseguia dormir e a tua presença era demasiado constante para que pudesse levar uma vida normal, sem suores frios, sem ataques de ansiedade, sem pressa para saborear o meu café ao fim da tarde lá na avenida. Pensava que tudo tinha sido enterrado aqui, que aqui tudo tinha sido discutido e resolvido, que fechando a porta da nossa casa, deixava as minhas inseguranças seguramente presas longe do meu precário equilíbrio, continuamente devassado.
Passei ao largo alpendre, dos canteiros de rosas dominados por ervas e mato e procurei as escadas da falésia no meio das silvas, tentando lembrar-me do sítio onde nos vimos pela última vez, algumas semanas, meses atrás, já não sei.
Descobri a velha passadeira de madeira que nos levava ao miradouro e à casa de inverno, onde observávamos e admirávamos o forte mar de inverno, comendo a areia, deformando a praia. È o lugar que melhor me recordo de estar contigo, os dois a sós, a última, onde me pediste em casamento, eliminado de vez a minha vontade de amar em liberdade.
O cheiro a abandono era intenso e insuportável, mas garantia-me que ainda poderias lá estar, que permaneceste presa ao que era nosso, libertando-me para construir o que era meu, talvez obrigando-me a fugir para outra prisão, não sei. Queria apenas assegurar que a tua presença não me teria seguido para onde fui.
A porta estava aberta, mas ao fundo da sala, junto à lareira, estavas lá. Ainda estavas lá. Apesar de tudo sempre altiva e arrogante, mas continuavas como quando te deixei. Sofrendo, clamando perdão, aceitando os fracassos e a inglória luta para me destruir. Nada que que não se resolvesse perfurando o teu orgulho até à ausência de coração, o que, curiosamente, também sangra, dói e mata.
E matou na perfeição, sem falhar, como uma ciência exacta, embora de variáveis incertas e muito indeterminadas, quase improváveis, como o facto de continuares imóvel, na mesma posição, mãos sobre o peito, de camisa tingida, entre a lareira e o sofá, rodeada de bichos e decomposta sem tréguas. Provocaria enjoos, não fosse a satisfação de ver que o meu passado estava morto e decomposto, como que por magia.
A gasolina ainda estava ao teu lado, mas na altura não julguei mereceres a purificação da chama nem pretendia alertar os espíritos à solta na praia nesse Verão.
Receando ter de te ver aqui, ou todos os dias quando acordava ou dormia, lancei-te o fogo, não para te purificar mas para te castigar, para queimar qualquer possibilidade de dignidade que pudesse ainda residir em ti. Assim mesmo, sem perdão, tão facilmente como ignorar o que não sabemos.
Muito devagar, mãos nos bolsos, subi as escadas, atravessei o jardim sem olhar para a casa, fitando o carro ao fundo da alameda descuidada e vazia.
Ainda esperavas por mim, embora ja cá fora, fumando compulsivamente. Se bem te conhecia, não era o primeiro cigarro.
Beijei-te sofregamente, inesperadamente, mas gostaste. Sem medos, sem estigmas, apenas amando, abri-te a camisa, as calças, exibi-te a minha excitação, a minha vontade e encostei-te ao carro, amando-te, rindo, libertando gritos em liberdade, por longos momentos sem tempo.
Abriste-te os olhos e a tua boca desenhou as palavras que me voltariam a matar, a morrer por dentro, a desejar nunca ter amado.
- Queres casar comigo? Disseste chorando de alegria.
Foram as últimas palavras que ouvi da tua boca, antes de te ver desaparecer e soçobrar diante mim, horrorizada com o mal que me infligiste, com a tua crueldade fria e com a faca que perfurei a tua ausência de coração.
o sopro

Sonhos e estilhaços mentindo,
Ferindo e fitando a inquietação,
Esvaídos em medo e a angústia.
A espera dilacera e antecipa,
Contamina por partes o sopro,
De raiva, rancor, medo.
A morte ribomba, atordoa, impõe-se,
Os tambores fraquejam as preces,
Observam o inevitável,
Com escárnio e desprezo
Pelo suspiro, o último,
Sem fôlego, sem razões.
Sonhos, ao arrepio de vento e água,
Molhando, escorrendo, tocando,
Risos, sem sombra nem recanto escondido,
Clareando a penumbra subterrânea da ordem,
Imposta, por momentos esquecida,
Dolorosa percepção assassina da vingança,
Sádico fervor, ódio cortante,
Devorando entranhas
Expostas, sem ventre nem esconderijo.
A terra, em sangue, suplica,
Estranha o incómodo, rogando,
Abrindo-se em páginas soltas,
Indicando o caminho de sulcos e pedras.
O retorno, respirar acima da água,
A marcha, com ódio, desespero,
A demência da putrefacta carne amada,
Aroma de jasmim em flor
Queimando os olhos e ardor,
De quem se curva e turva.
Rasga o peito, beija a morte, procura o sopro,
Fugindo, sentindo
O ar, a água correndo sobre as mãos,
Tingindo de rubro, lágrimas e saliva,
Os olhos mudos e quedos
Como sopros e uivos de corações sem alma.
morremos


Mais um dia. Sempre o mesmo, sempre o mesmo quarto, as mesmas pessoas, às mesmas horas, dando-me as mesmas coisas, com as mesmas cores, os mesmos sabores, dizendo-me o mesmo que ontem. No corredor, as pessoas habituais, fazendo gestos dementes, com quem não se pode conversar, por dizerem sempre o mesmo.
As paredes iguais, brancas, um branco higiénico e maçador, monótono, reflectindo a mínima luz, todo o dia e noite. Só o pôr-do-sol nunca mais vi, por ser atrás das árvores, e não me deixarem contornar o edifício. Já tentei subir às árvores, mas valeu-me dois dias em clausura no quarto, num completo afogamento em medicamentos.
O jardim, nada tem de diferente dos outros que vejo para lá das grades. É apenas o que medeia o meu quarto da avenida, depois das grades. Fascinante e intrigante, um mundo de pessoas, para lá e para cá, cada uma na sua própria vida, atarefadas ou a passear, correndo, sempre correndo, não se sabe bem para quê. Algumas já conheço, por estarem todas as manhãs na paragem do autocarro. Espreito-as por entre as folhas das sebes, sem que elas me vejam. Sei quando têm roupa nova, quando estão tristes, quando têm mais pressa. Ás vezes gostaria de falar com elas, mas tenho medo. A avenida é confusa, barulhenta, selvagem. Assim que penso em sair, imediatamente desisto e volto para o meu quarto.
Depois, é sempre o mesmo. Escrevo. Escrevo compulsivamente, sem parar. Assim posso abstrair-me desta monotonia asfixiante e aterradora, pois não consigo viver sem ela. E por me ser tão essencial acredito que se parar ou sair lá para fora, poderei morrer fulminantemente. Sinto que devo escrever sobre tudo o que possa apreender nos meus breves instantes de paz. Não suporto ver as folhas brancas. Se começo numa página, rapidamente cubro-a, da primeira à ultima página, margem esquerda à direita, inferior à superior.
Algumas delas foram-me tiradas. Eu sei. As enfermeiras e alguns médicos rasgaram páginas. Não para ler. Para rabiscarem nos intervalos para o lanche.
Escrevo e falo com as pessoas que saem da minha cabeça. À noite falo com as pessoas que vejo todos os dias, mas que há noite não estão na paragem. Mas a essa hora posso falar à vontade, sobre tudo, sem ninguém interromper.

Há uma enfermeira que fala comigo, de um modo diferente das outras. De noite, ela entra no meu quarto e, enquanto finjo dormir, ela afaga-me o cabelo, fala de um modo doce, tranquiliza-me. Quando tenho pesadelos, ela aparece imediatamente, conversa comigo. Quando tenho a cabeça cheia, parecendo que vai rebentar, falo-lhe dos meus pensamentos, do que me atormenta, mas que não consigo exprimir de forma alguma. Choro por nada, tenho ataques de ansiedade, por nada. Penso em perguntar-lhe porque estou naquele quarto. Mas desisto. Tenho medo que me responda que já não é necessário, que já posso sair, que já posso conhecer a Avenida e falar com as pessoas que vejo todos os dias. E tenho medo. E calo-me.
Ela parece preocupar-se apenas comigo. Reparei que raramente fala com as outras pessoas, as outras que passam nos corredores compridos, com olhares vazios, sempre olhando para o fundo, nunca para nós.
Algumas noites, não conseguia dormir e andava de um lado para o outro no quarto, perdendo os passos no eco do corredor. Os medicamentos não faziam efeito. Continuava a fingir que dormia. Tinha medo que me mandassem embora, que a enfermeira não mais conversasse comigo.
Perdia noites inteiras à espera que o dia viesse, com medo de adormecer, com medo de sonhar com coisas sem sentido. Tinha medo de falar sobre eles, tinha medo de delirar e que me diagnosticassem algo próximo da demência. Isso significaria que me poderiam prender naquele quarto horrível e eu queria sentir que estava ali porque queria, enquanto me sentisse bem, enquanto não perdesse este medo irracional ao exterior.

Mas naquela noite, havia mais ruído do que o habitual. Ouviam-se mais vozes, muitas, sobrepostas. Espreitei pela janela e reparei, por entre as folhas e ramos das árvores, luzes e gente, falando alto, rindo, cantando. Vinham do exterior, da avenida, para lá das grades. Abri a porta com cuidado, para evitar os rangidos, pé ante pé, percorri o corredor, interminável e vazio até à saída. Não havia ninguém.
Saí para o jardim. Estava húmido e caíam algumas gotas dos beirais e das árvores. Os candeeiros continuavam avariados, pelo que consegui chegar às grades sem que ninguém me visse, não obstante ter tropeçado nos vários canteiros que encontrei pelo caminho. Afastei as sebes e espreitei pelas grades.

Por entre o silêncio que se instalou, apenas uma pessoa virou a cabeça para as grades onde eu estava. Não identifiquei quem olhava, mas quem o fazia sabia de certo quem eu era. À medida que se aproximava, senti uma ansiedade anormal. Comecei a pensar a uma velocidade alucinante.
Reconheci. Não queria admitir, mas reconheci quem se dirigia a mim. Já não me controlava, voltar para trás e fugir não era solução, o meu quarto branco e monótono já não servia de abrigo, já não me protegia dos meus medos, da minha falsa segurança, que se espalhava no chão como um colar de pérolas desfeito.
Como se a minha vida acontecesse naquele momento, como se tudo se resumisse a breve instantes, nos mesmos em que revisitei a minha vida, os meus sonhos.
Quanto mais se aproximava, sentia que não havia volta a dar, que estava à beira do precipício, decidindo enfrentar o que quer que fosse, ou cedesse à facilidade e saltasse.
Sinto uma mão aparando-me para descer das grades. A enfermeira. Trazia um casaco quente para me confortar, olhando-me com carinho e atenção.
Do outro lado. Tu.
Tu
Tu.
Tu.
Ali, sem falar, sem emitir um som, sem que eu pudesse ouvir o teu coração bater, depressa ou devagar. Esqueci-me do teu timbre de voz, dos teus risos, dos teus movimentos. O que queríamos falar, o que eu não dizia, mas gritava por dentro, com todas as minhas forças até à exaustão. Tremi, de frio, de qualquer coisa. Meti a mão no bolso. Respirei fundo. Tentei ouvir o meu coração.
Nada.
Deixei de ter frio.
Nada.
Morri.
Deixei de ouvir os aplausos. As vozes desvaneceram-se lentamente até não as ouvir mais. Mexias os lábios mas deles não percebi o mínimo som, uma única palavra.
Estendeste os braços por entre as grades, tentando alcançar-me, mas sem sequer senti algum toque, por mais leve que fosse. Morri. Naqueles breves mas intermináveis momentos em que me tentava aperceber do que se passava, enquanto a minha vida corria vertiginosamente em frente aos meus olhos. Já nada importava, já nada sentia, já nada queria, como se nunca tivesse pensado nisso.
Agarrei-te na mão, puxei-te contra as grades, e enquanto te segredava ao ouvido “ Tu não existes”, espetei a faca que roubara na cozinha, no teu peito.
Como se o tempo tivesse parado, como numa dança, apercebi-me dos teus pormenores, da forma como cada parte do teu corpo se moveu. Os olhos abertos, falando, a boca semicerrada, o corpo girando graciosamente sobre si mesmo. As mãos no peito, perdendo a segurança, enquanto tentava segurar um jorro de sangue, que empapava a roupa, salpicava o passeio. Se alguma coisas querias dizer, ficou contigo, enterrada no teu peito, com a minha faca. Não queria ficar com mais nada teu, nada que me fizesse pensar em viver com esperança de que tu aparecesses e me dissesses ou desses algo.
A enfermeira largou-me. Não gritou, não se moveu, não disse nada. Simplesmente fitou-me por segundos, observando-me surpreendida.

Depois disso o habitual. Um corpo no chão, sem vida, pedindo atenção, pessoas e mais pessoas correndo como loucas, sem saberem ao certo o que fazer, comentando, dando largas à imaginação, inserindo na sua vida sem vida, um episódio grotesco mas excitante. E eu.... Eu saí calmamente para a avenida. Já não me assusta. Morri e agora tudo o que se pudesse passar, não passaria por mim.


P.S: Recebi hoje a notícia de que foste enterrado no cemitério do Alto de S. João. A enfermeira disse que foi uma cerimónia linda, com muita gente, vieram pessoas de Barcelona, que estavam todos vestidos de preto, que lançaram muitas flores sobre o teu caixão, não obstante os coveiros terem tido imensas dificuldades em prosseguir com a descida à terra do teu corpo, uma vez que chovia copiosamente e a cova encheu-se rapidamente de água e lama e pareceu-lhes mal afogar uma pessoa morta. No entanto não foi vergonhoso, pois todos fugiram a abrigar-se da chuva e ninguém viu o insólito acontecimento.
Contando com o ciclo da água, é provável que a água onde te afogaram fosse proveniente do Tejo, pelo que, além da vista magnífica, ficaste bem junto do rio que tanto gostavas.
Acrescento que, como também morri, vou deixar de escrever, e já não me importo que as enfermeiras levem estas páginas. O facto de serem brancas e imaculadas já não me atormenta. Podem perfeitamente permanecer em branco.
gato e rato

Em cubos, o açúcar desfaz-se como água ráz violeta no céu e ao fundo do corredor, vermelho - sem intenções óbvias – a divina cumplicidade de Deus e o Diabo num corpo só, rindo e corando, sem nesgas de penas ou provações, rebola-se numa aparente simplicidade e inocência da minha cama.
Do sofá de veludo azul apenas vejo uma nesga de pecado, aquela que me concedeste, afastando censuras por patente gozo depravado e voyer, que não me permitirias ter.
Por mim gatinharia pelo chão de madeira envernizada, duplicando no reflexo o meu divertimento, partindo para conquistar, novamente, esses domínios que insistes reclamar como inexplorados.
Dizes, sem levantar a voz, que não devo sair de onde estou. Aceno que sim, concordando, apesar de não me veres e continuo a beber o meu café, adivinhando o que não irás fazer.
A luz já não entra na janela, o relógio marca a mesma hora há cinco horas, numa em que arrancaste a ficha da parede, em cada dia desta semana, ultrapassando os limites do cansaço e da agonia do excesso do prazer, como casas de veludo e talha dourada, em cada ínfimo ponto que pudesse ser preenchido.
A chávena de café já transbordava, como eu, preenchido de antecipação, estupidamente, ou inteligentemente, como um jogo. Sabia perfeitamente onde tudo iria acabar, e lembrando como era, fazia por esquecer, extasiado por surpresas melhoradas, sempre que as mesmas aconteciam.
A musica apareceu, sem que desse por isso, mas encostou-se a mim como um gato, ronronando. “Quiereme” da Núria Fergó não era bem o que eu queria, mas nada como salero de fim de tarde num quinto andar da Sétima Colina.
“Quiereme, como se quiere por primeira vez, quiéreme, quiéreme para lo resto de la vida.......” e por aí adiante, percorrendo o corredor, sem parar, pisando tudo o que atiraste pelos curtos intervalos em que abrias a porta, rindo, sorrindo, provocando, com saídas esporádicas e rápidas, como um jogo de gato e rato que sempre gostei de jogar contigo, desprevenido, à mercê da tua militante loucura, nada virginal, sem tremores de primeira vez, onde eu podia ser rato e gato, conforme o momento e a disposição. Mas gostavas de ser gato de vestido curto, fosse em Paris, Praga ou Atenas, nunca em Nápoles, Nice ou Barcelona. O teu estranho e excitante fetiche da proximidade ao poder não nos deixava dormir numa cidade que não fosse capital, num quarto com janela com vista para o poder.
Fechada no quarto, matando-me de antecipação, sabias que esperaria o tempo eu fosse preciso, sabias que não eram perdidas as horas de preliminares, em que, invariavelmente, chegarias sem que eu ouvisse, tirando-me o cigarro da boca, fechando a janela sobre o Palácio de S. Bento, já iluminado.
Ao fim de cada noite

Ao fim de cada noite era outra pessoa que cruzava as portas do teatro e se dirigia a mim. Era outra pessoa que me dava o mesmo beijo todas noites, naquela rua estreita e corrida a vento, que adormecia com o passar das horas até ao silêncio possível da cidade. Era por outras que perdia a conta aos cigarros e às pessoas que trazias contigo, todas as noites, em ti, e não sabia bem explicar ou esclarecer as minhas dúvidas quanto à aceitação ou recusa da existência delas na minha vida.
Não vivíamos sós. O 4.º andar da Rua da Prata era abrigo para muitas penadas de escrita, tinta sacramentada no papel desvendando dramas difíceis de suportar e impossíveis de controlar em quatro meras divisões, num único espaço, numa única pessoa. Estavam lá a toda a hora, falavam, cantavam, gritavam, beijavam-me, faziam amor comigo, sexo, sobrepunham-se ao rumor do trânsito nas ruas. Mais presentes e pressentidas que fantasmas, arrastavam os dias como se fosse natural que tu fosses elas.

No dia em que peguei nos teus papéis e os atirei pela janela, não estavas lá. Nem hoje sei. Não estarias só. Estarias demasiado enebriado com tanto conhecimento, tanta experiência e pensamento numa só pessoa que te esqueceste que eras só uma, tu, só com tanta demência, louca por tanta oportunidade, viver de uma só vez todas as emoções de uma vida. A tua sede de viver a representação atingiu contornos para além do imaginável. Passaram a ocupar todo o teu espaço, sem margem para perceberes, na realidade, a existência de uma realidade.
Noutra altura rasgaria as tuas vozes, as tua caras, com pressa de as não ver ou ouvir, a cada instante, a cada interminável segundo. Naquele dia, reuni cada um deles, os teus papéis espalhados por cada canto da casa, como que vigiando, como que deixando companhia para a minha solidão forçada e juntei-os num enorme monte, metodicamente empilhado. Abri a janela e, um a um, tive o prazer de ver voar cada um deles, desde a janela à rua, ao rio, sendo definitivamente esquecidos em outros, mais banais, no chão, sujos e amarrotados. Podia jurar, que mesmo assim, os ouvi rir.

Soubeste do sucedido porque voltaste mais cedo e assististe ao meu deleite indisfarçável. Não me apercebi da tua reacção nem da tua presença.
Não voltarias. Estarias mais dois meses em cena, no teatro ou em qualquer rua batida pelo vento, acabando de te destruir e esquecer nas personagens que promoveste, criaste e levaste a viver contigo, anulando-te irremediavelmente.
Dos teus papéis, guardei apenas dois. Duas poesias escritas há não sei quanto tempo, quando ainda eras tu, representando a tua vida e a imagem que eu tinha de ti, quando vivias comigo. Só nós dois, ao fim de cada dia.

quarta-feira, novembro 19, 2003

Sobre a nossa cidade

O barulho dos carris despertou-me, finalmente, de um estado de apatia e sonolência, desde que deixei Barcelona e Madrid para trás.
Na confusão das malas na saída, a minha prendeu-se com a seguinte, de uma forma inexplicavelmente complicada, impossível de soltar. Recordei-me de Agosto nas Ramblas, tu e eu, como nunca, para sempre, desse por onde desse, quando prometemos nós em troca do mundo, por nada que nos separasse.
Acabei por chegar a um acordo, como sempre. Tive de partir a partir a pega da mala, nada de novo, para que tudo voltasse ao normal. E sem me conseguir conter, acabei a chorar, a ver os quadros das chegadas e partidas desfocados pelas lágrimas, sem ver a porta de saída, sem ver nada.
Não consegui fechar os olhos no táxi, pressentia os lugares, cada vez mais próximos, uma ansiedade que me rebentava o peito, de tão grande que era, que me dominava, impedia-me de pensar com razão, nas razões que me fizeram voltar, porque razão deixei Barcelona, porque motivos voltei a Lisboa, depois de tudo o que tive de fazer, deixar de fazer, omitir, mentir, desistir, só para perseguir um sonho, o nosso, contigo, noutra cidade, distante, mas não muito, diferente, mas não o suficiente.
Quase me esquecia de dizer que não era aquele o caminho, que era outro, que não ia para casa, a minha, que depois foi nossa, que agora não existia, a casa que vendi depois de lhe termos pegado fogo numa louca festa de despedida, muito bebida, muito inconsequente, muito nossa, ao som da música que agora mesmo passa no rádio do táxi.
Decidi sair na Baixa, na Rua da Conceição. Um eléctrico barrava-nos o caminho, preso num trânsito infernal, mas normal de tão habitual que era, como as tuas desculpas, as discussões por nada, que eram tudo e por tudo que não era nada. Mas ficavas tão bem, com cara quase a explodir, que ria sem parar. Como se fosse uma fuga à rotina que, forçadamente, querias que entrasse pela janela. E eu não percebi. Ou não quis....
Preferi fazer o caminho a pé até ao Hotel no Chiado, com a minha única mala. O resto ficou na Plaza de España, onde esperei que tivesses a decência de, pelo menos, me levar à estação, quanto mais não fosse para te veres livre de mim, para teres a certeza que me ia mesmo embora, como se me levassem de limousine para a forca, enquanto secretamente, clamava por misericórdia.
No passeio estreito, esbarrava em toda a gente, mas ainda tinha tempo para ver aquelas lojinhas antigas, onde nos cruzámos pela primeira vez, onde desesperei perante a hipótese de um amor não correspondido. Era também aqui que costumávamos comprar botões, tecidos, chapéus para os fatos de carnaval, onde tiraste as tuas primeiras fotografias.
Da última vez que cá viemos, já tínhamos decidido sair de Lisboa, crescer noutro sítio. Improvisámos uma festa de despedida, a mesma que terminou com a entrada fulgurante do corpo de bombeiros no apartamento, acabando com o que ainda não tinha ardido e com a sobremesa que ainda não tínhamos comido.
Cada loja era um ano que estávamos juntos, que crescemos, quantas festas fazíamos, apenas para comemorar o facto de estarmos juntos, a divertirmo-nos, quando cada ano era o nosso ano, quando cada ano parecia ser todo o tempo, como se fôssemos apresentados todos os dias, a nós mesmos.
A chapelaria. Nela percebi que não podia gostar de mais ninguém senão tu. Que no meio da multidão escolhia-te sem pestanejar, que por mais que provasse todos os chapéus, apenas um me assentava, como se tivesse sido feito para mim. Mas para ti, não era isso. Alguém disse que existia tanta beleza no mundo que sentia que não conseguia aguentar. Eras tu. E isso, mal ou bem estava para sempre naquela fotografia. Nós estamos nela.
Subi a rua, subi as escadas do hotel, tentando esconder-me, guardar o medo que tinha, vergonha de que a minha fraqueza se espelhasse cá fora.
Entrei no quarto, fechei a janela para a rua, deixei de ouvir a multidão, escutei o meu coração ecoar nas paredes nuas, brancas e lisas, diluindo-se lentamente na escuridão. Deixei apenas o candeeiro aceso.
Abri a mala e espalhei tudo, rasguei, baralhei e voltei a dar, tentei desembrulhar o novelo em que estavam feitos os meus pensamentos.
Olhei as fotografias, os papéis, tudo o que acabou por ficar de nós. O que escrevi para ti e não te dei, por achar que não existia nada que se comparasse ao que eu sentia, as fotografias que tiraste, só a pessoas que não nós, e que roubei da tua gaveta, por ser a única coisa que guardavas com carinho, por as amares mais do que a mim. Tirei por saber que estaria a tirar parte de ti.
Doía-me amar-te tanto, e lembrar-me de tudo o que não eras tu, consumir-me em quase loucura, porque eras quase o mundo, todo, e tudo o mais que eu imaginava, flutuando sobre a nossa cidade, tentando voar de mãos dadas.
Mas esqueci-me de ti, e eu, lembrança efémera, que ardeu contigo, consumidos em fogo ardente, avassalador. Vazios de tudo e cheios de nada, definhamos por momentos, intermináveis, tentando saber quem éramos, se sozinhos, se tocando o rio com as nossas mãos, limpando os salpicos com beijos.
Dei-te uma parte de mim em troca de uma parte de nada.
Chorei. Tive saudades da inocência irremediavelmente perdida.
E descendo o rio, não eras tu ao dobrar da esquina, era eu, nascendo naquele momento, renascendo de cinzas, já esquecidas e agora voando, com o vento,
sobre a cidade, como nós.